Máfia sobre rodas

Longe de qualquer imagem romântica, as gangues de motociclistas vivem à margem da lei O Departamento de Justiça dos EUA as vincula a extorsões e narcotráfico

Fotos de alguns dos detidos pelo tiroteio entre gangues de motoqueiros.
Fotos de alguns dos detidos pelo tiroteio entre gangues de motoqueiros.

“Isto aqui pode ser de dois jeitos, do meu ou do seu. Se for do seu jeito, parou aqui. É pegar ou largar”.

É pegar, óbvio. Mas, se um ex-integrante da gangue Bandidos, a mais de 1.500 quilômetros de Washington, impõe sua vontade e provoca medo pelo telefone, não dá para deixar de pensar no que centenas de Bandidos poderiam fazer pessoalmente. Edward Winterhalder determina que deve ser apresentado no texto como autor de 10 livros.

O sr. Winterhalder já escreveu 10 tomos na última década sobre os esquadrões que vivem sobre duas rodas, incluindo títulos que poderiam ser traduzidos como Estradas Gêmeas Rumo à Vingança e Garotas Motoqueiras: a Atração Magnética das Mulheres pelos ‘Bad Boys’ e as Motos.

“Ao contrário de Deus, os Bandidos não perdoam”, diz um dos slogans da gangue

“Ao contrário de Deus, os Bandidos não perdoam”, diz um de seus slogans, razão pela qual se intui que é melhor não violar regras pré-estabelecidas por Winterhalder para a entrevista, as quais consistem basicamente em que não há regras, pois elas vão sendo impostas à medida que se desenrola uma conversa que deveria servir para iluminar os incidentes ocorridos há dois domingos em Waco, no Texas.

“Por que o senhor abandonou os Bandidos após passar sete anos como membro do grupo e mais de 20 como simpatizante?”

Não há resposta. Só um incômodo silêncio pelo telefone.

“Alô? Continua aí, sr. Winterhalder?”

É o momento em que Winterhalder determina que será do jeito dele ou do meu. A pergunta fica sem resposta. É o jeito dele.

O sr. Winterhalder passa mais de 20 minutos argumentando que 60% dos motociclistas que pertencem a uma gangue não são delinquentes que traficam drogas ou exploram a prostituição, e sim homens, pais de família em muitos casos, que têm um emprego de segunda a sexta e cujo único crime é “divertir-se um pouco no fim de semana”. Os rumos da conversa indicam que o sr. Winterhalder tem saudades da sua antiga relação com as gangues de motoqueiros.

As gangues de motoqueiros surgiram nos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial, quando muitos veteranos que retornavam da frente de combate achavam difícil se adaptar à vida civil

Winterhalder não é Marlon Brando, mas suas maneiras imitam as do ator de O Selvagem. Sobre a morte de nove motoqueiros e a prisão de outros 170 após um confronto entre grupos rivais num bar de Waco, ele diz: “Era algo que tinha que acontecer, passou meses fermentando e estourou”. O estopim da batalha campal foi um bottom rocker, o distintivo que identifica o local de origem do motoqueiro, usado na parte de baixo da jaqueta ou colete de couro. Os Bandidos consideram que o Texas é seu território e não aceitam que os Cossacks usem o nome do Estado em suas roupas. Simples assim. Adultos perdendo a vida por uma jaqueta.

“Os Bandidos são a maior gangue de motoqueiros do Texas e não vão permitir que nenhum outro grupo entre no Estado. Permitem que outros clubes existam, mas não aceitam que usem o nome do Texas em suas jaquetas”, conta Charles Falco, pseudônimo de um informante que se infiltrou no mundo dos motoqueiros fora da lei e cujo depoimento está em vários livros. “Se fizerem isso, se usarem o nome sem permissão, correm o risco de serem chacinados.”

Para o Departamento de Justiça, os Bandidos representam uma crescente ameaça criminal para a nação

As gangues de motoqueiros surgiram nos Estados Unidos depois da II Guerra Mundial, quando muitos veteranos que retornavam da frente de combate achavam muito difícil a adaptação à vida civil e sentiam falta da camaradagem, da adrenalina e da hierarquia da vida militar. Os primeiros a nascer foram os Hells Angels, em 1948, na Califórnia. Muitas outras gangues vieram em seguida: Bandidos, Mongols, Outlaws, Pagans, Sons of Silence, Vagos... Enquanto isso, os EUA travavam —e perdiam— a Guerra do Vietnã.

Eles mesmos se denominam como 1%, em referência à porcentagem que representam dentro da grande maioria dos motoristas que respeitam a lei. O 1% são os proscritos, os caras rudes que vivem no limite, ainda que na realidade o termo se refira aos “não afiliados” à Associação Americana de Motoristas (AMA, na sigla em inglês).

São a Máfia sobre rodas. O Departamento de Justiça acrescentou há alguns anos nomes como os Bandidos, os Hells Angels e os Mongóis à lista de organizações criminosas conhecidas como a Máfia, a Tríade Chinesa e a Yakuza japonesa. Se alguns números forem levados em consideração, sua existência pode ser mais poderosa ou prejudicial do que a Máfia. Segundo especialistas do FBI, as famílias Gambino e Genovese, os grupos do crime organizado mais poderosos do país, têm entre 200 e 250 membros dos chamados made man (uomo d´onore em italiano), goodfellas, um dos nossos, por fim. No caso de, por exemplo, os Bandidos, esse número ronda as 900 pessoas.

O lema dos Bandidos é simples: “Somos as pessoas sobre as quais seus pais advertiram”

O lema dos Bandidos é simples: “Somos as pessoas sobre as quais seus pais lhe avisaram”. Para o Departamento de Justiça, os Bandidos são uma ameaça criminal crescente para a nação. Os Bandidos estão envolvidos no transporte e distribuição de cocaína e produzem, transportam e distribuem metanfetamina. A Justiça não descarta conexões com os cartéis de drogas mexicanos.

Durante décadas, os norte-americanos pareciam fascinados com o fenômeno das gangues de motoqueiros. Mais de um ícone da contracultura se infiltrou nas fileiras dos proscritos para depois dar rédeas soltas às experiências em livros. Em Sem Destino e O Selvagem, o anti-herói das duas rodas conduz a uma liberdade que o cidadão comum não tem. Hoje em dia, os telespectadores ficam grudados na telinha assistindo a série Sons of Anarchy e o que acontece na fictícia cidade chamada Charming.

Para o Departamento de Justiça não há como romantizar. As gangues de motoqueiros usam seus clubes para realizar atividades criminosas. “Existem mais de 300 gangues ativas nos EUA, algumas tão pequenas que só têm cinco membros e outras tão grandes que contam com milhares”.

Em ‘Sem Destino’ e ‘O Selvagem’, o anti-herói busca sobre duas rodas uma liberdade que o homem comum não possui

William Queen, antigo investigador da Agência Federal para o controle do álcool, armas e tabaco, considera que o incidente de Waco é somente um capítulo de uma história ainda sem final. “Eu e você podemos achar banal os motivos pelos quais brigam, mas para eles essas distinções equivalem a sua vida inteira”. Uma vida de motos, jaquetas e pertencimento ao grupo.