Análise
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É necessário que presos e crianças comam carne de burro?

Parece estranho que se tenha pensado em usar a carne dos burros justamente para presos e crianças das escolas públicas, que são os filhos das famílias pobres

A notícia que está sendo debatida entre deputados federais e instituições civis, a possibilidade de colocar carne de burro no cardápio das prisões e das escolas públicas, colocou em pé de guerra ambientalistas e escritores.

Alega-se que existe excesso destes simpáticos animais, adorados pelas crianças, no Rio Grande do Norte, que causam problemas no tráfego de carros.

Parece estranho, entretanto, que se tenha pensado em usar a carne dos burros justamente para presos e crianças das escolas públicas, que são os filhos das famílias pobres, ou seja, das categorias de alguma forma excluídas da sociedade.

Sobre isto estão se rebelando, não apenas os defensores dos animais, mas também os amantes da literatura na qual, há milhares de anos, o burro aparece como uma figura sagrada.

Na objeção de que no Nordeste existe um excesso de burros que um dia, antes dos carros chegarem, contribuíram na construção das cidades, os ambientalistas lembram que estes animais, pelo caráter mítico que levam, poderiam ser usados para outras funções, incluindo terapias ambientais como afirma, no jornal O Globo, Marise Costa, presidenta da Comissão de Direito Ambiental da OAB-RN.

Os que conhecem a história cultural do Nordeste pobre e a literatura universal se opõem a que estes burros sejam vistos como um simples animal para converter-se em carne para crianças pobres.

Quando, no ano passado, houve uma negociação com o governo da China para que o Brasil venda a cada ano 300.000 burros para aquele país para serem convertidos em cosméticos e sanduíches, o romancista João Ubaldo Ribeiro, saiu em defesa dos jumentos nordestinos. Com seu característico humor terno e amargo ao mesmo tempo, afirmou: “Para mim, comer burro é uma espécie de canibalismo. Talvez soe exagerado, mas é que me lembro do burrinho da minha infância, e sobretudo do jumento de Nosso Senhor”. E acrescenta sarcástico: “E por favor, não venham me fazer agora Jesus entrar em Jerusalém no lombo de uma moto”.

O burro nordestino foi cantado por poetas de cordel como Luís Gonzaga, em seu famoso poema “O jumento é nosso irmão”.

Nesta cultura o burro sempre foi mais do que um animal. Era um símbolo, estreitamente ligado à vida cotidiana e sofrida de sua gente.

O Nobel de Literatura espanhol, Juan Ramón Jiménez, se junta com a literatura nordestina com sua famosa obra “Platero y yo”, adorada pelas crianças, que define o burro como “pequeno, peludo, suave, tão mole por fora que não tem ossos” e dele o escritor fala que é “terno e fofo como uma criança”.

A figura do jumento já foi cantada há cinco mil anos, como mostra uma pesquisa de Benjamin Valdivia, que abarca desde os Vedas até Gabriel Garcia Márquez.

A figura do jumento aparece até na obra O Idiota de Dostoievski, que parece não entender das coisas, mas na realidade “entende até as mais complicadas”.

Victor Hugo chegou a dedicar ao jumento um poema antes de morrer e por este pobre animal se interessaram na antiguidade figuras como Homero, Platão, Góngora, Shakespeare e chega até a adquirir categoria teológica em Assim falou Zaratustra de Nietzsche.

A Bíblia, considerada a obra de maior envergadura da literatura universal, cita o burro 133 vezes, entre o Antigo e o Novo Testamento. A figura humilde do burro aparece como símbolo e emblema de todos os párias e esquecidos da Terra.

Os cabalistas afirmam que em hebraico burro tem as mesmas letras que a palavra “matéria”, e que é visto como “mestre de todos os segredos do Universo”.

As crianças que agora querem alimentar com a carne de burro nas escolas públicas, têm sido sempre as mais sensíveis à figura do animal simples que teve a honra de levar nas costas Jesus de Nazaré no Domingo de Ramos.

Em um filme antigo, os burros aparecem trabalhando em minas, sem ver a luz do dia. Quando já não serviam e estavam velhos eram eliminados, até que aparecem as crianças que, tocadas com aqueles jumentos que nunca haviam visto a luz do sol, protestam e impedem que sejam sacrificados.

Hoje, no mesmo Nordeste no qual querem criar jumentos para alimentar presos e crianças, existe uma experiência piloto cultural para incentivar a leitura. Se chama Burroteca. É realizada na localidade de Auzilândia, em Alto Alegre de Pindaré, a 219 quilômetros de São Luís do Maranhão, aonde os burrinhos foram transformados em bibliotecas ambulantes que chegam aos povoados mais longínquos.

Seria melhor para ele, pensam não poucos cidadãos, que os deputados levassem em conta a rica história literária e humana, quase sagrada da figura do jumento antes de convertê-lo em carne. Uma carne considerada de pouco valor se pensada em ser utilizada em prisões e escolas.

Não é o Brasil o maior exportador de carne do mundo?

É, realmente, necessário sacrificar os pobres jumento para transformá-los em proteína para as crianças? Perguntam-se hoje muitos brasileiros e não apenas no Nordeste, pátria histórica do bíblico animal.

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