Crise Hídrica

Milhares de pessoas se mobilizam contra a falta de água em São Paulo

Cidadãos mais vulneráveis pedem por mais transparência na crise e pelo fim do racionamento seletivo

Militantes do MTST protestam em São Paulo.
Militantes do MTST protestam em São Paulo.NELSON ALMEIDA (AFP)

Cerca de 10.000 pessoas convocadas pelo Movimento de Trabalhadores Sem-Teto (MTST) marcharam na tarde desta quinta-feira contra o "racionamento seletivo" de água que sofrem nas suas casas há meses. Os manifestantes, moradores de periferia, favelas e ocupações irregulares, chegaram até o Palácio dos Bandeirantes depois de três horas de caminhada e conseguiram ser recebidos no gabinete do governador Geraldo Alckmin. As exigências da marcha passam por que o Estado seja mais transparente na gestão da crise hídrica, que distribua caixas de água para os mais pobres e que suspenda os contratos que privilegiam com descontos os grandes consumidores. O grito de guerra repetia-se nos discursos do carro de som: "Se a água não chegar, a cidade vai parar".

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"Tem bairros que ficam cinco dias sem água. Enquanto o Governo afirma que não há e que não haverá rodízio, o racionamento já está acontecendo contra os mais pobres. Não vamos a admitir que só nós assumamos a irresponsabilidade do Governo nesta crise", gritava Guilherme Boulos, um dos líderes do movimento. "Na periferia, o racionamento é sistemático há meses", disse.

Entre os 10.000 manifestantes — PM e organizadores coincidiram no número — fala-se com assombrosa naturalidade dos banhos com canequinha, de que sem ajuda dos vizinhos muitas noites não poderiam cozinhar, da água suja da torneira (quando sai) e dos baldes para captar água de chuva. Muitos não têm nem caixa de água e, quando são questionados sobre se já pensaram em comprar uma, a resposta é sempre a mesma, uma risada e uma pergunta: "com que dinheiro eu compro?".

Com a filha nos ombros, a recepcionista Josiane de Jesus, de 28 anos, relata a rotina na sua casa de Parelheiros, no extremo sul de São Paulo. "A água falta desde as 13h e quando volta não tem força para preencher nossa caixa de água. A gente enche ela com a mangueira e, quando não dá, com baldes". O problema de Josiane é precisamente aquele que na quarta-feira reconhecia por primeira vez o diretor metropolitano da Sabesp Paulo Massato. O dirigente afirmou que a companhia rebaixa tanto a pressão, descumprindo normas técnicas, que é insuficiente para atingir os reservatórios nos telhados.

"Estamos assim desde o mês de março, já me aconteceu várias vezes de chegar em casa depois do trabalho e não poder cozinhar. Em casa, a louça, a roupa e a descarga dependem da água que a gente cata quando chove. Gostaria de que o Governo se colocasse na minha situação, eles continuam tendo água", lamenta Josiane, que mora com mais sete pessoas.

Os manifestantes carregaram de símbolos a passeata. Um boneco do governador Alckmin tomando banho e um caminhão-pipa, escoltado por homens armados com metralhadoras feitas com canos, ocuparam um lugar nobre da marcha, moradores vestidos de índios dançaram pedindo chuva e dezenas de pessoas se fantasiaram de sujos para encenar como fica difícil viver sem água.

Mancando de uma perna, o baiano Edivaldo de Aragão, de 66 anos, acompanhava com dificuldade e um chapéu de cowboy a multidão. "Já chegamos a ficar sem água um semana, mas a gente pede um baldinho para os vizinhos, senão, não daria", conta o idoso, morador do Jardim São Marcos, em Embu das Artes.

Outro dos temores dos milhares de manifestantes é a possibilidade de a Sabesp aumentar, mais uma vez desde dezembro, a tarifa, como revelou a Folha de S.Paulo. Boulos advertiu logo no começo da passeata: "Se a conta de água subir, nós não vamos mais pagar". A multidão também deixou clara sua mensagem na porta da residência do governador: "Se a água subir, o Geraldo vai cair, vai cair, vai cair".

Está é a segunda marcha do MTST para evidenciar a falta de água nas comunidades mais carentes — a primeira foi em setembro do ano passado. Além do MTST, também participam do ato partidos o PSOL e PCdo B, além da Central Únicas dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT. A presença da polícia foi mínima e o protesto acabou sem incidentes.

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