Vai um espetinho de jumento aí?

Um promotor de Justiça explica as razões para incluir a carne do animal na mesa do brasileiro

Jumentos abandonados em Quixeramobim, CE.
Jumentos abandonados em Quixeramobim, CE. Jarbas Oliveira (Folhapress)

“Imagine 30 vegetarianos me ouvindo falar sobre o abate de jumentos? Seria uma malhação de Judas”. É assim que Silvio Brito, promotor de Justiça de Apodi, cidade a 335 quilômetros da capital Natal, se refere à audiência pública que ocorreu na Câmara dos Deputados na semana passada para debater uma ideia dele próprio: a venda e o consumo da carne de jumento no Brasil. “Mas para a minha felicidade, o convite para participar da audiência não chegou a tempo e eu não pude ir”, diz.

Segundo Brito, a ideia de incluir essa carne que, até o momento, não faz parte do cardápio do brasileiro surgiu por consequência de um efeito cascata: A cada ano, mais jumentos são abandonados por seus donos. Sem ter para onde ir, os bichos vão procurar comida nas margens de rodovias e acabam causando acidentes. “Na semana passada morreu um senhor que estava viajando de moto e trombou com um jumento. Ele caiu da moto e um caminhão passou por cima dele. Fizemos um levantamento e contabilizamos 100 acidentes fatais como esse, ou muito graves envolvendo os jumentos nos últimos três anos”, conta Brito.

Com o advento das máquinas e da tecnologia, o jumento, que outrora já foi o maior meio de transporte e ferramenta de trabalho principalmente na região nordeste do Brasil, acabou ficando obsoleto. “Hoje o jumento não serve pra nada aqui no Brasil, e em especial no nordeste. Nesse período de estiagem, que não há mais pasto, o agricultor solta os jumentos para pastar em outros lugares e dar espaço para o gado dele se alimentar”, diz. E é assim que os animais vão parar nas beiras de estradas.

Com o problema da superpopulação de jumentos abandonados crescendo a cada ano, foi criada uma ONG para recolher os animais. Em oito meses de trabalho, 1.000 jumentos foram recolhidos e agora é o local que sofre com a grande quantidade de animais e a escassez de remédios e comida. Daí a ideia de Brito de mandar o jumento para o abatedouro e, consequentemente, para a mesa do brasileiro. Para difundir a ideia, em março deste ano o promotor realizou um churrasco para mais de 100 pessoas para degustar a carne do animal.

A proposta de Brito sofreu fortes críticas de ONGs e associações protetoras dos animais. O presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos dos Animais, deputado Ricardo Izar (PSD) afirmou, no dia da audiência, que Brito estaria autorizando a morte de animais em desrespeito à Constituição. “O promotor tem a função de respeitar e proteger a Constituição brasileira. E ele fez o contrário. Ele feriu a Constituição, que diz, claramente, no artigo 225, que é função do poder público proteger a fauna e a flora. Ele que tinha que proteger, matou”, disse, segundo o site da Câmara dos Deputados. O debate terminou com os deputados se comprometendo a aprovar um projeto de lei de 2013 que proíbe o abate de jumentos, além de outros quadrúpedes, como o cavalo, em todo o território nacional. Até o fechamento desta reportagem, a lei ainda não havia entrado na pauta de votação da Câmara.

“Existe muito ambientalista ativista, mas nunca apareceu um desses para dar um saco de comida a esses bichos. São ativistas de Facebook”, critica Brito. Primeiramente, sua ideia foi veiculada por muitos veículos de comunicação como se a proposta fosse incluir a carne de jumento na merenda escolar e nos presídios. “Nosso foco era difundir que a carne de jumento no Brasil é própria para o consumo. Quando lançamos a ideia, algumas pessoas levantaram essa hipótese de incluir na merenda, mas esse nunca foi o foco”, explica.

Do ponto de vista legal, de acordo com Brito, não há impedimentos para o consumo da carne de jumento no país. Para ele, a questão é cultural e, se for vencida, esse tipo de carne poderia entrar na mesma regulamentação que rege abatedouros de carne suína e bovina.

Além das questões ideológicas, o debate ainda tem algumas questões a serem discutidas. De acordo com o IBGE, em 2012, a população de jumentos no Brasil mal passava de 900.000 – sendo que 812.000 deles se concentram na região nordeste - , enquanto a população bovina ultrapassou os 210 milhões no país. Incluir a carne do jumento nas prateleiras dos supermercados não exterminaria, de vez, a espécie? Ainda segundo o IBGE, a estimativa da população do Rio Grande do Norte hoje é de 3,3 milhões de pessoas, enquanto a quantidade de jumentos no mesmo Estado chega a 50.000. Proporcionalmente, são 66.000 pessoas para cada jumento. Será que daria para todo mundo?

Outros pontos de cunho mais gastronômico seriam: esse alimento entraria na categoria de “carnes exóticas”, custando muito mais caro do que a carne bovina, ou seria uma carne de segunda? Esses animais apreendidos no Rio Grande do Norte estão em condições de prover carne para consumo humano? E por último, mas não menos importante, a carne de jumento é realmente saborosa? A reportagem não conseguiu provar por pura falta de oportunidade. Mas será que ela seria facilmente aceita pelo Brasileiro?

“Quem critica são os ambientalistas. Para eles, não se deveria matar animal nenhum para comer. Eu já acho que um animal morrer para alimentar outro é a maneira mais sublime que ele tem pra morrer”, diz Brito. “Um dia, eles vão acabar fazendo campanha contra os leões, porque, afinal, os leões matam outros animais para comer”.

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