“A onda de crianças desacompanhadas na fronteira é um desafio humanitário”

O vice-presidente dos EUA viaja para Guatemala, El Salvador e Honduras Ele pretende tratar da chegada de menores migrantes ao país norte-americano

Joe Biden, nesta quarta-feira em Washington.
Joe Biden, nesta quarta-feira em Washington.MANDEL NGAN (AFP/Getty Images)

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, recorre frequentemente ao seu número dois, Joe Biden, para que lhe ajude nas constantes crises que brotam no país – ou no estrangeiro – no momento mais inesperado.

O experiente político de 71 anos, senador durante muito tempo (1973 – 2009) e possível futuro candidato à presidência, foi escolhido, entre outras complexas missões, para lidar com o Congresso nas duras disputas orçamentárias ou encabeçar grupos especiais como o formado por Obama para buscar de que forma limitar a violência no uso de armas.

Com a última crise em pleno desenvolvimento, a massiva entrada ilegal de menores desacompanhados pela fronteira sul do país, o presidente mandou seu número dois à Guatemala, aonde nesta sexta buscará soluções para o crescente problema com os principais responsáveis da região, a principal fonte desta imigração infantil descontrolada.

Biden organizou uma reunião de emergência com os presidentes da Guatemala, Otto Pérez Molina, de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén, e o coordenador geral do Governo de Honduras, Jorge Ramón Hernández Alcerro. Três quartos das crianças que chegam aos Estados Unidos, que segundo cifras oficiais superam os 47.000 entre outubro do ano passado e maio, procedem destes três países da América Central.

Pouco antes da reunião guatemalteca, o vice-presidente Biden explicou em entrevista exclusiva ao EL PAÍS os planos de Washington para lidar com esta crise imigratória, uma das mais graves sofridas pelos Estados Unidos nas últimas décadas.

Pergunta. Como explica o súbito fluxo de imigrantes menores sem acompanhantes aos Estados Unidos? Por que agora?

Resposta. Estamos muito preocupados com a onda de crianças sozinhas que cruzam a fronteira dos Estados Unidos. Estas crianças são as mais vulneráveis e muitos se convertem em vítimas de delitos violentos e abuso sexual. Também houve um aumento na quantidade de famílias que estão fazendo a viagem. A grande maioria destas pessoas também depende de perigosas redes de contrabando de seres humanos que os transportam através da América Central e do México, colocando em perigo sua segurança e até suas vidas. Muitos escapam do abuso, outros escapam das quadrilhas de delinquentes e da violência, e outros são vítimas do tráfico humano ou do abandono.

O aumento da quantidade de menores desacompanhados que imigra para os Estados Unidos é impulsionado por uma série de fatores, incluindo os sérios desafios da violência e a falta de oportunidades econômicas. Também existem algumas percepções errôneas na América Central de que as crianças se encontrarão seguras com seus pais uma vez que sejam detidas na fronteira pelos funcionários dos Estados Unidos, sem a possibilidade de traslado. Isto é um mal-entendido da política de imigração dos EUA, estas crianças não podem optar pelo processo da ação deferida para os menores de idade que chegam [procedimento DACA, na sigla em inglês] ou as concessões de cidadania incluídas na legislação de reforma migratória [atualmente bloqueadas no congresso]. Todas as crianças e as famílias estão sujeitas aos processos de deportação. O importante é que não vale a pena submeter as crianças a uma viagem perigosa quando não existe luz no fim do túnel.

P. O que os Estados Unidos farão para deter a crise atual?

R. Nós vemos isto como uma responsabilidade compartilhada por todos os Governos afetados. Nenhum Governo quer ver seus cidadãos colocarem suas vidas em perigo, e nosso trabalho é fazer o que for necessário para evitar que as pessoas continuem a fazê-lo. Nós vemos esta onda de crianças imigrando desacompanhadas ao longo da fronteira sudoeste dos Estados Unidos como um sério desafio humanitário. Para fazer frente a esta situação, o presidente encaminhou à Agência de Administração Federal de Emergências a coordenação de uma resposta de todo o Governo a esta situação urgente. Nossa primeira prioridade é manejar a situação humanitária assegurando que estas crianças sejam alojadas, alimentadas e que recebam qualquer tratamento médico necessário.

A responsabilidade é compartilhada entre todos os governos afetados

Em terceiro lugar, vamos aumentar os recursos próximos à fronteira para elevar nossa capacidade de deter pessoas e manejar o processo de deportação o mais rápido e eficientemente possível. Também vamos incrementar o número de juízes dos serviços de imigração, promotores e funcionários encarregados da tramitação de asilo para ajudar no processamento eficiente destes casos, e, ao mesmo tempo, avaliar se alguns podem receber a proteção concedida pelo direito a asilo político.

P. Por que o Governo dos Estados Unidos não outorga um estatuto de Estado Protegido Temporário (TPS, na sigla em inglês) a estes menores?

R. El Salvador, Honduras e Nicarágua, atualmente, foram designados para receber o Estado Protegido Temporário com base em catástrofes que ocorreram. Isto permitiu que dezenas de milhares de pessoas destes países, que já estavam nos Estados Unidos há muitos anos, permanecessem aqui legalmente, com status temporário. Os cidadãos dessas nacionalidades que entrarem nos Estados Unidos hoje, não são aptos, sem importar sua idade. Acreditamos que há soluções mais sustentáveis para o desafio atual do que o TPS, que foi projetado para situações como desastres ambientais e conflitos armados.

P. Que medidas específicas serão requeridas a seus parceiros na América Central para desencorajar os menores de idade a virem para os Estados Unidos?

R. Viajo para a Guatemala para buscar uma resposta internacional em conjunto com os presidentes da Guatemala e de El Salvador, e também com representantes de Honduras e do México. Juntos, discutiremos medidas para frear o fluxo de imigrantes que empreendem a perigosa viagem aos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que trabalharemos para melhorar as oportunidades econômicas e a segurança em casa. Também nos ocuparemos de algumas percepções errôneas da política de imigração dos EUA. Sabemos, pelas discussões que tivemos até agora, que nossos parceiros entendem nosso interesse em promover a imigração segura e legal, e em desencorajar a imigração ilegal que expõe estes cidadãos, especialmente suas crianças, ao perigo.

Durante minha visita, espero abordar maneiras para poder melhorar nosso trabalho na região, para nos ocuparmos da raiz de algumas causas, incluindo a falta de segurança dos cidadãos, as oportunidades econômicas e a proteção das crianças.