A economia venezuelana

Inflação, escassez e preços do petróleo são obstáculos para a Venezuela

O país encerra o ano com problemas econômicos aos quais devem ser acrescentados a crescente insegurança, os conflitos políticos e poucas boas notícias nas artes e esportes

Um ato do Governo de Maduro no dia 22 de dezembro.
Um ato do Governo de Maduro no dia 22 de dezembro.EFE

A situação na Venezuela é tão dramática que este ano o Banco Central do país, por pressão do governo, decidiu parar de entregar com frequência mensal o relatório da inflação e da escassez. São entregues, quando são, relatórios com meses de atraso. Os economistas andam às apalpadelas. Os venezuelanos sabem que o dinheiro vale menos a cada dia, se acostumaram a passar horas em filas para comprar com seus magros salários produtos regulados e, no geral, com um estado de calamidade sem precedentes na última metade do século. O Governo diz que está enfrentando uma guerra econômica e os empresários se queixam de que nestas condições macroeconômicas é impossível produzir.

A queda drástica das receitas do petróleo venezuelano, que foi especialmente sentida na última parte do ano, fez com que Maduro cortasse a atribuição de divisas para a empresa privada e particulares. A Venezuela hoje é um grande Estado enganador que deve ao setor privado nacional e internacional ao redor de 20 bilhões de dólares (53 bilhões de reais). A dívida mais escandalosa é que mantém com as empresas aéreas internacionais, cerca de 3,5 bilhões de dólares (9,4 bilhões de reais). Em uma decisão sem precedentes, estas empresas decidiram cortar frequências e manter uma operação mínima no país. O aeroporto internacional Simón Bolívar, principal terminal do país, só tem movimento na parte da manhã e à noite. Hoje aterrissam na Venezuela metade dos voos de 2013.

Em 2015, o governo enfrenta um ano de eleições: os deputados nacionais serão renovados. Nessa época costuma aumentar o gasto público para garantir os votos necessários para manter o controle das instituições, mas desta vez tudo será diferente. Ao ter ingressos menores e um barril de petróleo negociado a preço cada vez menor – em 19 de setembro a cesta de petróleo local custava 51,26 dólares, uma queda de 50 dólares em seis meses – o regime está obrigado a fazer um ajuste fiscal e desvalorizar a moeda. No ano passado, o bolívar no mercado paralelo, que determina o preço de muitos bens, passou de 62 a 178 bolívares por dólar.

Maduro reagiu a esta situação aprofundando o controle da economia e estabelecendo um máximo para os lucros sobre bens e serviços comercializados no país, em um esforço para proteger o deteriorado poder aquisitivo dos venezuelanos. Nos últimos dias, anunciou que delegaria ao vice-presidente os atos de governo e se concentraria em dar “a batalha econômica”. Para isso decidiu criar “um Estado-maior da economia”. Com este termo militar, herdado das metáforas bélicas que costumava empregar seu antecessor, Hugo Chávez, o Presidente espera aprofundar o controle da economia e terminar assegurando que todos os bens que são comercializados no país tenham uma margem máxima de lucro de 30%, em um esforço para proteger o deteriorado poder de compra dos venezuelanos.

O colapso econômico se somou às manchetes habituais dos últimos tempos: a crescente insegurança pessoal, o eterno conflito político e a alguma ou outra boa notícia nas artes e nos esportes

O colapso econômico se somou às manchetes habituais dos últimos tempos: aumento da insegurança pessoal, o eterno conflito político e ocasionais boas notícias nas artes e nos esportes. O homicídio mais divulgado foi o da atriz Mónica Spear. No começo de janeiro de 2014, a ex-miss Venezuela 2004 e atriz de telenovelas, seu marido Thomas Henry Berry, e a filha pequena de ambos voltavam a Caracas depois de passar as férias de fim de ano entre as planícies e os Andes venezuelanos. Na estrada que liga a cidade costeira de Puerto Cabello com Valencia, estado de Carabobo, o veículo conduzido por Berry teve o pneu furado por causa de obstáculos colocados no caminho. Enquanto eram auxiliados por uma grua, quatro criminosos chegaram com a intenção de assaltar. A família correu para se esconder no interior do veículo e, em represália, os homens dispararam. Apenas a garota sobreviveu ao ataque. A morte cruel de Spear e seu triste funeral lembraram os venezuelanos que ninguém está a salvo da violência, e que sua absurda escalada não é uma invenção dos inimigos do chavismo. Em 2013, segundo o Observatório Venezuelano de Violência, (que o governo rejeita) foram assassinadas 24.763 pessoas na Venezuela, uma taxa de 79 homicídios por 100.000 habitantes. Entre 1999 e esse ano já morreram em circunstâncias semelhantes 200 mil pessoas na Venezuela.

A luta política teve sua expressão mais completa em um movimento chamado “A Saída”. Em 23 de janeiro de 2014 os líderes da oposição Leopoldo López, María Corina Machado e Antonio Ledezma convocaram uma manifestação no leste de Caracas, que chamaram de “A Saída”, com dois propósitos: um público – exigir a renúncia imediata do presidente Nicolás Maduro – e outro não declarado: produzir uma mudança na liderança da oposição, que até então era do ex-candidato presidencial e governador Henrique Capriles Radonski.

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Dias depois, começou em San Cristóbal, no oeste da Venezuela, uma manifestação universitária para rejeitar a insegurança. Os estudantes tomaram as ruas da capital de Táchira para repudiar a tentativa de estupro de uma estudante dentro do campus estudantil da Universidade de Los Andes. As duas forças se uniram dias depois para provocar, nos próximos quatro meses, o caos nas principais cidades do país e uma crise política sem precedentes para o jovem mandato de Nicolás Maduro. O governo sobreviveu ao cerco, mas foi forçado a fazer concessões que não tinha em mente no final do ano passado: sentar em uma mesa com seus adversários com mediação do Brasil, Equador, Colômbia e do Vaticano e começar na Assembleia Nacional o processo que culminaria com a renovação parcial dos poderes públicos. A forma de reprimir o protesto provocou a condena das Nações Unidas, da União Europeia e de Washington, que decidiu sancionar nos Estados Unidos os altos funcionários responsáveis pela violação dos direitos humanos. Hoje em dia o movimento que convocou o protesto perdeu seus líderes e outros estão na clandestinidade. Leopoldo López está preso desde fevereiro e María Corina Machado enfrenta um julgamento como suposta responsável de conspiração para assassinar o presidente venezuelano.

Os esportes e as artes foram motivos de alegria para os venezuelanos: em janeiro o filme venezuelano Azul y no tan rosa ganhou o Prêmio Goya de melhor filme estrangeiro. Um prêmio dessa importância é incomum para a indústria cinematográfica local, mas ao mesmo tempo aparece como um apoio à grande quantidade de produções rodadas nos últimos anos e que conseguiram enterrar para sempre o estigma de que o filme venezuelano era um produto menor que só mostrava criminosos, prostitutas e marginais na tela. No beisebol dos Estados Unidos o venezuelano José Altuve ganhou o título de melhor rebatedor da Liga Americana. Um feito comemorado muito em um país mergulhado em uma profunda crise.

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