Eleições no Uruguai

Mujica e Tabaré Vázquez trocam críticas na reta final da campanha

Lei sobre regulamentação da maconha divide os dirigentes Esquerdista Frente Ampla pode perder a presidência e a maioria no Parlamento

Tabaré Vázquez durante um comício em Montevidéu, em 12 de outubro.
Tabaré Vázquez durante um comício em Montevidéu, em 12 de outubro.M. C. (AP)

A Frente Ampla, coalizão uruguaia de partidos de esquerda, sofreu nesta semana um grande choque entre seus maiores expoentes. O presidente do país, José Mujica, e o candidato a presidente Tabaré Vázquez tornaram públicas suas discrepâncias logo na reta final das eleições legislativas e presidenciais que serão realizadas no domingo. Os motivos foram a lei de regulamentação da maconha e a formação da equipe econômica. Mas tão importante quanto os motivos é o péssimo momento.

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A troca de críticas ocorre na mesma semana em que os principais institutos de pesquisa do país preveem que a Frente Ampla perderá, no domingo, pela primeira vez em seus dez anos de Governo, a maioria no Parlamento. Também dizem que nas eleições presidenciais Tabaré Vázquez será obrigado a disputar o segundo turno em 30 de novembro. E nesse caso, poderá ser derrotado pelo candidato da Frente Nacional ou Partido Blanco, Pedro Bordaberry. Portanto, a Frente Ampla, que chegou ao poder em 2004 pelas mãos de Tabaré Vázquez, corre o risco de perder as eleições legislativas e presidenciais para uma aliança dos partidos que se revezaram no governo durante 180 anos.

A disputa entre Vázquez (74 anos) e Mujica (79) começou na semana passada quando um jornalista da revista Búsqueda perguntou para Vázquez: “Durante seu Governo, as farmácias irão vender maconha para fins recreativos?” E respondeu: “É inacreditável, mas se a lei autorizar, assim será. Também digo que vamos olhar muito atentamente os resultados disso. Irá ocorrer uma avaliação rigorosa e muito próxima sobre o impacto que essa lei terá na sociedade. Vamos analisar com muito cuidado. E se em algum momento virmos que não funciona, não hesitaremos um instante em fazer as correções necessárias”.

Também perguntaram para Vázquez: “Durante o Governo de Mujica existiram atritos na condução econômica e em alguns momentos existiram duas equipes econômicas, uma no Ministério da Economia e outra no Escritório de Planejamento e Orçamentos. (...) Em um eventual governo seu, aconteceria a mesma coisa? E respondeu: “Não existirão duas equipes econômicas de nenhuma maneira. Durante os cinco anos, ninguém terá dúvidas sobre quem será o responsável pela política econômica”.

A resposta de Mujica veio nessa semana. Sobre a venda de maconha nas farmácias, que parece inacreditável para Vázquez, Mujica disse: “Problema dele, que vá discutir com o Parlamento”. E sobre as equipes econômicas: “Vázquez está enganado. No meu, também não existiram duas equipes econômicas, o que ocorre é que somos abertos, somos livres”.

A troca de acusações lembra as últimas eleições presidenciais. Tabaré Vázquez saiu de seu governo (2005-2010) com 75% de aprovação. E de repente se deparou com declarações de Mujica nas quais o então candidato dizia que o Partido Socialista, ao qual Vázquez pertencia, estava interessado em conseguir cargos para seus militantes. E a resposta de Vázquez, em plena campanha, foi demolidora: “[Mujica critica] tudo e todos, às vezes com uma atitude religiosa em um terreno filosofal, ficando preso a muitas expressões. Algumas delas são simplesmente idiotices e não as compartilho”.

José Mujica disputa as eleições legislativas para o cargo de senador. Os analistas próximos a Frente Ampla estimam que as habilidades de Mujica como negociador poderão ser muito úteis no caso da Frente perder a maioria. Entretanto, existe quem prefira tirar a dramaticidade da derrota. É o caso do historiador uruguaio Gerardo Caetano, que declarou para o Montevideo Portal: “É preciso desdramatizar a ideia de que não ter maioria legislativa gera ingovernabilidade. O país não teve partidos com maioria legislativa durante a maior parte de sua história e teve uma margem muito grande de governabilidade”.