Literatura

Édouard Louis, escritor francês: “Eu protegia meus agressores homofóbicos”

Francês escreveu uma dura autobiografia e foi revelação literária e um grito contra a discriminação

O escritor Édouard Louis, de 22 anos, em seu domicílio em Paris.
O escritor Édouard Louis, de 22 anos, em seu domicílio em Paris.ERIC HADJ

Quando chegava ao colégio, o garoto Eddy Bellegueule costumava apanhar de um menino ruivo e de outro um pouco corcunda. Cuspiam em sua cara. Algumas vezes o obrigaram a engolir um escarro. Os dois verdugos são meninos reais, que moram em Picardia (norte da França), mas sua vítima nunca lhes deu nome. A violência, diz agora esse menino adulto, “está fora dos indivíduos. É o sistema que a produz”.

Para Acabar com Eddy Bellegueule (inédito no Brasil, mas publicado pela Fumo Editora, de Lisboa, em 2014) foi um dos livros de maior sucesso na França em 2014. Era e continua sendo a primeira obra de um jovem homossexual que colocou em palavras seu calvário. Eddy fugiu de casa aos 16 anos, rompeu com seu passado e mudou de nome. Agora é um universitário chamado Édouard Louis e uma revelação literária: este seu primeiro livro vendeu 250.000 exemplares. E o impacto tem sido enorme. Após a publicação, ele recebeu entre 2.000 e 3.000 cartas. “Nelas, todos me diziam a mesma coisa: que tinham sofrido a mesma situação.”

O livro chega já foi traduzido a mais de 10 idiomas e abala os alicerces de uma sociedade que se pretende culta e igualitária. Esta entrevista (publicada originalmente em fevereiro de 2015 na edição espanhola do EL PAÍS) foi realizada num grande café de Paris, onde ele mora atualmente. Com apenas 22 anos e maneiras delicadas, Édouard fala inclinando o corpo para frente, com a mesma paixão e a mesma força de seu estilo narrativo.

Pergunta. Chama a atenção que haja tanta homofobia na sociedade francesa.

Resposta. Não acho que seja diferente em outros países. Muita gente me diz que essa realidade que descrevo não existe, mas não é certo. Acontece que é algo do qual não se fala. É invisível porque fica excluído do discurso político e do discurso literário. É um dos mecanismos da violência: torná-la invisível. As pessoas também têm muita dificuldade em contar o sofrimento, confessar que sofrem, que são humilhadas e excluídas. Porque isso também é violento para elas. Eddy Bellegueule deixa que batam nele no colégio. Eu mesmo protegia meus agressores. Eu era o mecanismo mais eficaz de simulação. Comecei a escrever o livro em 2010, antes dos movimentos homofóbicos que conhecemos, como La Manif Pour Tous [contra o casamento gay]. São movimentos que mostram a existência dessa realidade que descrevo, embora viver a homossexualidade em Paris seja mais simples.

P. Também surpreende a falta de cultura que descreve em seu entorno.

“Somos rotulados assim que chegamos a este mundo e nos constituímos como pessoas nessa dominação invisível”

R. Sim. Descrevo um mundo onde a literatura está completamente ausente. Eu nunca havia lido até os 16 anos. Ler, de fato, era um sintoma de menino afeminada. São coisas que fomentam ainda mais a exclusão. Gostar da escola e se submeter à disciplina também são coisas de gays. Há uma espécie de desajuste entre o sistema escolar e os filhos das classes populares. Ambos se encontram no mesmo espaço, mas não falam o mesmo idioma.

P. Finalmente, você se tornou um burguês culto, como diz no livro, afastado do monstro que acreditava ser. Libertou-se.

R. A “migração partidária” é um elemento habitual na literatura e no cinema, mas eu sou agora livre quase por acaso. Não tinha outra saída mais que a fuga.

P. Podia ficar e continuar sofrendo.

R. Não. A vida de Eddy Bellegueule era impossível. Eu não podia me transformar num durão e não tinha nada a ganhar fugindo. Agora estou feliz, mas quero explorar essa questão da fuga, que não é fácil nem na vida nem na política. Veja o caso de Edward Snowden.

