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Dólar dispara e Dilma chama reunião após rebaixamento do Brasil pela S&P

Com classificação, país perde grau de investimento, o que pode afastar investidores

Standard & Poor's atribui decisão à proposta de Orçamento com previsão de déficit

Dilma durante evento no último dia 2, em Brasília. Ampliar foto
Dilma durante evento no último dia 2, em Brasília. REUTERS

Um dos maiores pesadelos da equipe econômica de Dilma Rousseff e do empresariado brasileiro começou a ganhar forma nesta quarta-feira: a agência de classificação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota de crédito do Brasil, retirando o selo de bom pagador, uma chancela de credibilidade para investidores interessados no país. Uma das mais prestigiadas do mercado, a S&P atribuiu a decisão, menos de seis semanas após a última revisão da nota brasileira, à proposta de Orçamento de 2016 que prevê um déficit de ao menos 30 bilhões de reais. Para piorar, a agência não descartou um rebaixamento adicional. 

No início da manhã desta quinta-feira, a presidenta convocou uma reunião extraordinária da coordenação política para debater o rebaixamento e analisar o novo cenário. Participaram do encontro, que durou duas horas, o vice-presidente Michel Temer e 12 ministros, entre eles Joaquim Levy (Fazenda), Nelson Barbosa (Planejamento) e Aloizio Mecadante (Casa Civil), informou o repórter Afonso Benites.

O mercado também reagiu à perda de grau de investimento do país pela S&P. O dólar comercial abriu em forte alta e a cotação da moeda americana chegou a superar os 3,90 reais. No entanto, ela perdeu parte da força após o Banco Central anunciar que fará leilões de dólares nesta quinta. Às 11h, a moeda dos EUA avançava 1,7%, cotada a 3,8627.

"Percebemos agora menos convicção dentro de gabinete da presidenta sobre a política fiscal", disse a S&P, em comunicado. Para agência, os desafios políticos que o Brasil enfrenta continuam a crescer e pesam sobre a habilidade e capacidade do Governo de cumprir com o ajuste sinalizado durante a primeira parte do segundo mandato de Dilma. Para a S&P,  desafio “poderia significar três anos seguidos de déficit primário e aumento contínuo da dívida se os rendimentos subsequentes ou medidas de cortes de gastos não forem tomadas”.

Em entrevista publicada nesta quinta-feira pelo jornal Valor Econômico, Dilma assegurou que o Brasil continuará comprometido com o ajuste econômico e tratou de amenizar a notícia do rebaixamento. "O Governo brasileiro continua trabalhando para melhorar a execução fiscal e torná-la sustentável. É fundamental a retomada do crescimento. Você vai notar que de 1994 a 2015 só em 7 anos, a partir de 2008, a nota foi acima de BB+. Portanto, essa classificação não significa que o Brasil esteja em uma situação que não possa cumprir suas obrigações. Pelo contrário, está pagando todos os seus contratos como também temos uma clara estratégia econômico. Vamos continuar nesse caminho e vamos retomar o crescimento deste país", afirmou a presidenta. Dilma disse ainda que nas próximas semanas enviará ao Congresso novas propostas de aumento de impostos e de cortes dos gastos públicos. 

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, também reforçou a ideia dos cortes de despesas em uma entrevista concedida ao Jornal da Globo, poucas horas após a notícia do rebaixamento, na noite de quarta. "Sempre há onde cortar", explicou o ministro. Há poucos dias, em Paris, Levy já tinha sugerido o aumento do Imposto de Renda, assegurando que as taxas impositivas no Brasil, sobretudo em relação as rendas mais altas, são baixas em relação ao resto dos países da OCDE.

Para parte do mercado, a perda de o grau de investimento pelo Brasil era considerada certa e já precificada —os agentes econômicos já contabilizavam parte desse custo na hora de tomar decisões ou prever taxas futuras. De todo modo, a apresentação do Orçamento no vermelho, pela primeira vez desde a estabilidade monetária, e os desencontros públicos da equipe econômica sobre o que fazer com o rombo fiscal parecem ter acelerado o processo.

Horas antes da decisão da S&P, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ainda soava algo otimista sobre a possibilidade do Brasil manter a chancela das agências e disse à revista IstoÉDinheiro: "Tem gente dizendo que já está precificado. Não está precificado”, afirmou. “Se acontecer, tudo bem, vamos pegar os caquinhos e tentar recompor, mas vai ser muito mais difícil.”

O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, disse que a notícia foi uma "surpresa" e reafirmou o compromisso do Governo com a recuperação da economia. A oposição chamou o rebaixamento de "tragédia anunciada".

Perspectiva negativa

A nota da Standard & Poors passou de BBB- para BB+, com perspectiva negativa, o que indica a possibilidade de um novo rebaixamento. A decisão da S&P ocorre menos de um mês após a agência de classificação de risco Moody’s rebaixar a nota de crédito do Brasil de Baa2 para Baa3. A agência é a primeira, entre as maiores, a tirar o grau de investimento do Brasil. Na Moody´s, o país está no último degrau, antes do grau especulativo. Na Fitch, o Brasil segue dois degraus acima.

As notas das agências são importantes para que os investidores avaliem os riscos na hora de comprar o papel de um Governo ou empresa, daí a mobilização dos empresários em torno do tema. Na prática, quanto mais alto o risco, mais alto é o custo para que companhias e Estado financiem suas dívidas.  Grandes fundos internacionais também possuem regras que impedem investir em títulos de países com grau especulativo.

"As regras são variáveis, alguns proíbem o investimento se ao menos duas agências de risco classificam o país como grau especulativo. Mas isso é relativo, um rebaixamento como esse é uma senha para vários fundos tirarem seu investimento no Brasil", explica o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Guilherme Perfeito.

Sobre a perspectiva negativa, a agência afirmou que ela reflete uma probabilidade maior que 30% de um rebaixamento adicional devido deterioração fiscal.

A S&P concedeu o grau de investimento ao Brasil em 2008, e logo foi seguida pelas duas maiores agências internacionais, Fitch Ratings e Moodys. O novo status brasileiro foi à época comemorado como uma conquista da economia brasileira.

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