A agressão à jornalista mexicana foi ordenada por um chefe de polícia

Karla Silva foi atacada no dia 4 de setembro na redação do jornal no Estado de Guanajuato

Imagem de Nicasio Aguirre Guerrero, diretor de polícia em Silao, divulgada pela Procuradoria de Justiça de Guanajuato.
Imagem de Nicasio Aguirre Guerrero, diretor de polícia em Silao, divulgada pela Procuradoria de Justiça de Guanajuato.

O responsável pela agressão à repórter mexicana Karla Silva, atacada por três homens em 4 de setembro, é o chefe de segurança do município onde ela trabalha. Segundo informou na quinta-feira o Procurador de Justiça da entidade, Carlos Zamarripa Aguirre, as provas e declarações de testemunhas circunstanciais apontam para a “provável participação do diretor da polícia preventiva do município de Silao [de 173.000 habitantes]”, que teria ordenado o ataque contra a correspondente do jornal El Heraldo de León. Nicasio Aguirre Guerrero está foragido.

Os resultados da investigação foram divulgados uma semana depois de Karla ser agredida na redação. Por volta das 17h30 (19h30 em Brasília), três homens munidos de armas brancas invadiram as instalações do jornal e desferiram golpes contra a cabeça e o corpo da jornalista, dizendo a ela para “baixar o tom de suas notícias”. A repórter, que no momento da agressão estava com uma colega de trabalho, fez a denúncia e foi levada imediatamente ao hospital, onde permaneceu quase 24 horas. Ela apresentava múltiplas contusões no rosto (coberto de sangue), nos braços e nas pernas. Os exames médicos realizados na segunda-feira revelaram que Karla sofreu um edema cerebral leve e teve a visão afetada, devendo, por isso, ficar em repouso absoluto. Na terça-feira a jornalista reiterava o desejo de voltar ao trabalho: “Devo dimensionar o que aconteceu. Foi complicado, mas não tenho por que deixar a cidade ou a profissão. Sou uma pessoa ativa e espero me recuperar logo. Como dizem, não há pior inimigo do homem do que o medo”.

Em entrevista por telefone, o vice-diretor editorial do Heraldo de León, Carlos Martínez Vertti, manifestou o desejo de que “se investigue a fundo”. Prefere ser cauteloso, mas observa que pode haver mais envolvidos no caso: “A repórter cobria muitas denúncias sobre a insegurança na cidade e as carências nos serviços municipais, de modo que o diretor de polícia não era o único incomodado por suas investigações”.

O jornal divulgou nos últimos dias que a repórter há meses vinha sofrendo um boicote na busca por informações junto à Prefeitura. “O prefeito [Enrique Benjamín Solís Arzola, do PRI] não concedia entrevistas e disse a ela certa vez: 'Escute aqui, não se meta comigo' em um tom um tanto sério, mas não ameaçador, por isso ela passou um bom tempo sem pedir entrevistas”, contou o vice-diretor a organizações sociais.

No mesmo sentido, Leopoldo Maldonado, oficial do programa jurídico do Article 19, comentou que a investigação deve seguir a cadeia de comando até o mais alto responsável da Prefeitura, a quem Aguirre Guerrero devia prestar contas. Para a organização defensora da liberdade de expressão, o resultado inicial da investigação “não surpreende pelo contexto no qual se deu a agressão (diretamente no local de trabalho), pelos antecedentes de hostilidade da Prefeitura contra Karla; e porque a maior parte dos ataques registrados contra a imprensa vem de um funcionário público”.

Segundo o Article 19, entre janeiro de 2007 e setembro de 2014, 285 mulheres jornalistas foram atacadas no México e em 132 casos o agressor foi identificado como um funcionário público. “Acredita-se, em geral, que as agressões partam sobretudo das organizações criminosas, mas não é isso que acontece”, diz Maldonado. A violência contra comunicadores no país é uma constante: só no ano passado foram registradas 330 agressões contra profissionais da imprensa, em 2014 três jornalistas já foram assassinados.

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