Celso Rocha de Barros | Doutor em Sociologia pela Universidade de Oxford

“O ‘andar de cima’ também precisa pagar pelo ajuste fiscal do Governo”

Para sociólogo, pacote de cortes como proposto coloca futuro eleitoral do PT em cheque

Protesto contra o ajuste fiscal na Câmara.
Protesto contra o ajuste fiscal na Câmara.Marcelo Camargo (Agência Brasil)

Celso Rocha de Barros se define como sendo “meio esquerdoso, social-democrata não-tucano (nem anti-tucano)". Funcionário de carreira do Banco Central, doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, é simpatizante do PT que defende a gestão ortodoxa como a de Antonio Palocci no Ministério da Fazenda sob Lula desde que acompanhada de políticas de distribuição de renda e de cobrança de imposto “com entusiasmo”. É deste ponto de vista que ele critica o modelo atual de ajuste fiscal proposto pelo Governo Dilma, em pauta na Câmara. “O ajuste fiscal é necessário, mas acho saudável que se reflita como dividir o peso do ajuste nos diferentes andares da sociedade.”

Celso Rocha de Barros.
Celso Rocha de Barros.

Na semana passada, o Governo conseguiu aprovar a primeira parte das medidas, elaborado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A principal mudança proposta foi no tempo mínimo para o trabalhador requisitar o seguro desemprego caso seja demitido, que subirá de seis meses para doze. A medida, que valeu ao PT a acusação de "traição do PT aos interesses dos trabalhadores", foi homenageada pelos deputados da oposição com o samba "Vou Festejar", que ficou conhecido na voz de Beth Carvalho. "Eu tenho certeza de que a convicção dos deputados é de fazer este tipo de reforma (com cobrança progressiva de imposto), mas imagina o Congresso com o Eduardo Cunha passando uma nova alíquota para o Imposto de Renda? Não parece provável. Não agora."

Pergunta. O ajuste fiscal como vem sendo implementado pelo Governo é a saída para a crise econômica?

Resposta. Um ajuste fiscal é sem dúvida necessário, é evidente que o Governo precisa melhorar sua situação fiscal. Mas também é inegável que houve erros na condução da política econômica. Acho saudável que se reflita como dividir o peso do ajuste em diferentes andares. O andar de cima precisa pagar também. Essa questão é um indicativo do que será a discussão da política econômica do país: um pouco de liberalismo e um pouco de redistribuição de renda, com impostos progressistas, etc. Essa é a fórmula que deu ao PT quatro mandatos na presidência.

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P. O ajuste fiscal coloca em risco a fórmula eleitoral do PT?

R. O risco é que, com o ajuste feito da maneira proposta, o PT perca a fórmula da distribuição de renda. O ajuste fiscal é necessário. Agora, o risco de crescer a desigualdade é real. E vai ser mais importante ter o foco na questão certa, que é a distribuição de renda.

P. Tendo em vista os recentes entreveros com o Congresso, o PT tem condições políticas de implementar medidas que aumentem impostos no andar de cima?

R. As forças políticas que poderiam impor essa medida para os mais ricos estão fracas. O PT está tomando baile do Congresso, e a direita ganha força nas ruas. O ideal seria distribuir o custo equitativamente, quem puder sacrificar mais deve sacrificar mais. Embora eu ache pertinente a discussão, e acredite que [o ajuste] deveria ser feito de maneira equitativa, acho difícil que o PT apresente uma proposta de taxação progressista e que isso passe no Congresso. A ultima vitória do Governo custou muito para sair, e foi um ajuste extremamente impopular.

P. Para onde caminha o PT?

R. É difícil saber. Vai depender muito do que a liderança vai fazer nos próximos anos. Achei um bom passo o anúncio feito pelo Rui Falcão [presidente da legenda] de que os condenados na Lava Jato serão expulsos. O partido precisa dar essa satisfação. Vários petistas roubaram, deram golpe no erário, e isso precisa ser discutido. Nada pode contornar esse fato, a postura não pode ser de: “Ah, não vou fazer isso”. Não, precisa admitir.

