A opositora Machado depõe sobre um suposto plano para matar Maduro

Um promotor convoca a ex-deputada para interrogá-la em caso de conspiração contra o presidente

Machado, nesta segunda-feira, ao chegar à promotoria.
Machado, nesta segunda-feira, ao chegar à promotoria.

A opositora venezuelana María Corina Machado atendeu nesta segunda-feira à convocação de um promotor que investiga uma suposta tentativa de assassinato contra o presidente Nicolás Maduro. O interrogatório começou às 10 da manhã, horário local, e durou sete horas. Embora a parlamentar destituída de sua cadeira prestasse depoimento na condição de testemunha, seus advogados e assessores temiam que fosse indiciada e detida - o que não aconteceu - como uma das planejadoras da trama conspiratória.

Em seu escritório, situado no bairro de Altamira, no sopé do Monte Ávila, o cartão postal mais difundido de Caracas, seus partidários e colaboradores se dividiam entre o otimismo e o pessimismo. “Já venho, já venho”, dizia Machado, enquanto abraçava uma de suas colaboradoras perto da porta de saída de seu escritório. Logo voltou e ensaiou outra frase semelhante para acalmar quem a observava com expressão angustiada: “Nós nos veremos esta tarde.” Do lado de fora a esperavam dois ônibus repletos de amigos e seguidores, fretados por seu escritório.

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A favor dessa tese mais fatalista há dois fatos: a Venezuela pediu à Interpol a captura de outras três pessoas supostamente vinculadas com esse plano revelado em capítulos pelo Governo há 15 dias, os advogados Pedro Mario Burelli e Ricardo Koesling e o ex-embaixador da Venezuela nas Nações Unidas e ex-candidato presidencial Diego Arria; e Machado é a última representante da facção oposicionista que, desde fevereiro, reivindica nas ruas o fim antecipado do governo de Maduro que permanece em liberdade.

Nos últimos quatro meses o Governo quase pôs na ilegalidade o partido Vontade Popular, prendeu os prefeitos mais entusiastas do protesto e, além disso, o Poder Judiciário determinou que o dirigente oposicionista Leopoldo López deverá aguardar na prisão o julgamento dos delitos a ele atribuídos pela procuradoria, que o responsabiliza pelas desordens de 12 de fevereiro, as quais deram início à onda de protestos na Venezuela.

Por isso, quando subiu ao ônibus que a levaria até seu interrogatório, a ex-parlamentar encontrou nos assentos vários de seus ex-companheiros da Movida Parlamentaria, uma ala da bancada oposicionista na Assembleia Nacional liderada por ela; empresários como Marcel Garnier, presidente das empresas 1BC, proprietária da desaparecida rede Rádio Caracas Televisión; a ex-juíza do Supremo Blanca Rosa Mármol de León, conhecidos jornalistas de televisão, articulistas da imprensa, a cantora de música folclórica venezuelana María Teresa Chacín e Lilian Tintori, mulher de Leopoldo López.

No caminho escreveu em sua conta no Twitter: “ A caminho da Procuradoria, armada com meus princípios e acompanhada da solidariedade de milhões de cidadãos que não se dobram”, e aproveitou para escutar Agustín Berríos, um ex-dirigente do partido social-cristão Copei, que ficou ao seu lado durante quase todo o trajeto.

Depois de fazer algumas anotações na parte inferior de uma folha impressa com letra de computador, Machado se levantou de seu assento para tirar fotos com os passageiros e logo as publicou em sua conta no Twitter. Foi um modo de agradecer o gesto dessas pessoas nesse tenso momento. Machado costuma não atribuir gravidade às situações de risco que enfrenta em sua carreira política, como uma forma de infundir ânimo a seus seguidores. Nesta segunda-feira não foi diferente.

A Guarda Nacional Bolivariana bloqueou as ruas próximas à sede do Ministério Público. Machado desceu do ônibus com os deputados e os membros mais próximos de sua equipe, que gritavam palavras de ordem em sua defesa. Uma mulher em uma esquina gritou “assassina”. Ao lado da procuradoria, ela declarou aos jornalistas que a esperavam: “Atendi à citação porque acredito na verdade que, no final, sempre se impõe. Estou aqui por meu compromisso democrático.”

Com esses gestos, Machado busca elevar o custo político do Governo se decidir prendê-la. Nas últimas horas 34 congressistas peruanos se solidarizaram com sua causa e o presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado do Brasil, Ricardo Ferraço, instou a presidenta Dilma Rousseff a pronunciar-se sobre o caso.

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