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ISABEL ALLENDE BUSSI | Presidenta do Senado do Chile

“A desigualdade dificulta a coesão e a governabilidade”

A filha do presidente destituído se tornou a primeira mulher a presidir o Senado

Isabel Allende, durante uma entrevista em agosto de 2013.
Isabel Allende, durante uma entrevista em agosto de 2013. AFP

Foi uma semana emocionante para a senadora socialista Isabel Allende Bussi (Santiago, 1945), a mais nova das três filhas do presidente deposto em 1973. Na manhã de terça-feira, ela se tornou a primeira mulher a assumir a presidência do Senado chileno em 200 anos de história, e suas primeiras palavras foram para seu pai: “Eu sei que ele ficaria orgulhoso de ver sua filha nesta mesa presidencial”. Poucas horas mais tarde, em sua primeira atividade oficial como líder do Senado, teve a missão de empossar a presidente Michelle Bachelet (Santiago, 1951), que começava, assim, o seu segundo mandato.

A posse no Congresso, que fica em Valparaíso, a cerca de 120 quilômetros da capital, Santiago, esteve carregada de simbolismo: duas mulheres da mesma faixa etária, socialistas, que perderam seus pais por causa do golpe de Estado de Augusto Pinochet, protagonizavam 40 anos após a interrupção da democracia esta mudança de poder que simboliza a história republicana chilena. Estavam emocionadas e, quando a faixa presidencial já estava no peito de Bachelet, se abraçaram e trocaram algumas palavras que as centenas de convidados e os milhões de telespectadores não puderam ouvir.

“Finalmente, nossos pais estão conosco”, disse Allende. Bachelet, cujo pai, militar, morreu em março de 1974 depois de ser torturado por seus companheiros, concordou. Dias depois, Isabel Allende conversa na sala de jantar de sua casa na rua Guardia Vieja, no bairro de Providencia, em Santiago, onde sua família viveu entre 1953 e 1970. A senadora se esforçou para manter quase intacta a residência onde passou boa parte de sua infância e adolescência, e tentou parar o tempo.

Pergunta. A cena da senhora dando posse a Bachelet deu a volta ao mundo.

Resposta. Foi uma cena inédita e cheia de emoções. Recebi uma quantidade de mensagens impressionantes tanto do Chile como de outros países como Bélgica, Holanda, Espanha, Suécia, Brasil, Equador... A vida não é unilinear, parece ser um círculo.

P. A senhora diz isso porque seu pai foi líder do Senado entre 1966 e 1969, antes de se tornar presidente na quarta tentativa.

R. Terminou com um alto reconhecimento porque as pessoas consideraram que ele exerceu o cargo com plena dignidade e deu garantias a todos os setores políticos. Por essa razão, para muitas pessoas foi uma espécie de recompensa ver uma Allende na mesa presidencial do Senado chileno. Além disso, uma mulher nunca havia assumido o cargo.

P. A cerimônia de transmissão do cargo do direitista Sebastián Piñera para Bachelet foi destacada como reflexo da maturidade democrática do Chile. A senhora acredita que alcançamos esse limite?

R. Demos um exemplo de um ato tremendamente republicano que me deixou cheia de orgulho. É importante que um presidente que esteja de saída, de outra esfera política, receba os aplausos que recebeu no salão de honra do Congresso. Isso demonstra um lado bom de nós em um sentido profundo.

P. A senhora se imagina no palácio presidencial de La Moneda?

R. Na política é difícil dizer 'desta água não beberei’, mas pessoalmente eu nunca pensei em chegar à presidência. Estou bem como estou e é preciso dar espaço às novas gerações.

P. Como foi presidir a primeira sessão? Dos 37 senadores, apenas seis são mulheres.

R. Foi bonito e impactante. Te conto uma história. Teve um senador que, cada vez que terminava seu discurso, se referia a mim como ‘senhor presidente’. Ele disse isso duas vezes e, quando terminou de falar, fiz uma observação: ‘Eu entendo que é uma questão nova e cultural, que custa muito depois de todos esses anos, mas peço que no futuro, quando se dirija a mim, diga senhora presidente'. Ele pediu desculpas, disse que não tinha percebido e solicitou que a frase fosse excluída da ata.

P. A visibilidade de seu cargo e o de Bachelet não correspondem com a representação das mulheres no poder político. Em ambas as casas do Congresso, por exemplo, há apenas 15,9% de parlamentares mulheres.

R. É simbólico que as duas principais posições do país sejam ocupadas por mulheres, a Presidência da República e a do Senado. No entanto, estamos totalmente subrrepresentadas. Custa muito. No governo, por exemplo, a presidenta Bachelet também não conseguiu a paridade de gêneros. É difícil para uma mulher exercer a política.

P. Também é complexo exercer em seu partido, o socialista, sendo filha de um dos ícones da esquerda chilena?

R. Dentro do partido o machismo se manifesta.

P. A senhora vai ostentar seu novo cargo fazendo valer a maioria que o governo tem no Senado?

R. Passar a escavadeira é sempre uma má política. O Parlamento é por excelência o lugar onde se articulam acordos, o diálogo e a discussão democrática. Mas temos um compromisso e vamos desenvolver os projetos que estão escritos no programa do governo de Michelle Bachelet. Se os parlamentares que não fazem parte de nossa coalizão puderem nos acompanhar, eles serão bem-vindos.

P. Qual é seu diagnóstico do mapa político da região?

R. Cada país tem suas próprias realidades e é difícil generalizar. Mas é evidente que houve mudanças potentes e não só pela presença de mulheres na Costa Rica, Brasil, Argentina e Chile. Especialmente porque, na região, tem havido um processo de crescimento que permitiu aos governos progressistas fazer políticas sociais e combater a desigualdade.

P. A senhora acredita que a figura de seu pai continua vigente na esquerda latino-americana?

R. O legado de Salvador Allende está vivo na América Latina. Em alguns setores mais do que nunca. Hoje em dia ninguém pode ignorar que a desigualdade não gera coesão e governabilidade. Passaram 40 anos e as pessoas continuam lembrando com muita força.

P. A primeira fissura do governo, que inclui desde a Democracia Cristã ao Partido Comunista, se deu em relação à crise na Venezuela. O que a senhora pensa do governo de Maduro?

R. O substancial é que a Nova Maioria está unida em torno de um programa de governo cuja coluna vertebral – educação de qualidade e gradualmente gratuita, reforma tributária e nova Constituição – pode mudar para sempre nossa sociedade. A política externa cabe à presidenta da República.

R. Mas qual é a sua própria opinião?

R. O principal, como disse Bachelet, é que é uma questão a ser resolvida pelos venezuelanos e que não é necessário recorrer a uma intervenção. Devem encontrar seu próprio caminho, porque têm um líder eleito democraticamente. Em 2011, milhares de estudantes foram às ruas do Chile, mas exigiam uma educação gratuita e de qualidade, não era como na Venezuela, onde querem derrubar o governo.

P. E qual a sua visão de Cuba?

R. Está em um processo de mudança, mas eu acho que tem sido muito tímido. Preferiria ver uma Cuba mais aberta, que não tenha apenas um partido único, mas diferentes expressões. Um governo que exerça suas funções, evidentemente, mas também uma oposição que tenha direito de se manifestar.

P. A senhora tem vivido momentos difíceis [seu pai morreu no La Moneda, em 1973, e sua irmã e seu filho cometeram suicídio em 1977 e 2010, respectivamente]. Como a senhora reagiu a essas tragédias?

R. Uma pessoa não aprende só com as derrotas, mas também com as dores.