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Copa do Mundo 2014

A pena perpétua de Barbosa

Vítima em 1950 de uma das maiores injustiças do futebol, o goleiro passou seus últimos anos no litoral de São Paulo tentando exorcizar o maracanazo

O ex-goleiro Moacyr Barbosa, que levou o gol do Uruguai em 50. Diario AS
O ex-goleiro Moacyr Barbosa, que levou o gol do Uruguai em 50. Diario AS Diario AS

Final da Copa do Mundo. Trinta e quatro minutos do segundo tempo. O empate dá o primeiro título ao Brasil. O ponta Gigghia entra pela direita e, quase sem ângulo, não cruza, chuta para o gol. A bola entra rasteira no canto esquerdo, apesar do esforço do goleiro brasileiro Barbosa. Uruguai 2 a 1, de virada. Silêncio e choro no recém-inaugurado Maracanã com quase 200 mil torcedores. Luto em todo o país. E o início de uma das maiores injustiças do futebol, que marca o destino de Barbosa, apontado como o maior culpado pela derrota.

“No Brasil, a pena máxima (de prisão) é de 30 anos, mas pago há 40 por um crime que não cometi”, costumava dizer décadas depois do incidente o ídolo do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, e que, até a fatídica data de 16 de julho de 1950, havia sofrido quatro gols em cinco jogos no Mundial. A seleção brasileira chegava à final com grande entusiasmo popular e um favoritismo quase inabalável, após ter marcado 21 gols e acumulado goleadas como a de 6 a 1 ante a Espanha e a de 7 a 1 contra a Suécia.

Não foram poucas as vezes em que o ex-goleiro teve de enfrentar cobranças na rua após o episódio que entrou para a história como “Maracanazo”. Sobre uma delas, contou que uma mãe o apontou para o filho em um comércio e o identificou como “o homem que fez o Brasil chorar”. Em outra, disse ter sido interpelado de forma ríspida em um bar. “Aqui no Brasil ser vice-campeão do mundo não tem valor, não vale nada”, dizia, em meio a hábitos de vida simples e muito distante das fortunas proporcionadas atualmente pelo futebol.

Barbosa, inclusive, chegou até a passar pelo constrangimento de ser impedido de visitar os jogadores na concentração da seleção brasileira, em 1993. A situação gera alguma controvérsia até hoje, com pessoas próximas ao ex-goleiro desmentindo o ocorrido e atribuindo a polêmica ao sensacionalismo da imprensa da época. O Brasil decidiria sua sorte dias depois nas eliminatórias para a Copa dos Estados Unidos contra o mesmo Uruguai, no mesmo Maracanã. Acabaria carimbando o passaporte ao vencer por 2 a 0, com gols de Romário. O ex-goleiro acabou sendo recebido por Zagallo, então coordenador técnico da equipe.

Nelson Rodrigues (1912-1980), um dos maiores dramaturgos brasileiros, escreveu em 1959: “Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral. (...) O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta, da derrota. (...) O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, da (gripe) Espanhola, do assassinato de (senador) Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado frango de Barbosa”.

O drama de Barbosa fez até com que alguns duvidassem no Brasil da capacidade de goleiros negros. Irmão de Nelson Rodrigues, o jornalista Mario Filho (1908-1966), que dá ainda nome ao Maracanã e é autor da obra referencial O Negro no Futebol Brasileiro, disse que, quando o brasileiro acusou, além de Barbosa, os também negros ou mulatos Juvenal e Bigode (pela derrota em 1950), acusou a si mesmo.

Superstição ou não, o fato é que só o goleiro Dida, ex-Milan, foi o titular absoluto da amarelinha em uma Copa do Mundo, em 2006. O Brasil acabou eliminado pela França nas quartas de final. Agora, Jefferson, do Botafogo, do Rio de Janeiro, tem chance de mudar essa história, ao figurar entre os convocados para o Mundial de 2014. Ele vai, no entanto, ocupar a reserva de Júlio César, como na Copa das Confederações do ano passado.

Barbosa nasceu Moacir Barbosa Nascimento, em Campinas, no interior de São Paulo, em 1921. Pela seleção brasileira, conquistou o Sul-Americano de 1949. Defendendo o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, ganhou seis títulos estaduais e um continental precursor da Copa Libertadores da América, em 1948. Esse time é lembrado até hoje como “Expresso da Vitória”. Após deixar os gramados, em 1962, foi funcionário do Maracanã e, anos depois, deixou o Rio para viver em Praia Grande, no litoral de São Paulo.

Hoje, o legado de Barbosa, que não teve filhos, está com Tereza Borba, uma cuidadora de idosos de 53 anos que vive em Praia Grande. Ela conheceu o ex-goleiro quando era uma vendedora em uma barraca de praia na cidade, em 1992. “O Barbosa veio embora porque no Rio cobravam muito dele. Uma irmã dele chamou então ele para vir para cá. E aí ele se apaixonou pela cidade”, diz.

Leilão

Tereza Borba afirma que pretende levar a leilão uma relíquia do Mundial de 1950, um pedaço de uma das traves do Maracanã recebida de um historiador do Estado de Minas Gerais (região Sudeste). A outra, conta, Barbosa recebeu como presente na época em que era funcionário no estádio carioca, por ocasião da troca das traves de madeira por outras mais modernas. “Ele colocou fogo na madeira em Ramos (bairro do subúrbio do Rio de Janeiro onde morava) e fez churrasco com a brasa.”

Com o dinheiro arrecadado com o leilão, ela espera reformar o túmulo do ex-goleiro e ajudar na construção de uma estátua de corpo inteiro, para colocá-la em uma praça que teria o nome dele ou mesmo na entrada do cemitério em que está enterrado próximo à sua esposa, Clotilde, em Praia Grande, “contando a história dele de glórias e honras”.

 “O pior momento foi a perda da mulher dele, Clotilde. Foi pior que 1950. Ele não tinha sentimento de culpa por 1950. O Barbosa viveu momentos de intensa felicidade nos últimos anos. Ele foi um dos melhores seres humanos que conheci na vida”, conta a cuidadora de idosos, que é casada com um vascaíno fanático que acabou sendo o elo para a aproximação inicial entre Tereza Borba e o ex-goleiro.

 Em um desses momentos de intensa felicidade, em 2000, Tereza Borba diz ter fechado seu quiosque para comemorar o aniversário de Barbosa. Um bolo do Vasco da Gama foi confeccionado, e ela afirma ter entregado ao ex-goleiro um troféu, para “meu herói de vida”. Ele disse, então, entre os amigos presentes, que se falecesse naquele dia, faleceria feliz.

 Barbosa morreria aos 79 anos uma semana depois. Ficavam para trás as injustiças do passado. E, para o futuro, belas memórias.