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O futebol brasileiro enfrenta mais um caso de racismo

Goleiro do Santos é chamado de "preto fedido" e "macaco" em jogo contra o Grêmio

O goleiro Aranha reclama dos insultos racistas na partida contra o Grêmio. Ampliar foto
O goleiro Aranha reclama dos insultos racistas na partida contra o Grêmio. BRAZIL PHOTO PRESS/ESTADÃO

Mário Lúcio Duarte Costa, de 33 anos, o goleiro Aranha do Santos Futebol Clube, foi mais uma vítima do racismo em estádios brasileiros. Torcedores do Grêmio o chamaram de “preto fedido” e de “macaco” durante uma partida válida pelas oitavas de final da Copa do Brasil, na noite de quinta-feira, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Indignado com as ofensas racistas, o arqueiro foi até o árbitro da partida, Wilton Pereira Sampaio, reclamar dos xingamentos, mas nada ocorreu. As câmeras do canal ESPN Brasil flagraram uma jovem branca, vestida com o uniforme do Grêmio, chamando-o de macaco. Outras emissoras filmaram mais gremistas imitando o animal e apontando para o jogador.

Esse não foi o primeiro caso de racismo em gramados do Brasil. O próprio Grêmio foi multado em 80.000 reais por xingamentos contra o zagueiro Paulão, de seu arquirrival Internacional. No início deste ano o volante Arouca, também do Santos, e o árbitro Márcio Chagas, foram insultados enquanto exerciam suas atividades. Arouca foi açoitado em uma partida pelo Campeonato Paulista e Chagas, enquanto apitava uma partida do Gaúcho. Pela Libertadores da América, torcedores do time peruano Real Garcilaso, faziam sons de macacos quando Tinga, do Cruzeiro, tocava na bola. Após esses casos, atletas fizeram campanhas pedindo o fim dos insultos.

Um ato mundial iniciou nas redes depois que o lateral Daniel Alves, do Barcelona, comeu uma banana jogada por um torcedor do Villareal.

“O racismo é algo frequente na nossa sociedade. Nos estádios acontece impulsionado por três fatores, a paixão pela vitória e pela derrota, o sentimento solidificado e mal resolvido pela sociedade, além de uma postura de submissão dos negros, que acham isso normal”, analisou o frei David Santos, diretor da ONG Educafro, entidade que atua na luta pelos direitos dos negros.

Sofrimento

Ao fim da partida em que o Santos venceu o Grêmio por 2 a 0, Aranha concedeu uma entrevista emocionado. “Eu fico nervoso. Desculpe a palavra, fico puto dessas coisas acontecerem. Dói. Dói. Dói. Eu falei para ele [árbitro]: ‘não é possível’. E ele disse que eu estava insultando a torcida. Me chamaram de preto, e eu virei para a torcida, bati no braço dizendo, sou preto, sim. Sou negão, sim. Se isso é insultar, eu não sei”, afirmou às emissoras de rádio e TV.

Desculpe a palavra, fico puto dessas coisas acontecerem. Dói.

Aranha, goleiro do Santos

O atleta disse ainda que casos como esses são comuns nos jogos no Rio Grande do Sul: “Todo mundo que vem jogar aqui, sabe que sempre tem alguns racistas aqui no meio”.

Um fato que chamou a atenção foi que o árbitro Sampaio não relatou os insultos racistas na primeira versão da súmula do jogo entregue à Confederação Brasileira de Futebol. Somente após a repercussão negativa do caso o juiz enviou um adendo ao organismo que rege a modalidade esportiva no Brasil. Sem esse relato, dificilmente um time poderia ser punido. Agora, cabe ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva analisar uma sanção ao Grêmio.

Em nota, o clube gaúcho afirmou que repudia os atos racistas, que age para coibir esse crime e que “está tomando todas as medidas possíveis para que os envolvidos neste episódio sejam identificados” e punidos criminalmente. Além disso, informou que caso os responsáveis sejam sócios do clube, eles serão suspensos e proibidos de ingressar no estádio. O Santos, o time de Aranha, registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil e aguarda a investigação do caso.

Por enquanto a única punida foi a garota filmada pelas câmeras da ESPN. Conforme o jornal Zero Hora, Patrícia Moreira foi demitida de seu emprego de auxiliar administrativa em uma clínica da polícia militar gaúcha.

“Por causa dos nossos quase 400 anos de escravidão, o país adotou uma postura que criou uma consciência de menos-valia em relação à população negra. Agora, se a nação quer ter um rumo novo, precisa punir exemplarmente as pessoas e os times envolvidos em atos racistas”, cobrou David Santos.

A torcedora flagrada chamando o goleiro de macaco.
A torcedora flagrada chamando o goleiro de macaco.