Crise do Brasil pressiona Argentina em plena campanha eleitoral

Especialistas acreditam que o declínio do país estreita a margem entre candidatos

O candidato Daniel Scioli durante uma apresentação na segunda-feira passada.
O candidato Daniel Scioli durante uma apresentação na segunda-feira passada.Alejandro Santa Cruz (EFE)

Brasil e Argentina, os dois gigantes sul-americanos, têm uma longa história econômica em comum. Quase sempre cresceram e caíram juntos. Mas desta vez é diferente. O Brasil entrou em uma fase de ajuste e forte desvalorização – 70% nos últimos 12 meses, 50% só neste ano – e sua economia cai para 2% enquanto a Argentina se nega a desvalorizar – só desvalorizou 10%, muito abaixo da inflação de 25%, aumenta a cada mês o gasto público e mantém um ligeiro crescimento do PIB. A Argentina, em plena campanha eleitoral, vive uma miragem. Todos os candidatos dão boas notícias, prometem mais gasto público e se recusam a falar em ajuste. Mas os especialistas e os dados apontam em outra direção: a crise do Brasil, o principal parceiro da Argentina, já afundou as exportações para o país em mais de 26% e está afetando sobretudo a indústria automobilística, essencial na Argentina.

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“O Brasil é o destino de 50% das exportações industriais argentinas. É crucial para os setores automotivo, químico e petroquímico. A taxa de câmbio não é tão importante como a própria recessão. Os brasileiros param de comprar, não importa o preço. A indústria brasileira está caindo 7%”, explica Diego Coatz, economista chefe da União Industrial Argentina. “Isso pressiona o novo Governo. Mas também não se pode esperar uma desvalorização brusca. A Argentina não pode desvalorizar como o Brasil porque tem muito mais inflação e muito menos reservas. É preciso muito cuidado”, resume Coatz. Não só os brasileiros estão deixando de comprar produtos na Argentina. A desvalorização no Brasil e outros países está afetando todas as exportações argentinas, também os produtos agrícolas, sua especialidade. Em alguns, há quedas de até 67% este ano.

A Argentina está tão cara, ou Brasil tão barato, dependendo do ponto de vista, que a bola está girando de novo. Nos últimos anos, os do boom do Brasil, os brasileiros viajavam à Argentina como nunca e as lojas e hoteis de qualquer cidade do país estavam cheias de seus vizinhos comprando. Neste ano, quando se aproxima o verão, tudo está se invertendo e os argentinos vão voltar a passar férias no Brasil, como faziam nos anos 1990, porque neste momento é muito mais barato um apartamento nas praias brasileira, com avião incluído, que nas argentinas. A indústria turística local já está notando isso.

Na Argentina há muita inquietação pela possibilidade de o Brasil continuar em queda em 2016. “O declínio do Brasil está afetando as exportações e portanto as reservas. Isto traz muita tensão para a agenda do próximo Governo. Essa queda obriga a fazer algo rápido, não vai dar para fazer correções graduais”, explica Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb. Ainda assim, ninguém imagina na Argentina um ajuste como o brasileiro. Porque a sociedade não o aceitaria, e porque não parece necessário. “A Argentina tem mais possibilidades de sair que o Brasil, tem menor nível de endividamento”, diz Sica.

Em todo caso, nenhum dos candidatos fala desse assunto. A diferença entre o que eles dizem em campanha e o que concentra tanto os comentários na imprensa como os debates políticos nos bastidores, nos círculos dos candidatos já longe dos microfones, é abismal. As eleições chegam em 25 de outubro e ninguém quer ser o encarregado de dar as más notícias aos argentinos. “Não acredito que a Argentina necessite de um ajuste ou desvalorização, essas são receitas do passado”, afirmam os três principais candidatos. O Governo se concentra em destacar os pontos fortes da economia, sobretudo o baixo nível de dívida, e diz que a Argentina não seguirá os passos do Brasil. Mas cada movimento do gigante brasileiro é acompanhado com atenção em Buenos Aires e coloca mais pressão sobretudo para o novo Governo. Tudo na Argentina está parado à espera de que um novo presidente dê uma virada, embora ninguém saiba para onde.

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