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“Fiz o que tinha de fazer como mãe e como presidenta”

Presidenta chilena detalha seus planos para tentar recuperar a confiança da população

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Michelle Bachelet, em entrevista ao EL PAÍS. Sebastián Utreras

O Chile vive à base de escândalos diários. A presidenta, Michelle Bachelet (Nuñoa, 1951), filha de um general que morreu em uma prisão pinochetista, e sempre bem avaliada, afundou nas pesquisas depois de um caso que envolveu sua nora e seu filho, que renunciou a seu cargo no Governo. Nesta entrevista ao EL PAÍS, que estava programada fazia tempo, mas foi adiada depois de uma radical mudança em seu gabinete, a presidenta detalha seus planos para recuperar a confiança da população.

Pergunta. O que se passa no Chile, presidenta?

Resposta. O Chile passou por situações de emergência. Nosso Governo teve de enfrentar desastres naturais como nunca. Em 14 meses tivemos um terremoto, incêndios enormes, inundações, dois vulcões. Além disso, uma economia em desaceleração e com uma desigualdade que não muda, apesar das medidas. E um questionamento das instituições políticas que vem de muito tempo atrás; como médica, diria que é uma doença crônica que se agravou. Os jovens não se sentem representados. Nisso o Chile não é diferente de outros países. Há uma crise de confiança. Nesse contexto aparecem esses fatos e aumenta a desconfiança.

P. Não pensou realmente em momento algum em renunciar após o caso Caval, que afeta diretamente seu filho e sua nora?

R. Nem por esse caso nem por nenhum. Porque quando alguém é eleito aqui é para enfrentar a situação.

P. Arrepende-se do modo como a gerenciou, de sair de férias quando o escândalo estourou?

R. Não tive a dimensão naquele momento do que estava acontecendo, por falta de informação. Se a tivesse recebido eu teria voltado de imediato. Mas, lamentavelmente, a informação que me chegou foi ruim, escassa.

P. Caval, a empresa de sua nora e seu filho, recebeu um crédito imobiliário. A senhora diz que nunca fez gestões para isso. Se não fossem seu filho e sua nora, teriam conseguido esse crédito?

Tenho uma grande confiança na presidenta Dilma. É uma grande mulher, uma grande presidenta, não tenho dúvida de que vai seguir em frente

R. Os bancos não são lugares de beneficência. Esse banco fez todas as verificações técnicas e deu o crédito a quem correspondia. A decisão foi tomada por um comitê técnico, mas esse assunto está em mãos da Justiça.

P. Sua credibilidade, seu grande ativo, está abalada. Os chilenos podem sentir que sobrepôs seu papel de mãe ao papel de presidenta?

R. Uma pessoa não é uma ou outra coisa, a pessoa faz as duas coisas. Mãe eu vou ser toda a minha vida. Como presidenta, estou em meu segundo mandato. Como mãe fiz o que tinha de fazer, como presidenta aceitei a renúncia de meu filho e, além disso, tomei todas as medidas. Também tomamos medidas no ano passado, quando isso não existia, para evitar a especulação com o solo. A promotoria decidirá. Eu, como presidenta, tomei todas as medidas.

P. Por que as pessoas não conseguem acreditar que a senhora não sabia de nada sobre essa empresa?

R. Porque como eu não conhecia a dimensão, o fato de ter chegado tarde já havia suscitado uma percepção na população. E isso já está instalado. Os comentaristas escreviam coisas que não eram corretas, como dizer que eu tinha renunciado. Para a população foi muito forte que fosse a minha família. E isso eu entendo, mas quero dizer que agi como presidenta, fiz tudo o que tinha de fazer. Vamos trabalhar para reconstruir a confiança, mas não por mim, e sim pelo país. Vou usar o capital que tiver e espero recuperá-lo. Estou aqui porque as pessoas me pediram que voltasse. Eu estava num belo cargo nas Nações Unidas. Pretendo demonstrar às pessoas que podem confiar em mim porque vou cumprir.

