Atentados em Paris

França investiga falhas de segurança nos atentados de Paris

Autoridades admitem ter ignorado o percurso dos terroristas entre a Síria e a UE Encontrado o terceiro terrorista morto na operação em Saint-Denis

Um policial francês, no Metro de Paris. THOMAS SAMSON. AFP (atlas)

Depois dos atentados de 13 de novembro em Paris, que deixaram 130 mortos e 350 feridos, o jihadista belga Abdelhamid Abaaoud foi identificado quase imediatamente como seu inspirador e coordenador. Naquele momento, entretanto, os serviços secretos franceses estavam certos de que Abaaoud se encontrava entrincheirado em Raqqa, cidade da Síria que é a sede do Estado Islâmico. Três dias depois, souberam que Abaaoud se encontrava na Europa, certamente na França, e que havia conseguido passar sob o radar de todo e qualquer controle de segurança, apesar de se tratar de um dos terroristas mais procurados do mundo, relacionado a pelo menos quatro outros atentados.

Mais informações

Essa gigantesca falha de segurança, num país que já se encontrava em estado de alerta desde os atentados de janeiro contra o Charlie Hebdo e o supermercado Hypercacher, representa um duro golpe que motiva muitos questionamentos e, acima de tudo, contribui para aumentar a inquietação quanto à possibilidade de que este não seja o único terrorista procurado que tenha sido capaz de se infiltrar na Europa sem ser detectado. Um grupo de jihadistas, a maioria dos quais estavam fichados e procurados, teve liberdade de movimentos suficiente para organizar e levar a cabo uma matança cuidadosamente planejada em seis pontos da capital. O primeiro-ministro Manuel Valls deixou claro nesta sexta-feira que o perigo se mantém: “A ameaça continua presente, e será longa e permanente”.

O Governo estava convencido de que cedo ou tarde outro atentado era inevitável. O que ninguém esperava era que seu organizador fosse um terrorista fichado e procurado, e que pudesse organizar o massacre estando em Paris. Ele foi localizado e abatido pela polícia, numa operação das forças de segurança em um apartamento da localidade de Saint-Denis, na Grande Paris, graças ao depoimento de uma testemunha. O grupo que se encontrava nesse apartamento estava fortemente armado e tinha planos de cometer atentados imediatos contra objetivos estratégicos de Paris.

“Ainda ignoramos tudo sobre seu itinerário e, portanto, sobre a forma como conseguiu entrar na Europa sem chamar a atenção”, declarou à imprensa uma fonte dos serviços de segurança franceses, admitindo o desconcerto com o fato de que um terrorista que se acreditava estar no feudo do Estado Islâmico na Síria na verdade se encontrasse em Paris, chefiando dois comandos, com um gigantesco arsenal e com liberdade de movimentos suficiente para organizar a matança da sexta-feira.

O ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, declarou na quinta-feira que “somente na segunda-feira, depois dos atentados de Paris, um serviço de informação de um país fora da Europa nos informou que havia tido conhecimento da presença de Abaaoud na Grécia. Não nos chegou nenhuma informação procedente de outro país da UE”. Esse jihadista belga de 28 anos não era um terrorista qualquer: estava procurado desde 2013 por ter arrastado o seu irmão mais novo para a Síria, além de ter sido diretamente associado à organização de atentados frustrados na localidade belga de Viviers, contra a cidade francesa de Villejuif, perto de Paris, e num trem entre Amsterdã e Paris, em meados deste ano.

Encontrado um terceiro cadáver no apartamento de Saint-Denis

A polícia divulgou outros avanços na investigação da célula terrorista que estava entrincheirada em um apartamento de Saint-Denis, no qual, durante a investida policial, foi morto Abdelhamid Abaaoud e, como foi confirmado na manhã de sexta-feira, outras duas mulheres. O terceiro cadáver encontrado no local da operação, um apartamento em um edifício decadente de um local desfavorecido do centro de Saint-Denis, também é de uma mulher, sobre a qual ainda não há nenhuma informação.

