Colômbia e FARC anunciam acordo para eliminar minas terrestres

Integrantes do Exército e guerrilheiros desarmados participarão do trabalho, coordenado por organização norueguesa

Humberto de la Calle chefia a delegação colombiana nos diálogos de paz em Havana.
Humberto de la Calle chefia a delegação colombiana nos diálogos de paz em Havana. (AFP)

Como uma fórmula para começar a diminuir a intensidade do conflito na Colômbia, os negociadores do processo de paz anunciaram em Havana, sede dos diálogos com os guerrilheiros da FARC, que chegaram a um acordo para eliminar as minas terrestres das regiões mais afetadas pela violência. “A partir de hoje o Governo e as FARC trabalharão conjuntamente para limpar algumas áreas rurais das minas terrestres e explosivos não detonados”, disse Humberto de la Calle, chefe da delegação governamental, no encerramento de mais um ciclo de conversação.

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Desse projeto de limpeza, que é um avanço concreto para evitar que a guerra faça mais vítimas, participarão, segundo De la Calle, guerrilheiros desarmados e não uniformizados, cujas ordens de captura serão temporariamente suspensas e que terão como tarefa informar sobre a localização das minas. Um batalhão do Exército, que há anos se dedica a limpar áreas minadas, ficará encarregado de retirar os artefatos. A operação será coordenada pela organização Ajuda Popular da Noruega (APN), especialista no assunto, mas não se descarta a participação de outras entidades.

Para o Governo, embora esse acordo seja um primeiro passo para enfraquecer o conflito, que já provocou mais de 220 mil mortes, é um passo “gigantesco rumo à paz”. Segundo dados oficiais, desde 1990 foram registradas na Colômbia 11.000 vítimas de minas terrestres, das quais mais de 4.000 civis e cerca de 7.000 militares, o que torna o país o terceiro do mundo em número de afetados por explosões desse tipo. Estima-se que mais de metade dos municípios colombianos tenham minas espalhadas e munição não detonada, e por isso o trabalho de limpeza será enorme.

Comunicado conjunto lido em Havana por um representante da Noruega, que ao lado de Cuba atua como país fiador dos diálogos de paz, explica que esse acordo visa a gerar condições de segurança para os habitantes das áreas rurais em que foram colocados explosivos. Os moradores muitas vezes ficam confinados ou são deslocados de suas terras, por medo de pisar em campo minado.

Inicialmente serão priorizados locais em que seja detectado maior risco para as comunidades. A organização norueguesa, segundo o acordo, coletará informações para identificar com precisão essas áreas e empregará um questionário criado especialmente para o caso colombiano. O resultado disso será a base para a execução do plano de limpeza, que será bancado pelo Governo.

O ministro da Defesa anunciou que as Forças Armadas poderiam dispor de 10.000 homens para o trabalho de eliminação de minas

Conforme o pacto, o diálogo com as comunidades será essencial. “Para gerar confiança na qualidade das operações de limpeza e descontaminação ou depuração, será promovido o intercâmbio de informações” por parte da população, estabelece o acordo, que esclarece que todo o processo será acompanhado por dois membros do Governo, dois das FARC e das comunidades.

Esta semana, durante uma visita à Colômbia de uma delegação do Grupo de Apoio à Ação contra as Minas da ONU, o ministro da Defesa, Juan Carlos Pinzón, anunciou que as Forças Armadas poderiam dispor de 10.000 homens para o trabalho de eliminação de minas, caso firmada a paz. Atualmente são apenas 550. A respeito desses homens, que integram o batalhão que ficará a cargo da retirada das minas, o presidente Juan Manuel Santos disse, depois de conhecer o acordo, que lhes coube “trabalhar muito duro, aprenderam bem seu trabalho, e creio que ele está nas melhores mãos”.

Para o presidente, esse era um passo necessário e demonstra que o processo de paz continua avançando. “Estamos no caminho certo para dar fim a um conflito que nos sangra há mais de 50 anos”, disse em Monteria, na costa caribenha da Colômbia. O anúncio foi feito logo após a chegada a Havana de um grupo de generais que pela primeira vez em todas as tentativas de paz feitas na Colômbia se sentam à mesma mesa que as FARC para ajudar a firmar um cessar-fogo bilateral e definitivo. O grupo guerrilheiro declarou em dezembro uma trégua unilateral por tempo indeterminado, cumprida até o momento.

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