P. Arrependeu-se de deixar a ONU? Imaginou que seria tão duro?

R. Não, arrepender-me, não. Tem sido mais complexo do que imaginei, sim. Mas as dificuldades não enfraquecem as minhas convicções.

P. A senhora tem reformas muito ambiciosas em sua agenda para os próximos três anos. Podem ser feitas nessas condições?

R. Em tudo o que é probidade e transparência há muito consenso, muita vontade dos parlamentares em avançar.

P. Há um desencanto?

R. Há um desencanto com todas as instituições e com as pessoas, incluindo eu, naturalmente, mas isso vem de antes, não é de agora. Mas o Chile não é um país corrupto. Há casos de corrupção, situações pouco éticas, algumas legais e outras ilegais. O que fazemos? Convoquei o conselho assessor com especialistas acadêmicos, de associações, especialistas em questões de transparência, conflitos de interesse, tráfico de influência. E fizemos uma lista de 14 medidas de maior transparência.

P. Uma mudança constitucional pode voltar a conectar os cidadãos com a política?

R. Primeiro é preciso preencher os vazios legais. E fortalecer os órgãos fiscalizadores. Por exemplo, o serviço eleitoral. Porque aqui o problema fundamental é o dinheiro, os negócios e a política. E antes desses casos nós mandamos um projeto de financiamento público da política. Se as empresas financiam a política, e os candidatos não sabem quem lhes dá o dinheiro, eles vão ao serviço eleitoral e colocam os recursos.

P. A senhora não sabe quem colocou dinheiro em sua campanha?

R. Não, não tenho ideia. E esse era o objetivo quando se legislou em 2003, para evitar cair em um conflito de interesses. Nenhum candidato sabe quando há empresas que o financiam. Mas nós dizemos que não é suficiente. É preciso proibir que as empresas façam aportes.

P. A reforma constitucional devolverá a conexão com a política?

R. Nossa Constituição vem de uma reforma que [o ex-presidente Ricardo] Lagos fez à maneira de [Augusto] Pinochet. Decidimos fazer uma nova Constituição para que nasça na legitimidade da democracia, e não de Pinochet, que se encarregue de déficits que existem. Há um distanciamento enorme entre a elite e as pessoas do povo. Quero evitar essa imagem de oito constitucionalistas que se juntam e fazem uma nova Constituição. Queremos que as pessoas possam participar, com conselhos, consultas, reuniões.

P. As duas mulheres mais poderosas do continente, Dilma Rousseff e a senhora —Cristina Kirchner já está perto de deixar o poder—, sofrem de problemas semelhantes de imagem por causa da corrupção. Acha que é comparável?

R. Não gosto de comparar com outros países. Não é justo. Tenho uma grande confiança na presidenta Rousseff. É uma grande mulher, uma grande presidenta, não tenho dúvida de que vai seguir em frente. O importante é enfrentar os problemas. Eu não sei se tem havido corrupção no Chile, por exemplo; a justiça dirá. Em alguns casos mais se parece com evasão de impostos, subornos. Mas o importante é que não tentamos tapar isso. As pessoas estão com raiva, indignadas, e como Governo nós trabalhamos para que isso não volte a acontecer. Isso define como é o Chile, as questões são levadas a sério.

Há um desencanto com as instituições e com as pessoas, inclusive eu, naturalmente

P. A classe média chilena, brasileira, se tornou mais exigente com o crescimento econômico?

R. É verdade que a classe média está se expandindo, tem havido uma importante mobilidade social. Pessoas que saíram da pobreza. Um processo de maior consciência de direitos. Temos uma população com mais poder, mais exigente, mais reivindicativa. É uma legítima aspiração que quando vemos na TV que o país vai bem, queiramos também nos sair bem. Isso também é produto do avanço da democracia no Chile.

P. Entre estas paredes, Salvador Allende fez um dos discursos mais célebres do planeta sobre a democracia, aquele do “se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre”. Hoje o Chile é uma democracia, tem uma presidenta de esquerda, e a filha de Allende, Isabel, preside o Partido Socialista. O que aconteceu para que haja essa desconexão?