A promotoria confirmou também na manhã de sexta-feira que a outra mulher morta na quarta, que se suicidou ao explodir o cinto de explosivos que carregava no corpo, foi identificada. É Hasna Aitboulahcen, uma suposta prima de Abaaoud e que havia sofrido um forte processo de radicalização.

Ela cresceu em um banlieue (bairro da periferia) de Paris, Aulnay-sous-Bois, em uma região de moradias populares conhecida como Rose-des-Vents. De origem marroquina, sua família não tinha condições de criar quatro filhos, o que fez com que crescesse na casa de outras famílias. Foi descrita por seus vizinhos, citados pela imprensa francesa, como uma mulher frágil, marcada por uma adolescência problemática. Há um ano, entretanto, depois de ter desaparecido por um tempo, mudou por completo e começou a usar véu. Ela disse a um vizinho: "Quero ir para a Síria, quero fazer a Jihad". Na madrugada de quarta-feira, se transformou na primeira terrorista suicida a se explodir em solo francês.

Ainda não está claro como e qual será a medida, mas é certo que as falhas reveladas após os atentados de Paris terão sérias consequências, tanto sobre as fronteiras internas e externas da UE como sobre a crise dos refugiados, provocada pela fuga de milhares de pessoas da guerra na Síria. De fato, será realizada na sexta-feira em Bruxelas uma reunião dos ministros do Interior para analisar todos esses assuntos e a França irá defender o controle de passageiros que saem da UE e irá manter a suspensão do Acordo de Schengen. “Esquecer Schengen”, é a manchete do jornal conservador Le Figaro, que afirma: “Quem ainda quer Schengen? A presença de Abdelhamid Abaaoud na França deve fazer com todos os defensores da livre circulação na Europa abram os olhos”. “Como é possível que Abaaoud tenha se infiltrado na Europa?”, questiona a capa do jornal popular Le Parisien.

Uma gravação dos transportes públicos revelada na sexta-feira mostra que Abaaoud foi gravado na sexta-feira, apenas meia hora depois do massacre, às 22h14 (19h14 de Brasília) na linha 9 do metrô de Paris, na estação de Croix-de-Chavaux, em Montreuil, onde foi abandonado o carro utilizado pelos terroristas que dispararam contra vários locais da região dos bares de Paris durante a loucura assassina de sexta. Um dos membros dessa célula, Salah Abdeslam, é procurado pelos serviços de segurança e ainda não foi encontrado uma semana depois. A polícia está convencida, também por uma gravação de vídeo, de que esse grupo era formado por três terroristas: Abdeslam, foragido, seu irmão Brahim, que se suicidou ao explodir um colete de explosivos, e um terceiro até agora desconhecido. É bem possível que seja o próprio Abaaoud.

Mas mesmo que a investigação tenha conseguido completar muitas peças desse trágico quebra-cabeças, muitas perguntas continuam sem resposta. Por onde e como entraram os terroristas ao saírem da Síria? Os que realizaram os ataques na sexta-feira em Paris e os que estavam entrincheirados em Saint-Denis faziam parte da mesma célula ou eram duas células diferentes com o mesmo líder? Qual é a ligação entre os diferentes terroristas que integraram o comando? Essa última pergunta é fundamental: muitos terroristas passaram pela Síria e é possível que tenham se conhecido por lá e outros no bairro de Molenbeek, em Bruxelas, de onde numerosos indícios mostram que saiu o comboio de terroristas. Mas outros, como Hasna Aitboulahcen, a mulher que se suicidou com um cinto de explosivos em Saint-Denis, não parecem ter passado pela Síria e por Molenbeek. Além disso, dois terroristas suicidas continuam sem identificação e um terceiro viajava com um passaporte sírio, com certeza falso, com o qual entrou através da ilha grega de Leros.