Ex-promotor peruano presidirá a Transparência Internacional

O advogado José Ugaz investigou a rede de corrupção criada pelo ex-presidente Fujimori

José Ugaz, novo presidente de Transparência Internacional.
José Ugaz, novo presidente de Transparência Internacional.Transparencia Internacional

No início de novembro de 2000, as primeiras provas da corrupção governamental estavam circulando há um mês e meio e Vladimiro Montesinos, o ex-assessor de inteligência do presidente Alberto Fujimori, estava com paradeiro desconhecido. O governo criou uma promotoria anticorrupção sob a direção do advogado criminalista José Ugaz e, 12 dias depois, o presidente também fugiu do país. Depois de 13 meses de trabalho, eram 1.500 os imputados e ao redor de 150 na prisão: Montesinos, Fujimori, 14 generais do Exército e dirigentes da Polícia. Agora, Ugaz foi eleito neste domingo presidente da Transparência Internacional (TI), o organismo global anticorrupção.

A Procuradoria Anticorrupção do Peru conseguiu a colaboração do governo de transição do presidente Valentín Paniagua (novembro 2000 – julho 2001) para reformar o Poder Judiciário e o Ministério Público, que tinham sido cooptados em anos anteriores pelo regime fujimorista.

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Ugaz permaneceu no organismo anticorrupção até janeiro de 2002 e apesar de que o governo de Alejandro Toledo retirou o respaldo a essa dependência, conseguiu congelar contas no estrangeiro com fundos no valor de 250 milhões de dólares roubados do Estado, dos quais, “ao redor de 75 milhões foram repatriados”, indica um comunicado da Transparência Internacional difundido desde Berlim, onde foi realizada a eleição.

O advogado criminalista é sócio do escritório Benites, Forno e Ugaz, foi membro da unidade anticorrupção do Banco Mundial de 2004 a 2006, e presidiu o capítulo peruano da Transparência Internacional em 2002.

A candidatura do advogado peruano venceu a de Pascal Lamy, ex-diretor da Organização Mundial de Comércio, e ex-comissário europeu. A vice-presidenta eleita será Elena Panfilova, presidenta da seção russa de Transparência Internacional. No diretório do organismo, composto por 12 membros, foram eleitos também seis novos integrantes, entre eles Mercedes de Freitas (Venezuela) e Elisabeth Ungar (Colômbia).

Ugaz conseguiu congelar contas no exterior com valores de 250 milhões de dólares roubados do Estado peruano

“Ainda há muita corrupção e queremos que algo seja feito a respeito. Devemos focar na forma em que os corruptos estão trabalhando, desmascará-los, voltando nossa atenção às questões de corrupção como o abuso das empresas off shore, impedindo que desfrutem dos lucros obtidos ilicitamente em uma vida de luxo enquanto os pobres devem continuar pagando suas contas”, citou Ugaz.

Em julho, o advogado peruano apresentou seu livro “Caiga quien caiga” (Planeta), as memórias de sua passagem pela promotoria anticorrupção, tomando como título a frase que repetiu em novembro de 2000 para advertir que seu escritório não investigaria exclusivamente Vladimiro Montesinos. O criminalista relatou que, por causa dessas declarações, uma semana depois de ser indicado como promotor Fujimori pediu sua renúncia porque se sentiu aludido. A criação da promotoria foi uma tentativa do ex-presidente peruano de se diferenciar de seu principal colaborador, com quem co-governou.

O livro foi recebido positivamente pela imprensa e pelos analistas, embora alguns dos personagens mencionados no texto – o jornalista Gustavo Gorrit e o advogado Ernesto de la Jara – acusaram falhas na memória do autor.

“Até novembro de 2000 neste país a tradição era que só caíam os peixes pequenos”, comentou o sociólogo Carlos Ivan Degregori em fevereiro de 2001 ao elogiar o trabalho do escritório dirigido por Ugaz e que foi fechado em 2011, ao ser unificado com outras dependências.

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