R. Acontece que o que antes foi suficiente já não é mais.

P. Vimos que o ex-genro de Pinochet, por meio da Soquimich, é um grande financiador da política. O pinochetismo continua mandando de alguma maneira?

R. Bom, ele viveu muitos anos fora do Chile. Ainda há pessoas que têm uma avaliação positiva de Pinochet, mas já não têm uma influência real. Até o partido que estava muito próximo está buscando novas referências. Deve haver nostálgicos, mas não é um fator relevante.

P. O Chile mantém uma das maiores desigualdades da região. O que a senhora faz para corrigi-la?

R. Primeiro, a reforma tributária, que aprovamos em poucos meses. E depois a reforma educacional para garantir acesso a direitos. Temos uma das educações mais segregadas, os ricos estudam com os ricos, os pobres com os pobres. Eu venho de outra época. Estudei em uma escola pública e ali havia gente de todo tipo. Isso foi mudando. Estamos promovendo uma educação de qualidade e gratuita, principalmente na educação superior.

P. Mas há muita resistência. Por que é tão difícil neste pais tão rico implementar a educação superior gratuita enquanto na Argentina, que sofreu a derrocada de 2001, conseguem mantê-la?

Os escândalos e as reformas

Caso Caval. O caso que afeta mais diretamente a presidenta envolve a investigação de uma empresa de seu filho e sua nora que recebeu um crédito milionário pouco antes de Bachelet ser eleita presidenta. O filho renunciou a seu cargo na Presidência.

Caso Penta. Essa empresa é investigada por possível suborno, lavagem de dinheiro e financiamento ilegal, sobretudo do partido União Democrata Independente, agora na oposição. Outra empresa, a Soquimich, do ex-genro de Pinochet, também é investigada por financiamento da política. Além disso, há polêmica sobre o financiamento da pré-campanha de Bachelet

Projetos. Bachelet conseguiu aprovar uma grande reforma tributária com uma intenção mais redistributiva, tem em andamento uma profunda reforma educacional para tornar a universidade gratuita e assinou um projeto de lei de aborto.

R. Na Argentina nunca tiveram um modelo misto como o nosso, onde há escolas particulares subvencionadas pelo Estado que, além disso, cobravam dos pais, e um sistema público e outro privado. Nós temos dito que a educação não pode ser um negócio, e isso despertou muita reação dos que possuem essas escolas.

P. Seu grande legado será a universidade gratuita?

R. Meu compromisso é que no término do meu mandato 70% dos estudantes tenham gratuidade e em seis anos cheguemos a 100%. Têm de comprometer-se. Não vamos dar os recursos de presente.

P. Preocupa-se com o enorme poder que a China está alcançando na América do Sul, com seu talão de cheques ilimitado?

R. Não, o Chile foi o primeiro país a reconhecer a China. Temos um tratado de livre comércio há 10 anos, e a China é nosso primeiro parceiro comercial. Tem sido benéfico para o Chile. Eles querem participar de investimentos, vão abrir no Chile um banco para toda a América Latina. É importante aproveitar sua vontade de se aproximar da América Latina. O Chile é o país com mais tratados de livre comércio do mundo.

P. Aceitaria José Mujica como mediador para o conflito pela saída do mar à Bolívia?

R. Em 1904 nos comprometemos com uma saída ao mar não soberana, e isso está funcionando. A Bolívia entrou com uma demanda contra o Chile em Haia, e o Chile está defendendo os interesses nacionais.

P. Conseguirá aprovar a lei do aborto?

R. Esperamos que sim. Queremos que as mulheres em alguns casos possam decidir se querem continuar com a gravidez. Se por razões emocionais ou de saúde não podem continuar, uma sociedade mais democrática é a que dá às mulheres essa possibilidade.

P. Como gostaria de ser lembrada?

R. Como uma presidenta que busca o bem-estar de seus cidadãos, a ampliação de seus direitos. Uma pessoa que ama seu povo, sua gente, e por isso está aqui, senão poderia estar em algum outro lugar.

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