P. Você pôde reconstruir a relação com sua família e seus amigos de outrora?

R. É impossível. Os reencontros são violentos. Cada coisa que digo é tomada como uma agressão. Sou o único de minha família que estudou, e me criticam pela forma como falo e me visto. Acham que faço isso para humilhá-los. É uma violência que nos distancia. Gosto muito de uma peça de teatro de Jean-Luc Lagarce, Juste la Fin du Monde (Só o Fim do Mundo), que é autobiográfica. Lagarce morreu de AIDS muito jovem. Era de origem humilde e veio a Paris. Conta que, pouco antes de morrer, reencontrou-se com a família, depois de muito tempo, para anunciar a sua morte. E não conseguiu falar com eles. A peça é uma sucessão de monólogos. Ele nunca consegue um autêntico diálogo. Por isso, vai embora sem dizer que vai morrer. É o que acontece comigo. Qualquer tentativa de diálogo é violenta. Meu livro, na verdade, é uma chamada à revolta contra esse tipo de vida que pessoas como meus parentes levam. É uma vida dominada.

P. Dá muita tristeza saber que você não tem uma só lembrança feliz de sua infância.

R. É verdade. A rejeição que eu sentia por ser diferente era tão poderosa que condicionava minha visão do mundo. Mas o que me interessa é falar da violência, porque quando chegamos a este mundo somos rotulados: você é bicha, negro, judeu, árabe, mulher, provinciano... Penso que todos fomos formados como pessoas nessa dominação às vezes invisível.

P. A literatura o salvou?

“Fiz teatro e fui militante político, mas a literatura é para mim a melhor forma de expressão”

R. Com certeza. Ao sair de casa, senti uma grande necessidade de dar a palavra a esse mundo que havia vivido. Fiz teatro e fui militante político, mas a literatura é para mim o melhor meio de expressão. Falar da violência é uma forma de combatê-la. Minha mãe, por exemplo, é vítima de tudo isso. Se você lhe perguntar por que deixou de estudar, responderá que não lhe interessava, que foi ela que escolheu deixar o estudo, quando na verdade foi excluída violentamente porque seu perfil não correspondia ao meio em que estava, porque não tinha as ferramentas para ter sucesso na escola.

P. Já começou seu segundo livro?

R. Sim, estou a ponto de terminá-lo. Fala das condições de vida dos imigrantes argelinos na França. Conheci um menino com quem conversei uma noite inteira. Ele me contou sua vida e a de seu pai, e de repente descobri ali toda a violência racista que não conhecia. O racismo das pessoas, mas também do Estado francês, que alojava os argelinos depois da guerra em imóveis imundos, insalubres, onde havia regras estritas para voltar para casa, para dormir numa hora determinada, comer todos juntos... Um sistema inimaginável no século XX na França. São vidas desconhecidas. Para mim, é importante utilizar a força da literatura para dar voz a tudo isso.

P. Você desenvolveu uma grande sensibilidade pelo sofrimento alheio.

R. A violência que conheci não é responsabilidade dos que a exerciam; foi produzida por sua própria exclusão. É o princípio da conservação da violência. Por isso, construo o livro descrevendo a vida dos outros. Tudo está calculado literariamente para conseguir uma revolta não contra a violência das classes populares, mas contra o que produz toda essa violência. Veja o que aconteceu com os atentados de Paris. Quando olhamos a vida desses homens que mataram, notamos que realmente tinham uma existência miserável, de uma extrema pobreza. Evidentemente, é possível compreender o que ocorreu.

P. Embora sem justificar.

R. Exato. O difícil é fazer uma reformulação do compromisso político. Não se trata de desculpá-los, mas a questão é buscar as causas, porque elas costumam estar fora dos indivíduos. Dizer simplesmente que esses caras são monstros não leva a nenhum lugar. Nada muda. Se você modifica o sistema escolar e renova as prisões, por exemplo, talvez as coisas sejam diferentes. Não acho que meu pai seja culpado por me chamar de bicha quando era criança. Foi o sistema que o produziu.

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