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TRIBUNA

Nós somos Charlie, nós estamos indignados, nós temos esperança

Não foi por acaso que o processo social fez com que o símbolo destes dias seja o lápis

Estamos aqui porque estamos indignados!

Indignados com o ato bárbaro de dois homens, ainda jovens, que desesperados e enlouquecidos pelo fanatismo, assassinaram profissionais indefesos no próprio local de trabalho, apenas porque no exercício da profissão fizeram desenhos que, aos olhos dos assassinos, eram blasfêmias. Pela liberdade religiosa, eles tinham direito de considerá-las blasfêmias, e pela liberdade de expressão, os jornalistas tinham o direito de produzi-las.

Podemos duvidar dos limites que as pessoas devem se impor na hora de tratar dos assuntos sagrados de outras pessoas, mas estamos indignados porque a intolerância ainda leva a graus tão extremos --não apenas tenta impedir a liberdade de expressão, como chega a matar artistas que usem sua liberdade. No passado, a mesma intolerância levou à queima na fogueira quem agredisse as crenças dominantes, como Bruno Giordano, queimado por sua blasfêmia científica.

Estamos indignados porque o mundo contemporâneo, com todas suas maravilhas da ciência, das artes e da tecnologia, não tenha sido capaz de avançar na cultura da paz, no exercício pleno da tolerância.

Estamos indignados porque muitos estão usando o maldito gesto de alguns fanáticos na arrogante justificativa para criticar, repudiar e até perseguir aos que praticam a religião e a cultura do Islã. Esta religião tem quase 1.500 anos de história com tolerância; 1,6 bilhão de fiéis, mas por causa da barbaridade de alguns fanáticos que existem em qualquer religião, cria-se preconceitos contra toda a imensa parte da humanidade que há 15 séculos prática o Islã.

Estamos indignados porque a indignação contra os atos terroristas em Paris não se manifesta também diante dos demais atos terroristas que acontecem no mundo. Na mesma semana do assassinato dos doze profissionais Charlie Hebdo, estima-se em quase 18.000 as vítimas do terror na Nigéria, na Síria, no Iraque.

Estamos indignados com a pequena indignação diante do assassinato de pessoas por terroristas que usaram e sacrificaram uma menina de dez anos. Impossível maior brutalidade que uma criança-bomba transportando uma bomba prestes a explodir. Mas a indignação diante desse fato ficou pequena considerando o tamanho da desumanidade e da maldade. A civilização tinha criado os absurdos conceitos de homens-bomba e de bombas-inteligentes, agora ultrapassamos os limites da perversão criando a criança-bomba. E a indignação do mundo não teve o tamanho devido. Estamos aqui por causa de nossa indignação.

Estamos indignados com a ineficiência dos sistemas de segurança que permitem que homens armados entrem na redação de um jornal, mas também com a fábrica de terror que age brutalmente formando o clima social e cultural que cria mais terroristas. Nossa arrogante civilização ocidental ocupa avassaladoramente o mundo sem respeitar as outras culturas da humanidade; graças à sua força, seu sucesso e suas qualidades, rouba terra, destrói florestas, anula valores e culturas, impõe modo de vida, ridiculariza o que não lhe é similar; o resultado é a humilhação, a raiva e o desespero que provoca ações tresloucadas por aqueles que, impotentes para armar exércitos e fazer guerras tradicionais, armam fanáticos e cometem terrorismo.

Mas também estamos aqui por causa da esperança que sentimos. A esperança de que ainda haja esperança. De que a humanidade não esteja condenada a seguir o rumo da intolerância

Estamos indignados e envergonhados com o mundo que construímos. Fizemos uma civilização que levou a humanidade a vencer a dor, as doenças, quase a morte; que levou homens e seus artefatos muito além de nossos horizontes planetários, a distantes partes do universo; conseguimos ver e entender o funcionamento do universo e de seus menores pedaços; dominar a natureza para poder viver com todo conforto; mas não conseguimos dominar os instintos brutais que existem dentro de nossa espécie e de cada um de nós. Não coseguimos controlar nossa voracidade pelo consumo, nossos fanatismos, nossa violência.

Em consequência, estamos em dívida com as futuras gerações. Depois de tudo que logramos fazer, estamos deixando uma civilização do medo para nossos jovens, nossas crianças e aqueles que ainda não nasceram: o medo do aquecimento global e de todas as consequências de um clima enlouquecido; o medo do desemprego em uma economia capaz de usar tecnologias milagrosas que descartam trabalhadores, em vez de criar tempo livre para ser usado livremente; o medo da droga que corrói o cotidiano de cada dependente e sua família; o medo da crescente desigualdade mundial, revelada pelo fato de que as 85 pessoas mais ricas do mundo detêm patrimônio superior a US$ 1,7 trilhões (US$ 20 bilhões per capita) equivalente à riqueza da metade da população mais pobre (3,5 bilhões de pessoas, resultando em US$ 685 per capita); a desigualdade que atinge a mais imoral de suas manifestações ao desigualar a esperança de vida conforme a renda de que a pessoa dispõe para pagar por serviços médicos; uma civilização que superou as desigualdades nobiliárquicas e construiu a desigualdade no direito de viver mais ou menos conforme a renda; sobretudo o mais visível medo, o da violência urbana crescente e do terrorismo impossível de ser controlado se não barrarmos as causas que o fabricam.

Pela liberdade religiosa, eles tinham direito de considerá-las blasfêmias, e pela liberdade de expressão, os jornalistas tinham o direito de produzi-las

Mas também estamos aqui por causa da esperança que sentimos.

A esperança de que ainda haja esperança. De que a humanidade não esteja condenada a seguir o rumo da intolerância, desigualdade, depredação ecológica, arrogância, e seja capaz de reorientar nosso destino para um modelo de civilização cujo principal produto será o tempo livre para as atividades da cultura e das religiões, com a mais radical tolerância, para que sejamos uma humanidade em harmonia com a natureza, e com todos os seres humanos em harmonia entre si.

Nós estamos aqui, finalmente, porque acreditamos que o principal vetor dessa evolução humanista virá para as crianças e graças às crianças, e, portanto, pela educação.

A grande vitória sobre o terrorismo, a construção da tolerância de ideias e crenças, a garantia da liberdade de expressão, a harmonia com o mundo e entre as pessoas virá de um imenso programa mundial de investimento na educação das crianças do mundo. Até porque, de nada adianta falar em pena de morte para quem deseja ser mártir, de nada adianta defender a liberdade de expressão para os 800 milhões de adultos que não sabem ler as ideias escritas nos jornais. Não há como construir a utopia em um mundo onde bilhões de crianças não terminarão a educação básica, sem a qual não conseguirão integrar-se no mundo que desejamos, não conseguirão deslumbrar-se com a beleza, não se indignarão com as injustiças, nem obterão a renda de que necessitam, nem serão capazes de participar da construção do mundo.

Não foi por acaso que o processo social fez com que o símbolo destes dias seja o lápis, e não a metralhadora ou a motosserra, o carro ou os robôs, nenhuma das marcas da modernidade-técnica, mas o símbolo da modernidade-ética.

Cristovam Buarque foi reitor da UnB, governador do Distrito Federal e ministro da Educação. Atualmente é professor da UnB e senador pelo PDT-DF.