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COLUNA

Relâmpagos

Abaixo, pequenas histórias colhidas nos labirintos do Salão do Livro de Paris

OS ESQUECIDOS DA DITADURA – Em conversa no estande da editora Métailié, a antropóloga Betty Mindlin me informa que há cerca de duas semanas foi defendida uma tese de doutoramento na PUC-SP que lança luz sobre um fato até hoje relegado ao esquecimento. Segundo o pesquisador Antônio Jonas, por volta de 1968 o governo militar criou uma colônia penal em terras do povo krenak, na região de Resplendor, em Minas Gerais, deslocada cinco anos depois para a Fazenda Guarani, no mesmo Estado. Para lá, enviavam os indígenas que consideravam inconvenientes – e dentro desta categoria cabiam desde os alcoólatras até os que reivindicavam seus direitos. Obrigados a trabalhos forçados, muitos deles eram encarcerados com toda a família. Aprisionados em verdadeiros campos de concentração, para eles não houve anistia, não houve reparação financeira. Deles, ninguém mais se lembra.

O PAPEL DA CULTURA – Num jantar, o escritor Cristovão Tezza afirma que no processo civilizatório o papel da cultura é tão ou mais relevante que o progresso econômico. Tezza alega que o grande problema do Brasil foi termos acreditado que a prosperidade econômica traria naturalmente uma expansão dos horizontes culturais. Nos limitamos à ampliação do acesso aos bens materiais – tirar uma parte da população da extrema pobreza não foi seguido de uma profunda reforma no sistema educacional. O resultado é que hoje temos uma das mais altas taxas de homicídios do mundo. Esse argumento me lembrou uma fala do poeta Sergio Vaz, pleiteando que a letra C da ascendente Classe C fosse sinônimo de Cultura e não de Consumo... Como nenhum governo se preocupou de verdade com esse salto qualitativo, continuamos afundados no pântano da barbárie...

EMPATIA – A escritora Adriana Lisboa disse que seu método de escrita constitui-se basicamente em estabelecer uma relação de empatia com os personagens. Empatia, segundo uma das acepções do Dicionário Houaiss, é “o processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro”. Empatia é o sentimento que falta na sociedade brasileira. Somos egoístas e egocêntricos. Uma comunidade só se torna uma verdadeira democracia quando convergimos nossos interesses individuais na direção do bem comum. Sem empatia permanecemos presos a nós mesmos; criamos monólogos, não estabelecemos diálogos; caminhamos para posições sectárias, radicais; rumamos para a ditadura do pensamento único, hegemônico. Para a mediocridade, enfim.

DESTINO: BRASIL – Em 1985, um jovem parisiense de 23 anos, em crise existencial, decidiu abandonar o curso de Letras na prestigiosa École Normale Supérieure. Olhou num atlas e, ao léu, decidir desbravar o Brasil, um país para ele em tudo desconhecido, língua, cultura, costumes. Sabia vagamente de florestas, de praias, de sol, de futebol. Desembarcou quando o país vivia a excitação do fim da ditadura militar e por aqui permaneceu por 14 anos, boa parte deste tempo vivenciando a dura realidade do Nordeste. O século XXI o surpreendeu de novo em Paris, onde tornou-se tradutor de inglês e português. Já casado e pai de família, sentiu saudades do Brasil e resolveu aplacá-la escrevendo um livro, O ouro de Quipapá, todo ambientado na Zona da Mata pernambucana. Por um desses estranhos caminhos, o livro acabou publicado primeiro no Brasil, em tradução, no ano passado, para só então ser lançado agora na França...

DESTINO: FRANÇA – Em 1988, um jovem de 21 anos decidiu abandonar os cursos de composição e regência na Unesp e Letras na USP, sufocado pela falta de perspectivas derivada da descomunal crise econômica que assolava o Brasil. Sem falar francês, desembarcou em Paris e trabalhou como baby-sitter até 1995, complementando o salário com serviços ocasionais de caixa de supermercado e tirador de fotocópias, entre vários outros. Enquanto isso, fazia Francês e Alemão na Sorbonne. Quando concluiu o curso, em 1995, passou num concurso público para dar aulas num liceu em Aulnay-sou-Bois, periferia da cidade. Dois anos depois, já era leitor de Português na École Normal Supérieure, enquanto fazia o mestrado na Sorbonne, concluído em 2000, seguido do doutorado, concluído em 2003. Naquele mesmo ano, conquistou a vaga de professor adjunto na Sorbonne. Em 2014, recebeu uma das maiores honrarias do governo francês: Chevalier des Palmes Académiques. Este mês, outra: Chevalier des Arts et de Lettres. Leonardo Tonus foi o consultor literário do Centre National du Livre para o Salão do Livro de Paris... Nada mal para quem saiu de São Bernardo do Campo, há 27 anos, com uma mão na frente, outra atrás...

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