“O Rio virou uma marca a ser vendida”

O deputado estadual Marcelo Freixo critica a gestão atual da capital turística do Brasil

Marcelo Freixo retratado em um hotel de Madri.
Marcelo Freixo retratado em um hotel de Madri.Alvaro Garcia

Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro, pertence ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), um partido pequeno. Mas se fez grande: nos últimos anos, se converteu em uma voz forte da oposição e congregou uma legião de cariocas que apoiam ao seu projeto político. Há dois anos, ficou em segundo lugar nas eleições para prefeito do Rio, e está confiante para as próximas: “Em 2012 já sentíamos que tinha alguma coisa diferente acontecendo na juventude, que estava vinculada com a nossa campanha. E Um ano depois aquilo explode, com um milhão de pessoas nas ruas do Rio. A campanha de 2016 pode ser o momento em que a gente consolide uma mudança mais concreta na sociedade”.

Durante o seu primeiro mandato legislativo, Freixo presidiu a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das milícias, que levou vários dos seus líderes à prisão, inclusive deputados e vereadores vinculados a esses grupos. Em 2010, essa história foi contada no filme de maior bilheteria do Brasil, Tropa de Elite 2, cujo personagem Diogo Fraga foi inspirado em Freixo. O certo é que essa CPI foi um divisor de águas na opinião pública em relação às milícias, que até então eram defendidas por vários governantes pela suposta manutenção da ordem que promoviam nas favelas e subúrbios da cidade. “A milícia é uma máfia. São grupos formados por agentes da segurança pública que têm o domínio armado e econômico de vários territórios do Rio: controlam o transporte alternativo, a distribuição de gás e de TV a cabo nessas comunidades. O lucro de uma das milícias que investigamos chegava a seis milhões de reais por mês. Isso compra muita gente”, afirma Freixo.

Mais informações

Nesta entrevista, o deputado fala sobre as contradições do Rio – uma “cidade-negócio” –, o gasto público com a Copa do Mundo, as dificuldades de desmilitarizar a polícia e as falhas na concepção das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP).

Pergunta. O que faz com que cada vez mais brasileiros levantem a bandeira contra a realização da Copa no Brasil?

Resposta. Essa vai ser a Copa mais cara da historia. E com uma serie de violações: mais de 250 mil brasileiros tiveram sua casa removida para a construção de estádios e vias. Apenas 0,4% dos brasileiros vão assistir aos jogos. O clima da copa não existe no país, por todos esses escândalos com dinheiro público e a violência policial. 80% das escolas públicas brasileiras não tem quadra poliesportiva. Isso mostra bem o quanto a Copa e as Olimpíadas não trouxeram uma mudança na vida das pessoas. Desde o inicio foi uma Copa pensada para dar lucro para os sócios do governo e da FIFA. A população enxergou isso, mesmo com toda a sua paixão por futebol. Então aquela Copa ufanista, de “somos todos brasileiros acima de tudo”, isso não vai mais acontecer. Vai ter Copa, mas essa vai ser a Copa do protesto.

P. Você acha que o fato de que o Brasil esteja no centro das atenções impulsiona os protestos e greves?

R. O Rio, mais do que o Brasil, virou um modelo de um projeto de cidade-negócio. A cidade virou uma marca a ser vendida, e a vida urbana passou a ser uma mercadoria. Todo o transporte público do Estado está na mão das empreiteiras: o metro pertence à OAS, o trem pertence à Odebrecht, as barcas Rio-Niterói pertencem à CCR. O centro do Rio está sendo privatizado, um terreno enorme foi entregue a um consorcio por conta Porto Maravilha (projeto de revitalização da zona portuária). As construtoras passaram a ter a gestão da cidade, e a política pública passou a ser pensada através da lógica privada. O Rio se transformou em um laboratório desse modelo de cidade, e ganhou um calendário que nenhuma cidade do mundo tem: visita do Papa, encontro da juventude católica, Copa do mundo, Copa das confederações, Olimpíadas. Passou a ser uma das cidades mais caras do mundo, que vive para produzir lucro em vez do bem estar dos seus moradores. Mas a cidade-negócio é também a cidade da resistência, das lutas contra esse modelo de cidade.

P. O custo de vida no Rio aumentou muito nos últimos anos, mas ainda existem graves problemas de mobilidade urbana, e a população continua sem ter acesso a serviços básicos. Como se explica essa contradição?

