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Corrupção Política

O ‘homem-bomba’ da Petrobras se cala e CPI vira palanque político

O ex-diretor acusado de participar de esquema que desviou 10 bilhões da maior empresa do Brasil não responde a nenhum questionamento feito por congressistas

Paulo Roberto Costa, ao lado de um policial, na CPI da Petrobras. Ampliar foto
Paulo Roberto Costa, ao lado de um policial, na CPI da Petrobras. Ag. Senado

“Me reservo o direito de permanecer calado”. Foi assim que o engenheiro Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras, se dirigiu aos congressistas quando era questionado durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito Mista que investiga a maior companhia brasileira, nesta quarta-feira. Acusado de participar de um esquema ilegal que desviou até 10 bilhões de reais de recursos públicos, o engenheiro chegou a Brasília em uma aeronave da Polícia Federal que partiu de Curitiba, no Paraná, onde ele está preso desde junho.

A convocação dele foi feita após a revista Veja divulgar que o engenheiro fez um acordo de delação premiada com a Justiça no qual denunciou ao menos 30 políticos que foram beneficiados pelo esquema ilegal do qual ele era um dos líderes. Desde então é considerado um homem-bomba que pode interferir na eleição de diversos políticos brasileiros.

Com o silêncio de Costa, os deputados e senadores aproveitaram os 180 minutos de audiência televisionada para tecer críticas a ele, para atacarem seus adversários políticos e se defenderem de supostas ligações suas e de seus partidos com as irregularidades. Um claro palanque político. A oposição ao governo de Dilma Rousseff (PT) aproveitou para vincular o pagamento de propinas da Petrobras ao escândalo do mensalão petista.

“É o mesmo esquema. Lá atrás o operador do era o Marcos Valério, e agora é o Paulo Roberto Costa”, afirmou o deputado oposicionista Fernando Francischini, do Solidariedade, do Paraná. Valério foi condenado a quase 40 anos de prisão pelo crime de lavagem de dinheiro, enquanto Costa ainda não foi julgado e pode se beneficiar da redução da pena, caso suas denúncias contra os outros membros da quadrilha ajudem na apuração policial.

A tentativa da oposição para que o engenheiro falasse algo que pudesse colaborar com o trabalho da CPI foi a de levar a audiência para uma sessão fechada, na qual nem o público em geral nem a imprensa pudessem acompanhar. Não deu certo. A base aliada do Governo derrubou o pedido de fechamento da audiência por dez votos a oito. Se ele falasse na sessão pública, seu acordo de delação premiada poderia ser invalidado.

Cerca de 30 perguntas foram feitas ao ex-diretor. Em 18 ocasiões, orientado por sua advogada, ele disse que não diria nada. Não respondeu sequer a uma pergunta se ele tinha netos. “Todo bandido que vem a uma CPI usou desse expediente. Estamos diante de um bandido. Não é nem vossa senhoria, nem vossa excelência, é bandido”, atacou o oposicionista Onyx Lorenzoni, do Democratas do Rio Grande do Sul.

Nenhuma CPI realizada em ano eleitoral pode produzir aquilo que o país precisa

Iriny Lopes, deputada do PT-ES

O deputado Simplício Araújo, do Solidariedade do Maranhão, afirmou que manter a sessão aberta premiava quem defendia as irregularidades na Petrobras e dificultava a investigação dos parlamentares. “A 20 dias de uma eleição poderia ajudar quem usa de terrorismo para obter mais votos. Está aqui para proteger a sua rabichola. O senhor é uma vergonha para a sua família.”

Membros do PT, como o líder do partido na Câmara, Vicentinho da Silva, rebateram as acusações da oposição e disseram que também gostariam que o delator falasse aos congressistas. “Ao não falar, continua o espetáculo. Continua a campanha enganosa. Ainda bem que isso aqui [a TV Senado] o povo não assiste muito. Nosso povo está feliz porque saiu da miséria. Jovens pobres, negros e índios nas universidades. Emprego pleno, o que é muito bom. Mas, como o depoente não falou, vai continuar terra arrasada com o apoio da grande mídia”.

Um dos inquisidores de Costa foi o deputado federal Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, vinculado ao suposto esquema ilícito por outra revista semanal, a IstoÉ. Este parlamentar questionou se o engenheiro poderia negar ou confirmar todos os nomes dos políticos citados pela imprensa. A resposta: nada a declarar.

Outros dois petistas deram claro sinal do que pode acontecer nos próximos dias. O senador pernambucano Humberto Costa lembrou que várias das imagens da sessão desta quarta-feira serão aproveitadas pelos candidatos no horário eleitoral. Já a deputada capixaba Iriny Lopes disse que tudo pode acabar em “pizza”. “Nenhuma CPI realizada em ano eleitoral pode produzir aquilo que o país precisa”, resumiu a parlamentar.

Congressistas vão ao STF por documentos

Como Paulo Roberto Costa, o homem-bomba da Petrobras, calou-se, os congressistas tentarão novamente obter na Justiça os documentos da investigação que vinculam dezenas de políticos ao escândalo criminoso suspeito de desviar dez bilhões de reais dos cofres públicos. Nos próximos dias, uma comissão de senadores e deputados deverão se reunir com dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para reiterar o pedido de entrega dos documentos da Operação Lava Jato.

Foi nesta ação da Polícia Federal que descobriu-se um suposto esquema criminoso que consistia no pagamento de políticos da base aliada do Governo petista para continuarem apoiando a gestão de Lula da Silva (2003-2010) e de Dilma Rousseff. Os recursos, conforme a revista Veja, provinham de empreiteiras contratadas pela companhia que eram obrigadas a contribuir para um caixa paralelo. As gestões petistas negam a existência do esquema.

Na sessão da CPI desta quarta-feira, os parlamentares também aprovaram a convocação do doleiro Alberto Yousseff, outro suspeito que está preso suspeito de envolvimento no esquema Petrobras, e da contadora dele, Meire Bonfim Poza.