Críticas à polícia no caso da italiana assassinada em Jericoacoara

Defensoria Pública solicitou revogação de prisão temporária por falta de provas Mobilização online sobre o caso atribui prisão de brasileira a motivações racistas

A italiana Gaia Molinari em uma imagem de Facebook.
A italiana Gaia Molinari em uma imagem de Facebook.

O caso da morte de Gaia Molinari, a jovem italiana de 29 anos estrangulada no Dia de Natal perto da conhecida praia de Jericoacoara (estado do Ceará), termina sua segunda semana de investigações sem avanços definitivos e com críticas crescentes contra a prisão da principal suspeita, Mirian França, que está incomunicável. França, a farmacêutica carioca e doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que conheceu Molinari em 16 de dezembro em Fortaleza (de onde viajaram juntas, após ficarem amigas, para o ‘paraíso’ nordestino de Jericoacoara), foi presa dia 29 de dezembro após a polícia detectar “inúmeras contradições” em suas declarações.

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A Defensoria Pública do Ceará solicitou na segunda-feira a revogação de sua prisão temporária por falta de provas e afirmou que a pressão internacional influenciou na decisão, em linha com uma crescente mobilização online sobre o caso, que atribui sua prisão a motivações racistas. O juiz auxiliar José Arnaldo dos Santos Soares recusou na terça-feira o pedido por considerar que não competia a ele julgá-lo e por não conhecer a fundo o expediente policial, segundo informações do jornal O Povo, de Fortaleza.

O fim da prisão foi pedido por um grupo de advogados (Castelo Branco, Gina Moura e Bruno Neves) que integram o Núcleo de Atendimento ao Preso Provisório e às Vítimas da Violência (NUAPP), defensores públicos que auxiliarão Mirian França. Em coletiva de imprensa, os advogados afirmaram que a farmacêutica foi presa injustamente, que havia oferecido toda sua colaboração para a polícia e até mesmo se comprometeu a permanecer no Ceará até o final da investigação. Segundo a advogada Gina Moura, não existem indícios de que Gaia e Mirian tivessem um romance. “Pelo contrário, o que se deduz das investigações é que estavam acompanhadas por outros homens”. Os defensores públicos descartaram também qualquer problema de temperamento da acusada e disseram ter obtido com familiares e amigos de Mirian a impressão de que é uma pessoa “querida, introspectiva e que jamais apresentou problemas de comportamento. Pratica meditação. É evidente que qualquer pessoa em uma situação de pressão sente-se intimidada”, afirmou Moura em referência às contradições detectadas pela polícia nas declarações de Mirian.

Diante da crescente repercussão online sobre o caso, que levou numerosas pessoas a acusar as autoridades de prender França por ser “negra e pobre”, a Polícia Civil e a Secretaria de Segurança Pública convocaram na terça-feira uma entrevista coletiva em Fortaleza para esclarecer que a prisão temporária (de 30 dias, prorrogável por mais 30) justifica-se porque a viagem prevista de França para o Rio teria freado a investigação. “A suspeita mentiu numerosas vezes”, afirmou taxativamente a delegada responsável pelo caso, Patrícia Bezerra, que esclareceu que Mirian está alojada em cela separada, “respeitando todos os seus direitos”. As autoridades contestaram também os protestos pelo fato de que França, de 31 anos, não pôde comunicar-se com sua mãe e informaram que a detida escolheu fazer suas chamadas telefônicas permitidas para outras duas pessoas.

O advogado defensor de França, Huberto Adami, também acusou a Justiça de prendê-la sem provas: “Contradição não é confissão de culpa”, afirmou em entrevista coletiva: “Uma pessoa pode ficar com medo em uma delegacia, pois nenhum negro fica tranquilo nas delegacias desse país”. “Não vimos as provas encontradas pela polícia do Ceará para mantê-la presa e existem muitas linhas de investigação, levantadas até mesmo pela imprensa internacional”, sustenta o advogado. No Rio de Janeiro, parentes e amigos de França estão há dias mobilizando-se para pedir a libertação da jovem. Quase 6.000 pessoas apoiam sua causa no Facebook, da mesma forma que a ONG SOS Racismo e até alguns políticos.

A principal novidade do caso, ainda que faltem os resultados da análise de DNA, é que o teste de PSA (Prova do Antígeno Prostático) descartou a presença de restos de sêmen, o que unido à ausência de sinais de violência sexual no cadáver da italiana, a princípio exclui esse motivo. A polícia, que já interrogou 15 pessoas, trabalha com duas linhas principais de investigação: um crime passional e outra que continua sem ser revelada “para não atrapalhar a investigação”, segundo a Polícia confirmou para o EL PAÍS. Em ambos os casos, o crime teria sido cometido por duas ou mais pessoas. O roubo está descartado. A delegada Bezerra informou que a Polícia Civil pretende fazer uma reconstituição do crime, com a participação de França, na próxima semana, e se mostrou otimista quanto à resolução definitiva do caso.

Molinari, que foi encontrada de biquíni com sua mochila em uma área de proteção ambiental, morreu asfixiada e foi antes golpeada no rosto. O resultado do exame toxicológico que determinará se foi drogada (como suspeita a polícia) sairá no dia 15. O cadáver não apresentava rigor mortis, o que permite supor que não se passaram muitas horas entre o momento da morte e a descoberta do cadáver, por um casal de turistas, no dia 25 às 15h. Segundo o Consulado da Itália em Fortaleza, nenhum familiar de Gaia Molinari viajou para o Brasil; o corpo foi embalsamado e será levado para a Europa após a conclusão das investigações.