Coluna
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O fio-terra dela me faz mais homem

Seguimos perdidos, como diz a lengalenga da crônica de costumes diante do histórico, justíssimo e irrefreável avanço da “fêmea”?

Aproveito o eco do som, da fúria e do furor do feminismo nas ruas do Brasil, contra os milhões de Cunhas e seus colhões de porcos chauvinistas, para refletir sobre a condição do “macho” dos trópicos nesse perigo da hora. Com todas as desculpas aos suínos, evidentemente...

Sim, a condição do macho, reflito. Seguimos perdidos, como diz a lengalenga da crônica de costumes –este claudicante cronista incluso!– diante do histórico, justíssimo e irrefreável avanço da “fêmea”? Perdidos ou acomodados? Uma coisa é balbuciar clichês de apoio, como às vezes me pego, outra é estar no jogo-jogado da prática.

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No que ouço o sample do cantor e compositor Belchior ao longe: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria...” Desculpai aí, el bigodón cantante, espero que me entenda. Sem essa da inveja do pênis, doutor Sigmund (as fêmeas continuam invejando essa nossa insignificância?), sem essa, se liga, hoje em dia elas têm mais pau do que nós. O pau moral, o pau da pronúncia, o pau do discurso...

Pense numa macheza difícil!

Se até uma dedadinha médica no fiofó, falo do exame de próstata, ainda é essa agonia toda, meu Deus! Vivemos o novembro azul de incentivo ao exame. Estou dentro. Ah, esses moços, pobres moços, ai se soubessem o que sentimos num caprichado fio-terra das nossas namoradas e mulheres eternas, como é algo assim como uma viagem de Gulliver, vixeeee!

O fio-terra dela me faz mais homem!

O que querem os machos?

Óbvio que melhoramos como rapazes, óbvio que o macho-jurubeba é cada vez mais apenas um personagem do machão nostálgico que faz contraponto histórico com o homem mais sensível e delicado nos meus livros. Que diabo querem os marmanjos?

Continuamos repetindo, no boteco da esquina, as mesmas teses ou piadas sobre as “mal-comidas”, as gostosas óbvias, o giselismo gazeloso de um Brasil eurocêntrico (vide Bündchen), a mulher-mignon etc? Sim, de certa forma, continuamos.

Até os ditos “fofos”, aqueles que arrancam exclamações e despertam coraçõezinhos nas redes sociais, vacilam na vida real do botequim

Todos nós que atacamos o Eduardo Cunha e sua idiotice de querer legislar sobre o corpo das mulheres queremos que ele se foda no inferno final da carne moída do fdp. Ele é um escroto em um nível-mor, mas nós homens também somos, talvez por aquela velha história cultural do machismo etc etc etc.

Só quero dizer que não sou ladrão de dinheiro público, todavia sou errado pra cacete em todas as outras possibilidades. Sou um homem de 53 anos, creio que as novas gerações são bem melhores, inclusive muitos desses meninos estão nas ruas nesse momento, meninos que já nasceram de mães enfrentando as múltiplas funções, mães que se separariam com esses filhos ainda crianças, mães-fodas, mães-solteiras, mães de todo jeito, mães que não temem nem um trem carregado de pólvora com um maluco machista fumando na cabine.

O fofo também é canalha?

Até os ditos “fofos”, aqueles que arrancam exclamações e despertam coraçõezinhos nas redes sociais, vacilam na vida real do botequim. Eles até vão às passeatas, todavia se pegam diferente na prática. Você sabe do que estou falando, guria.

Comadre Simone, nós, os latinos, não nos tornamos, já nascemos machistas. Geralmente vestidos com os uniformes dos nossos times –o maior orgulho do pai é que o filho repita essa sina e siga torcendo e mamando o mingau da testosterônica mamadeira patriarcal– mesmo nas famílias cujo mando é do matriarcado. Nosso matriarcado, malditas contradições, sempre protegeu os homens, os almofadinhas (seriam eles os coxinhas açucarados da Casa Grande & Senzala?) e demais senhores nos derredores.

Trinta anos esta noite

Repare como estamos atrasados. Há três décadas, um grupo de psicanalistas, psiquiatras, médicos e escritores realizou em São Paulo o “Simpósio do Homem”. Pela primeira vez especialistas e um público masculino discutiu no país a sexualidade, o machismo e a crise de identidade do homem brasileiro. O repórter Geraldo Mayrink narrava assim, para a revista Afinal aquele encontro de 1985:

“Os homens são um desastre. São péssimos amantes e espalham o contrário”, diz um poeta. “O homem está feito barata tonta. Tomou umas esguichadas de Radiasol e não sabe para onde vai”, diz um cartunista. “Ele está cada vez menos homem”, diz um ator. Menos numerosos que as mulheres, os homens no entanto morrem muito mais, de mais doenças e muito mais moços.

Seguia o velho Mayrink, um dos melhores textos da imprensa da taba Tupi:

Continuamos repetindo as mesmas teses ou piadas sobre as “mal-comidas”, as gostosas óbvias, o giselismo gazeloso de um Brasil eurocêntrico, a mulher-mignon

“São profundamente inseguros, julgam-se bem informados sobre o sexo, mas não progrediram nada em relação aos seus pais e, como eles, creem em mitos que só afastam do conhecimento de si mesmo e de seus problemas. Pior ainda: em geral –ao contrário das mulheres, que organizaram-se em mais de 180 grupos feministas para defender seus direitos e debater suas questões–, sequer se dão conta de seus problemas.”

Parece que avançamos, falo de nós homens, mas não muito. Quem quiser saber mais e comparar a macharada nestas últimas três décadas, o simpósio que relato nestas mal-traçadas linhas foi registrado em um livro: “Macho Masculino Homem”, da editora L&PM, com direito a um texto genialíssimo, e bote superlativo nisso, de José Ângelo Gaiarsa. O livro, esgotadíssimo, é possível nos bons sebos do ramo. Como essa editora L&PM, ave, é importante para nossa pobre humanidade brasileira, da narrativa dos beatnicks a cronistas de agora. Todo amor a quem semeia livros à mancheia.

Trinta anos depois, perdidos ou não, os homens –sejam os da bancada evangélica ou os ditos moderninhos–, continuamos a pisar na bola, para usar a única metáfora universal comum à nossa infâmia.

Xico Sá, jornalista e escritor, é autor de “Os Machões dançaram –crônicas de amor & sexo em tempo de homens vacilões (ed. Record).

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