Insatisfação com Obama impulsiona virada republicana no Senado dos EUA

O presidente enfrentou as eleições legislativas com um mapa eleitoral adverso

Obama durante entrevista na quarta-feira na Casa Branca.Foto e vídeo da Reuters

Se a vitória tem 'cem pais', neste caso a derrota não é órfã. Quando alguma coisa não funciona na política, não importa o que digam os números, a culpa é sempre do chefe – neste caso, o presidente Barack Obama. Repudiado inclusive por seu próprio partido – que o colocou no banco dos reservas e o tirou sempre nos últimos minutos --, o presidente enfrentou as eleições de metade de seu mandato com um mapa eleitoral certamente adverso, tendo que defender “o pior grupo de Estados para os democratas desde Dwight Eisenhower”, como disse o próprio Obama a uma rádio na noite de sua derrota mais amarga.

Amarga porque o paradoxo é que, embora as cifras digam que o desemprego caiu para a metade do índice que Obama herdou de seu antecessor; que o déficit foi reduzido em proporção igual, que os preços da gasolina caíram consideravelmente e que a economia está crescendo, sete em cada dez americanos consideram que o setor econômico não vai bem ou que vai mal. Pesquisas de boca de urna revelaram que essa proporção sobe para oito em cada dez quando se pergunta às pessoas se acreditam que a economia vai piorar no ano que vem.

Nenhuma das eleições de metade de mandato foram boas para os democratas. Os fracassos de 2014 e de 2010 rivalizam com as derrotas sofridas por  Nixon e Clinton 

Vista em perspectiva, a derrota teria nuances: afinal, os republicanos terão apenas 52 vagas no Senado (talvez 54, dependendo do que acontecer com o Alasca e Louisiana), contra os 59 que os democratas ostentavam quando Obama chegou à Casa Branca em 2008. Por essa razão, e devido às inevitáveis contradições que existem na hora de ir para as urnas – vota-se em função da personalidade de um candidato, por tradição familiar, etc. --, o presidente poderia sentir que foi vítima de uma injustiça. Não sendo assim, como explicar que um referendo que elevará o salário mínimo foi aprovado em um Estado, o Arkansas, em que venceram parlamentares que defendem que se os salários aumentam haverá menos contratações?

É preciso ler o resultado de 2014 sob a ótica da frustração, como as eleições do repúdio, aquela em que foi aceita a mensagem de que o voto nos republicanos é um voto contra Obama. E a população está farta de Obama, segundo as sondagens de boca de urna, de acordo com as quais seis em cada dez eleitores expressaram sentimentos negativos em relação à Administração democrata.

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Incapazes de capitalizar o dano que o Partido Republicano causou ao país com a obstrução do Governo, os democratas, desde então, foram de crise em crise e escândalo em escândalo. À possibilidade de uma nova Guerra Fria após a invasão russa da Ucrânia e o que supunha a total confirmação do otimismo perdido dos anos Clinton somaram-se episódios pouco favoráveis à Casa Branca. O Serviço Secreto incompetente; o terrorismo do Estado Islâmico – embora os EUA não tenham sofrido nenhum atentado na era Obama --; o retorno inesperado ao Iraque; o ebola; a avalanche de menores na fronteira com o México e o já famoso mau funcionamento da página na internet da reforma da saúde.

Washington se converteu para os eleitores em um buraco negro, num antro de disfunção, no obstáculo que, apesar de o presidente ter tentado no último minuto mobilizar os eleitores negros, impediu que os democratas mantivessem o controle do Senado. Na noite de terça-feira os republicanos ganharam os Estados do Arkansas, Montana e Dakota do Sul; arrancaram à frente na democrata Carolina do Norte, avançaram no Colorado e Iowa e venceram na Virgínia Ocidental, que não caía em suas mãos desde 1956. O partido de Obama esteve prestes de perder a Virgínia.

Para os eleitores, Washington virou um buraco negro, um antro de disfunção

Outra razão do ressurgimento republicano esteve relacionado à maturidade do partido, à suavização de suas políticas, com o distanciamento de figuras estridentes como o deputado Todd Akins, que quis traçar uma distinção entre estupros legítimos e ilegítimos. “Todd Akins não mais” foi repetido numa reunião do Comitê Nacional Republicano no início de 2012, quando foi traçada a estratégia para retomar o Senado.

Nenhuma das eleições de metade de mandato de Obama foram boas para os democratas. Os fracassos de 2014 e de 2010 – quando os democratas perderam a Câmara dos Deputados – rivalizam com as derrotas sofridas por Richard Nixon em 1974 e Bill Clinton em 1994 e podem ser definidas como as mais destrutivas para o partido do presidente no poder desde o final da Segunda Guerra Mundial.

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