TERMÔMETRO ECONÔMICO E SOCIAL

A mudança climática desloca mais pessoas que os conflitos armados

América Latina enfrenta enorme êxodo de camponeses e indígenas

Miguel Ochavano, xamã de Paoyhan (Peru).
Miguel Ochavano, xamã de Paoyhan (Peru).L. Florez (Action4Climate)

Quando a Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) – criada para atender os deslocados pela Segunda Guerra Mundial – começa a agir sobre a questão da mudança climática, parece evidente que a migração forçada será uma das principais consequências desse fenômeno.

De fato, a ACNUR calcula que entre 250 milhões e um bilhão de pessoas em todo o mundo perderão suas casas ou serão forçadas a mudar de região e até de país nos próximos 50 anos. Na América Latina, a difícil decisão de ficar ou emigrar é um dilema enfrentado por um crescente número de pessoas.

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É uma decisão sendo avaliada por Atahualpa Valdez e os outros 40.000 residentes da ilha de Cartí Sugtupu e outras do arquipélago de Kuna Yala, na costa do Panamá, todas ameaçadas pelo aumento do nível do mar. Alguns querem ficar, mas outros preferem a terra firme.

"Me lembro que nesse dia tinha uma casa", conta Valdez. "Essa casa desabou. As ondas levaram quase tudo." Pablo Preciado, líder da comunidade Cartí Sugtupu, acrescenta: "Não é muito fácil apenas cruzar [o continente] porque há muitas pessoas que não estão acostumadas a viver lá. É uma mudança drástica".

América Latina em perigo

O clima global está mudando e os efeitos são vistos em toda a América Latina. O nível do mar aumenta, as secas ameaçam a produção alimentar na América Central e no Caribe, enquanto no Sul as intensas chuvas repentinas provocam fortes inundações.

Se a temperatura média global continuar aumentando, a região será uma das mais afetadas e, em poucos anos, como o que ocorreu com as grandes guerras do século XX, poderiam acontecer enormes migrações de pessoas em todas as partes do mundo, expulsas de suas casas e comunidades pela mudança climática.

No Peru, por exemplo, nos últimos anos ocorreram grandes inundações que acabaram com as plantações dos povos indígenas da Amazônia e provocaram doenças. No entanto, os residentes de Paoyhan não estão dispostos a deixar suas terras ancestrais.

"É muito preocupante para o povo, nos anos anteriores não havia esse tipo de desastres", afirma Miguel Ochavano, um xamã local. "Para mim, é uma tristeza ver minha família sem comida. Daqui a um tempo, como vamos estar?", pergunta.

Mais vulneráveis

Nos primeiros três meses de 2014, cerca de um 1,5 milhão de pessoas na América Latina sofreram as consequências de eventos climáticos extremos, principalmente inundações, segundo o escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Não são apenas as inundações, a escassez de água também está afetando a América Latina. Repleta de terras cultiváveis, a região poderia ter um papel-chave em garantir a alimentação de milhões de pessoas, mas o aumento das temperaturas provocou fortes secas nos últimos anos.

Agosto deste ano foi o mais quente registrado até hoje no planeta. Além disso, marcou o 354º mês consecutivo de temperaturas acima da média, segundo a Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos.

Essas altas temperaturas deixaram sua marca em Sherwood Content, a cidade natal do velocista Usain Bolt, na Jamaica, que depende da produção de batata, banana e cacau. "Quando cheguei em 1967, havia muita água", lembra a tia do atleta Lilian Bolt, em um documentário. "Hoje em dia há apenas muito vento e seca. Se não chover durante a temporada, a colheita será perdida."

As histórias de Lilian, Miguel, Atahualpa e outras pessoas na América Latina atingidas pelos efeitos da mudança climática foram ouvidas em uma série de documentários apresentados no concurso global organizado pelo Banco Mundial.

"Queríamos fazer com que as pessoas (especialmente os jovens) se conectassem, se conscientizassem sobre as questões e depois encontrassem soluções em todos os níveis", diz Francis Dobbs, um dos organizadores do concurso Action4Climate. "A mudança é aqui e agora. É dever de todos nós mudar a rota."

Mais de 230 cineastas de 70 países responderam ao chamado. Entre os finalistas, oito são latino-americanos. A esperança deles é que, com suas mensagens, possam ajudar a evitar que milhões de pessoas tenham que abandonar suas casas e terras por causa das mudanças no clima.

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