P. O programa do PT precisa passar por alterações?

R. O programa precisa ser atualizado, no sentido de abraçar o que deu certo, que foi uma política econômica moderada acompanhada de distribuição de renda. Foi isso que deu certo, isso que garantiu quatro mandatos ao partido. O PT interpreta muito mal os seus sucessos. Quando a legenda fez aniversário de 35 anos em fevereiro deste ano, distribuíram um panfleto que destaca que o partido derrubou o neoliberalismo. E não foi nada disso. Foi distribuição de renda. Há uma certa miopia ideológica de alguns quadros.

P. O discurso do partido por vezes contradiz as políticas propostas?

R. Uma coisa é discutir se o certo é privatizar tudo. Outra é falar que todo aumento de juros é ruim. Isso não faz sentido. Não resolve nada. Nada de concreto é feito porque você diz que enfrentou o neoliberalismo. Muitos dos documentos oficiais do partido acabam refletindo mais a identidade que alguns militantes fizeram de si mesmos do que a realidade.

P. Na propaganda institucional que foi ao ar na TV, o PT falou sobre algumas de suas bandeiras históricas, como a taxação de grandes fortunas. Mas não apresentou nenhuma lei concreta com relação ao assunto...

R. Eu tenho certeza de que não é mera retórica [abordar estes temas polêmicos]. Tenho certeza de que é o que eles gostariam de fazer. Eu tenho certeza de que a convicção dos deputados é de fazer este tipo de reforma, mas imagina o Congresso com o Eduardo Cunha passando uma nova alíquota para o Imposto de Renda? Não parece provável. Não agora.

P. A crise no PT é boa para a esquerda no país?

R. Acho que pode ser. É uma senhora crise. Não é fácil superar, provocou um abalo na identidade do partido. Quando o Governo não passa nada no Congresso e só passa ajuste, a esquerda deve se questionar se vale a pena ser Governo. É preciso repensar como, no médio prazo, conseguir implementar um programa social democrata. É o que o PT é: um partido social democrata. O PT evoluiu para isso, independentemente do que os fundadores queriam no início.

P. Muitos especialistas apontam que o PT sofre por não conseguir lidar com as críticas...

R. Uma coisa é o cara denunciar uma cobertura parcial da imprensa, outra é criticar todas as denúncias. Falta um pouco de autocrítica e de respeito às criticas que vem do outro lado. O debate político exige que se ouça as críticas. A energia e a força política que o PT gastou defendendo os acusados do mensalão... Precisava gastar o capital político com isso? Vai ter como recuperar a imagem do partido depois que ele fica associado à corrupção?

P. Existe alguma corrente interna do PT que se destaca nos escândalos recentes?

R. Claramente a tendência dominante, a Construindo um Novo Brasil [CNB], tem mais gente envolvida. Mas isso é normal, já que é a corrente dirigente. Não quer dizer que com a oposição interna do partido teria sido diferente. A CNB é um grupo mais moderado, e é a tendência melhor aprendeu a jogar o jogo, que aprendeu a fazer alianças, etc. O Tarso Genro tentou fazer uma autocritica na época do mensalão, mas é difícil apoiá-lo, porque eu e outros apoiadores não queremos que o PT radicalize. E no campo econômico ele radicaliza o discurso. O combate à inflação precisa ser levado a sério. O PSOL é outro exemplo: os caras discutem violência policial e corrupção com muita lucidez. Mas, se você ler o programa econômico deles, é de chorar, coisa de movimento estudantil. A esquerda do PT é menos assim, mas não dá para entregar a Fazenda para os caras.

P. Que lição o partido pode tirar da eleição de 2014, na qual Dilma Rousseff foi eleita por uma margem mínima de votos?

R. A eleição do ano passado foi milagrosa: com crescimento econômico zero e escândalo da Lava Jato a Dilma é reeleita. Isso mostra que a população brasileira tem um desejo enorme pela distribuição de renda.

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