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Dilma prepara um ‘choque de realidade’ para seus 39 ministros

Na primeira reunião do gabinete, presidenta pedirá unidade na mensagem do Governo

Dilma, ao centro, Temer, à sua esquerda, e os 39 ministros.
Dilma, ao centro, Temer, à sua esquerda, e os 39 ministros.R.Stuckert Filho (PR)

Sem um belo zoom na foto acima ou sem fazer uma boa pesquisa, é quase impossível que alguém fora do dia a dia do Palácio do Planalto saiba identificar a maioria dos sorridentes ministros brasileiros que aparecem na imagem feita em 1º de janeiro. Na tarde desta terça-feira, 26 dias após o encontro dos 39 integrantes do gabinetedo Governo Dilma Rousseff (PT), o grupo vai se reunir outra vez, mas vai ser mais difícil encontrar tantos sorrisos. Os 39 participarão da reunião ministerial que tem sido chamada, nos bastidores, de “choque de realidade”.

Desde 2011, essa será a terceira reunião entre Dilma e todos seus ministros. A primeira foi naquele ano, quando foi empossada, e a outra em 2013, como uma resposta aos protestos que tomaram as ruas do Brasil. Na época ela disse que seria demagogia cortar gastos ou cargos em ministérios como uma repostas às manifestações.

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No encontro desta terça, na Granja do Torto, a presidenta pedirá total apoio de seus assessores para contornar as crises simultâneas que afetam as primeiras semanas de sua segunda gestão. A primeira medida de Rousseff será afinar o discurso e evitar o fogo amigo, que parte de alguns nomes de seu partido, insatisfeitos com a nomeação e performance eloquente do ortodoxo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A expectativa é que 2015 seja um dos mais difíceis desde o início das gestões petistas, em 2003 com Luiz Inácio Lula da Silva.

Aliados da presidenta separam as conjuntura em dois segmentos que, em algum momento, acabam se encontrando: a crise política e a econômica. A primeira ainda é difícil saber sua extensão. Começa com os longos desdobramentos da operação Lava Jato – com os 10 bilhões desviados da Petrobras e mais de 40 políticos implicados –, e chega aos insatisfeitos deputados federais da base aliada que estão em vias de eleger Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara no próximo domingo.

Do lado econômico o sinal amarelo foi aceso. Segundo especialistas, o Brasil, ou boa parte dele, está perto de ser obrigado a adotar dois racionamentos, um de energia elétrica e outro de água. A ausência de planejamento e a falta de chuvas fizeram com que vários reservatórios das centrais de abastecimentos e das hidrelétricas chegassem perto de secar. Como muitos Estados, São Paulo é um deles, não souberam administrar esse problema, coube ao Governo Federal chamar para si a responsabilidade e pedir que a população colaborasse com a economia da energia, conforme a ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente) o fez na semana passada. As crises de abastecimento são mais um ingrediente para azedar as perspectivas econômicas. Nas palavras do ministro Levy, haverá ao menos um semestre de contração da economia.

Caberá à Dilma explicar aos demais integrantes do gabinete a dimensão da tesoura que o governo se propõe a usar para cortar despesas e das mudanças em tributos e benefícios sociais, sob o comando de Levy. Antes mesmo do Orçamento Geral da União ser aprovado pelo Congresso Nacional e entrar em vigor, já se sabe que haverá um corte mensal nos gastos administrativos dos ministérios de 1,9 bilhão, ou de um terço do que estava inicialmente previsto.

Duas justaposições ilustram o mal-estar e as divisões no gabinete: estarão lado a lado Patrus Ananias (Desenvolvimento Agrário - PT) e Kátia Abreu (Agricultura - PMDB), que duelaram na imprensa exibindo divergências a respeito de latifúndios semanas atrás. Menos anedótico e mais revelador dos embates que virão, Levy, que disse ao Financial Times que o modelo do seguro-desemprego no Brasil está ultrapassado, sentará na mesma sala do colega Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência, PT), que divulgou nota específica e imediata para defender o benefício e rebater o ministro da Fazenda.

Rossetto está na linha de frente do Governo para tentar suavizar, com as centrais sindicais da base de apoio do petismo, o impacto das mudanças nas regras do seguro-desemprego e da concessão de pensões por mortes já anunciadas. O “pacote de maldades” da gestão Rousseff inclui ainda o aumento de quatro impostos que podem gerar 20,3 bilhões de reais aos cofres da União, além do veto à correção do Imposto de Renda em 6,5%, outra medida impopular.

Pelo menos de uma saia justa potencial a presidenta já se livrou. Não será preciso saber de memória os 39 nomes ao seu redor: o cerimonial vai colocar, como de praxe, uma pequena placa com os nomes de todos os reunidos.

Presidenta está há mais de um mês sem falar com a imprensa

O anúncio de medidas impopulares como a não correção do Imposto de Renda, o aumento de alíquotas e as alterações nas regras trabalhistas foram feitas pelo Governo federal. A responsável pela gestão, no entanto, não proferiu nem uma palavra sobre essas questões.

Há 35 dias a presidenta Dilma Rousseff não concede entrevistas à imprensa. Apenas em 2012 ela ficou tanto tempo sem falar com jornalistas, na época foram 38 dias. O último contato da presidenta com repórteres foi durante um café da manhã no dia 22 de dezembro. Na ocasião ela tratou da crise da Petrobras e da composição de seu ministério. Desde então participou de eventos públicos como sua própria posse, no dia 1º de janeiro, ou a de seu colega boliviano Evo Morales, na quinta-feira passada.

Nesta segunda-feira, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República não soube informar se Rousseff vai quebrar o gelo com a imprensa. Informou apenas que a estrutura para receber os jornalistas será montada, mas não é praxe a presidenta falar ao fim do encontro.