Um Obama sobrecarregado pelas crises globais busca apoios na ONU

O Estado Islâmico e o ebola estão no centro das discussões dos líderes mundiais

Obama durante um ato pela Guerra do Vietnã, no dia 15.
Obama durante um ato pela Guerra do Vietnã, no dia 15.

Um grupo jihadista do qual poucas tinham ouvido falar há um ano e uma doença que parecia esquecida devem monopolizar a atenção dos líderes mundiais reunidos em Nova York nesta semana. A Assembleia Geral das Nações Unidas, ritual que a cada ano congrega mais de 140 chefes de Estado e de Governo, oferece um retrato único das relações internacionais. Do ebola à violência do Estado Islâmico (EI) na Síria e no Iraque, passando pela Ucrânia, este é um mundo diferente daquele de setembro de 2013, quando foi realizado o último encontro.

“Estamos vivendo uma época com um nível de crises e problemas sem precedentes”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em uma entrevista coletiva, na segunda-feira.

Basta rever o discurso feito um ano atrás por Barack Obama diante da Assembleia Geral para entender como quase ninguém, começando pelo próprio presidente dos Estados Unidos, contemplava a atual instabilidade. Na ocasião, Obama afirmou aos delegados que, após mais de uma década de intervenções militares, os Estados Unidos tinham saído do Iraque e preparavam sua retirada do Afeganistão, pondo fim a “uma situação de guerra perpétua”. Obama proclamou que o mundo era então “mais estável” do que cinco anos antes. Naquele discurso não houve nem um rastro da Ucrânia. E, das três menções à Rússia, duas foram para citar a cooperação no desarmamento químico da Síria e nas negociações para conter o programa nuclear do Irã. A palavra ebola tinha desaparecido do vocabulário internacional.

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Um ano depois, tudo está mudado. Desde março, a epidemia do ebola na África Ocidental atingiu mais de 5.300 pessoas e matou pelo menos 2.800, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). A queda do governo pró-Rússia da Ucrânia em fevereiro, a posterior anexação da Crimeia pelos russos, a insurgência separatista e as sanções contra Moscou ressuscitaram a linguagem da Guerra Fria. As relações entre Washington e Moscou se deterioraram a níveis pouco usuais desde a queda do bloco soviético. E os avanços do Estado Islâmico no Oriente Médio obrigaram Obama a retificar: três anos depois de sua retirada, os Estados Unidos bombardeiam o Iraque e se preparam para ampliar a intervenção na Síria, após descartar um ataque a este país há um ano. A guerra perpétua não terminou.

Nada está como Obama imaginava em setembro de 2013. A história passa por cima de qualquer previsão. E ele não é o primeiro presidente a viver isso. Lyndon B. Johnson queria ser lembrado como o presidente que acabou com a segregação racial e ampliou o bem-estar social, mas a Guerra do Vietnã jogou uma sombra sobre seu legado. George W. Bush era resistente a intervenções militares para mudar regimes em países distantes, mas os atentados do 11 de Setembro colocaram a chamada luta contra o terrorismo no centro de seu governo.

Obama aterrissa em Nova York com uma agenda cheia – discursos em vários fóruns, reuniões bilaterais, recepções e photo-ops (fotografias com outros líderes para consumo interno de cada país). Mas tem um objetivo imediato: construir uma coalizão internacional para “enfraquecer e destruir” o Estado Islâmico. Depois de participar da cúpula sobre mudanças climáticas, nesta terça-feira, ele discursa na quarta-feira para a Assembleia Geral e preside uma reunião do Conselho de Segurança da ONU que obrigará a modificar as legislações nacionais para perseguir cidadãos que se juntem ao Estado Islâmico em países como a Síria e o Iraque, e quem os ajudar. Na quinta-feira, ele participa de uma reunião sobre o ebola.

“Haverá discussões sobre várias crises na agenda da ONU nesta semana, mas o Estado Islâmico e o ebola devem atrair as atenções”, diz Richard Gowan, do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova York. “O ebola é exatamente o tipo de ameaça que a ONU deveria ser capaz de abordar se um número suficiente de grandes potências apoiá-la: não há grandes divergências políticas sobre a necessidade de agir para conter a doença, e fazer isso permite que a ONU use sua experiência em gerenciar epidemias, proporcionar ajuda humanitária e reforçar autoridades estatais muito fracas”, afirma. “Por outro lado, não há por que esperar algum progresso em relação à Ucrânia. Esse é exatamente o tipo de crise que a ONU não pode resolver, porque a Rússia é uma potência entrincheirada no Conselho de Segurança”, conclui. A Rússia é um dos cinco membros permanentes e com direito de veto no Conselho, órgão decisório da ONU.

A ONU pode colocar ordem na instabilidade global, mas dentro de alguns limites. “Nossa era busca, de forma insistente, às vezes desesperada, uma ideia de ordem mundial. O caos ameaça de mãos dadas com uma interdependência sem precedentes”, escreve Henry Kissinger em seu mais recente livro, World Order (Ordem mundial, ainda sem editora no Brasil). “Enfrentamos um período no qual forças sem restrição de ordem alguma determinam o futuro?”.

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