Eleições 2014

O mercado financeiro celebra a onda Marina Silva

A Bolsa de Valores subiu com a pesquisa, e os agentes econômicos já dão como certa a vitória da candidata do PSB

O Brasil dormiu Dilma Rousseff e acordou Marina Silva nos últimos dias com a reviravolta nas pesquisas eleitorais. A pesquisa do instituto Ibope de quarta-feira, que revelou um salto no número de seus potenciais eleitores, virou o humor o país. Marina, do Partido Socialista Brasileiro (PSB), tem 29% das preferências, a petista Dilma tem 34%, enquanto Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), 19%. Se nas redes sociais se estabeleceram os debates contra e a favor do avanço da ambientalista, na Bolsa de Valores de São Paulo ela já é tida como a próxima titular no Palácio do Planalto. A bolsa fechou nesta quarta-feira em 60.950 pontos, seu melhor resultado desde janeiro de 2013. Os analistas atribuem o desempenho à divulgação da pesquisa eleitoral, que colocou Marina num movimento ascendente, com capacidade de bater Rousseff no segundo turno. “A Marina é o nosso Obama”, diz Tony Volpon, chefe de Pesquisas para Mercados Emergentes da Nomura Securities.

A comparação com o presidente dos Estados Unidos diz respeito à eleição dele em novembro de 2008, quando os Estados Unidos começavam a ver o fim do sonho americano da opulência financeira, e buscavam uma nova referência. “A Marina está com esse impulso de capitalizar o sentimento de mudança no Brasil. Ela está se colocando como uma agente de mudanças segura e confiável”, completa Nomura. Isso porque em suas aparições como candidata oficial, desde a semana passada, ela tem deixado claro que vai respeitar os compromissos assumidos por Eduardo Campos.

E porque as pessoas que colaboram com o seu programa de Governo, como o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, têm falado a linguagem das finanças. Nesta segunda-feira, Fonseca concedeu uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo anunciando que a equipe de Marina vai restabelecer o tripé macroeconômico [câmbio flutuante, meta de inflação e disciplina fiscal], estabelecido no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, que perdurou até o primeiro governo Lula e, ainda, que vai reduzir o teto da meta inflacionária.

Dar esse norte para o futuro é saciar a fome de previsibilidade do mercado financeiro. Assim, ao mesmo tempo que Marina capta a insatisfação dos mais desiludidos com a política –jovens e indecisos– a sua candidatura cativa os economistas. O mercado financeiro, entretanto, pode até reagir com oscilações nos índices de bolsa, ou alta do câmbio, como aconteceu durante o primeiro mandato do Governo Lula, quando o dólar, hoje em 2,26 reais, chegou a 4 reais pelo temor de mudanças radicais no cenário. Era o trauma da passagem de Fernando Collor de Mello, que confiscou a poupança em 1990. O PT foi obrigado a escrever uma cartilha de combinados, a Carta ao Povo Brasileiro, anunciando as diretrizes do governo que previa, por exemplo, o respeito às regras já estabelecidas.

Zeina Latif, economista chefe da XP Investimentos, diz que a verdade é que o mercado financeiro não tem ideologia. “Num cenário, em que Dilma ganhe e ela anuncie que fará um governo indicando um determinado ministro, e que faria uma gestão parecida com o do primeiro governo Lula, o mercado ia celebrar”, diz Latif.

Quanto mais clara a sinalização de que haverá ajuste de contas públicas, e as preocupações para o controle de inflação, maior o apoio. Por isso, havia um bom humor com Aécio Neves, esclarece a economista da XP Investimentos. “Ele já tem um time mais definido, já sabe quem será ministro, quem será o nome para a pasta da Fazenda, e assim por diante”, completa Latif.

Curiosamente, uma pesquisa informal, elaborada pelo jornal Valor Econômico, num evento com empresários na noite de segunda-feira, mostrou que se o eleitorado fosse composto somente pelos empresariado, Aécio Neves, candidato do PSDB, venceria de cara no primeiro turno, com quase 70% dos votos, enquanto Rousseff teria 14%, e Marina Silva, 12%. Neste caso, o setor empresarial se mostra mais conservador que o mercado financeiro em apoiar a candidata do PSB porque Silva ainda não detalhou seu programa de Governo e não se sabe exatamente como ela vai operar diante da necessidade, por exemplo, de aumentar investimentos ou de ampliar os acordos internacionais.

Já o mercado do agronegócio se mostra dividido diante da nova perspectiva eleitoral. Roberto Rodrigues, por exemplo, ex-ministro da Agricultura de Lula, que trabalhou ao lado de Marina, quando ela era titular da pasta de Meio Ambiente, confia que a presidenciável do PSB respeitará os compromissos firmados por Eduardo Campos. “Eu mesmo estive em várias reuniões dele com lideranças rurais e ele foi muito claro e positivo, defendendo a importância do agronegócio. Mas que fosse feito com sustentabilidade”, conta Rodrigues.

O ex-ministro da Agricultura diz que conhece muito bem o estilo de Marina Silva, e embora haja desconfianças sobre a sua postura, ele acredita que a presidenciável se rende fácil ao diálogo e à negociação. “Tivemos muitos embates enquanto trabalhamos juntos, mas sempre acabamos em acordos. E ela está muito mais aberta hoje do que naquele tempo”, elogia.

A senadora Kátia Abreu, do PMDB do Estado de Tocantins, tida como uma forte porta-voz do agronegócio, entretanto, não esconde suas reservas. Em entrevista recente à revista Época, Abreu disse que a candidata socialista faz da questão ambiental “um dogma, uma religião”. E que Silva “se recusa a dialogar e a abrir sua mente para outras situações que a sociedade demanda”.

Mais imediatista, os investidores de curto prazo captam o movimento do presente, seguindo a popularidade crescente de Marina Silva. Já é dado como certa que uma nova pesquisa que será divulgada neste final de semana terá a presidenciável na frente inclusive de Rousseff. Por isso, o mercado já incorpora “É só ela não tropeçar, não fazer besteira que ela ganha”, avalia Volpon, da Nomura Securities, que tem conversado com pessoas do mundo econômico e político nos últimos dias. “Está difícil encontrar alguém que não acredite na vitória da Marina”, completa.

Elizabeth Johnson, diretora de pesquisa para o Brasil da consultoria britânica Trusted Sources, prefere manter a cautela, mesmo com as mudanças no humor do eleitorado. “Ainda é muito cedo para falar em derrota da presidenta Dilma Rousseff. Apesar de todas as questões econômicas, ela consegue dar respostas”, afirmou.

O mais visto em ...Top 50