CRISE HÍDRICA EM SÃO PAULO

Os ‘ninguém’ de Alckmin

Governador afirma que ninguém ficou sem água. Os rostos da seca dizem o contrário

Flávia Monteiro, do Butantã, ficou sem água 36 horas. Clique na foto leia relatos de como moradores enfrentam a falta de água
Flávia Monteiro, do Butantã, ficou sem água 36 horas. Clique na foto leia relatos de como moradores enfrentam a falta de águamartha lu

Chovia em São Paulo e o governador Geraldo Alckmin fazia em Brasília um balanço sobre o período mais duro da seca. "Não tem mais nenhum risco em termos de rodízio", declarava nesta quarta-feira  sobre os desafios da crise hídrica durante uma audiência da Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado.

Convencido disso, Alckmin já havia desprezado menos de uma semana antes o plano de contingência, para cuja elaboração a Sabesp e a Secretaria de Recursos Hídricos investiram meses de trabalho, para coordenar as ações que deveriam ser feitas em caso de desabastecimento mais grave no Estado. "É outro papelório inútil. Só pra gastar dinheiro público porque não vai ser aplicada contingência nenhuma. Nós vamos atravessar o período seco sem nenhum rodízio, mas o Brasil é um grande cartório. Tem que fazer papel, gastar dinheiro pra ficar na gaveta, para todo mundo ser cobrado", afirmou o governador tucano.

Em Brasília, Alckmin, partidário de minimizar qualquer sinal de gravidade nesta crise, sentenciou por fim: "Ninguém ficou sem água". A afirmação faz algum sentido se o que Alckmin está buscando é, caso seja bem sucedido, transformar a crise hídrica em um de seus principais ativos para se tornar o presidenciável do PSDB em 2018. Segundo a Folha de S. Paulo deste domingo, Alckmin disse a aliados que, se conseguir chegar ao fim do período de seca sem um rodízio, a gestão da crise pode ser usada como case de sucesso. Para o tucano, apresentar-se como "o governador que resolveu a crise” pode lhe valer pontos, principalmente no Nordeste, afirma a reportagem.

Enquanto discorrem os planos políticos do governador, todos os bairros da região metropolitana de São Paulo são submetidos a redução de pressão nas tubulações até – oficialmente – 20 horas por dia, o que, na prática, significa depender das caixas d'água. Sem elas, as torneiras ficariam secas durante a maior parte do dia. No abastado Jardim América, por exemplo, a pressão cai das 15 horas até às 7 horas da manhã. São 16 horas sem abastecimento regular. A água falta, sim. Em Osasco, em Carapicuíba, na zona leste, na infindável periferia, em escolas, no interior, mas também nas casas de classe média do Butantã e Perdizes. Os rostos da crise hídrica, que contaram seus relatos ao EL PAÍS, contrariam a versão do governador. 

martha lu