Por que eu não vou dar presente para meu filho no Dia das Crianças

A publicidade confunde os pequenos, não é justo com eles e deveria ser um crime

Neste dia 12 de outubro, eu não vou dar presente para meu filho. Eu quero ficar perto dele e fazê-lo sentir ainda mais especial. A data não pode ser uma porta cruel — mais uma — para que uma criança seja explorada pela lógica do consumo. O Dia das Crianças tem que ser como o Dia da Mulher: não é sobre flores, como este feriado não é só sobre brinquedos. É sobre direitos.

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O dia dos pequenos, aliás, foi criado com essa ideia. Surgiu, originalmente, com a UNICEF, que escolheu o 20 de novembro para comemorar mundialmente o nascimento da Declaração dos Direitos das Crianças, em 1959. No Brasil a data surgiu ainda antes, em 1924, um ano depois do Rio de Janeiro sediar o Congresso Sul Americano da Criança. Ela só ganhou as dimensões e as características que a gente conhece em 1955. Não é espanto nenhum aprender que a transformação se deu após uma agressiva campanha de marketing para crianças (e pais) da indústria de brinquedos – mais precisamente da empresa Estrela.

De lá para cá, a ofensiva mercadológica sobre as crianças piorou muito. Em muitos países, usar o 12 de outubro como dia de vendas seria simplesmente um crime e é por isso que ONGs e movimentos sociais que pedem a regularização da publicidade infantil também por aqui (se ainda está em dúvida ou acha um exagero, dê uma olhada no documentário abaixo, Criança, a alma do negócio). Até o papel higiênico nas prateleiras dos supermercados tem desenho da Galinha Pintadinha, levando os pequenos à histeria e as mães à loucura. Os personagens saem da televisão, passam pelo celular, caem nas mochilas. Como dizem os ativistas do Movimento Infância Livre de Consumismo, a publicidade atrapalha diferenciar a vontade do desejo genuíno, e isso não é justo com as crianças.

Os pequenos não guardam na memória o acúmulo de presentes caros. Eles provavelmente já têm mais presentes do que nós tivemos na infância inteira. A oferta material pode ser infinita, mas a afetiva não, e é isso que está em jogo.

Nas últimas semanas, voltou-me à cabeça a memória dos 12 de outubro da minha infância. Meu avô, nos anos 80, dando um chocolate para cada um dos dez netos e um abraço forte: “É para adoçar o seu dia”. O que eu quero para meu filho neste Dia das Crianças é uma memória doce como a minha. A sensação de que ele é protagonista. Quem sabe eu ensino a ele uma brincadeira nova. Meu presente será a memória do dia que passamos juntos.