R. A mobilidade urbana é caótica, os sistemas de saúde e educação estão entre os piores do Brasil. No planejamento original da Copa, a previsão de investimento da mobilidade urbana do Rio era de 11 bilhões de reais em 2007. Hoje se gastaram sete bilhões, com os preços aumentando. Abandonaram 21 projetos de mobilidade urbana dos 53 previstos. Já a construção de estádios, que era pra ter sido feita com capital privado, 97% foi feita com capital público, e a previsão de gastar 1,1 bilhões virou 8,7 bilhões de reais.

P. É provável que durante a Copa haja protestos y greves em setores-chave, como o dos policiais e dos motoristas de ônibus?

R. A gente acabou de ter uma greve da Polícia Civil do Rio de Janeiro, e eles foram atendidos rapidamente pelo governo. A Polícia Militar é difícil entrar em greve, porque ela é oriunda da ditadura militar, tem um código hierárquico muito forte. Mas nos vamos ter muito protesto em relação à Copa, porque a Copa interessa quase que exclusivamente à FIFA e aos seus sócios no Brasil. E eu acho que os movimentos no Rio este ano vão ser impulsionados pelas greves dos trabalhadores, mais do que pelo movimento espontâneo da juventude pela internet. Temos uma polícia muito violenta e houve uma radicalização nos movimentos, então é difícil imaginar qual vai ser o tamanho desses conflitos. Mas que vai ter protesto vai, e que a polícia vai agir com grande repressão vai, de isso eu não tenho a menor duvida.

P. Num artigo para o Huffington Post, você diz que cinco anos depois da primeira UPP, não houve avanço na relação do Estado com as comunidades. As falhas desse projeto são estruturais, ou a ideia é válida e foi mal desenvolvida?

R. A redução de homicídios e de tiroteios foi importante. O policiamento comunitário, a ideia da polícia estar presente em vez de entrar, fazer a guerra e sair, tem uma natureza válida. Qualquer sociedade precisa de polícia; mas nenhuma sociedade precisa só de polícia. Por isso o número de conflitos nessas áreas é muito grande. O Rio precisa de um projeto de cidade pras favelas. A polícia tem que servir àqueles moradores, em vez de controlá-los, e o Governo tem que oferecer-lhes serviços que garantam os seus direitos.

P. Na época da implantação das UPPs, o governo defendia que o projeto não tinha sido pensado para os megaeventos, mas sim para os cidadãos. Você concorda?

R. Se você olhar o mapa das UPPs, claramente é um projeto de cidade, de cidade-commodity: 100% das favelas da Zona Sul, assim como o entorno do Maracanã, têm UPP. A Providência, na zona portuária, tem UPP. A Cidade de Deus, a única da região de Jacarepaguá que não estava dominada por milícia quando se decidiu, tem UPP. Porque esses lugares são escolhidos? Porque neles há negócios que interessam a esse projeto de cidade. Por outro lado, não há UPP em áreas de milícia – a única é a do Batam, pra ter um efeito simbólico porque ali os jornalistas do jornal O Dia foram torturados. Todas as outras estão em áreas de narcotráfico. A UPP não é um instrumento pra enfrentar milícia, a milícia continua crescendo. O governo finge que já fez tudo que tinha que fazer com a milícia porque prendeu os seus líderes, mas não é suficiente.

P. O que falta para avançar na desmilitarização da polícia?

R. A polícia no Brasil é herança de 21 anos de ditadura militar. Ainda temos uma concepção de polícia que é um braço do exército, para perseguir e eliminar o inimigo. A natureza e a formação da polícia tem que mudar na constituição. Não podemos continuar com uma polícia na que se entra soldado e nunca se tornará oficial. A polícia tem que ter ciclo completo e formação única. Esse modelo de polícia só existe no Brasil. E isso vale pra Polícia Civil, Militar, Federal, Bombeiros... Por que os bombeiros têm porte de arma no Brasil? Isso não acontece em nenhum lugar da Europa.

P. Mas desmilitarizar seria suficiente? A cultura da guerrilha está arraigada na sociedade brasileira. O caso dos justiceiros, por exemplo, é um bom exemplo da cultura do “bandido bom é bandido morto”. Isso é mais difícil de mudar, não?

R. A sociedade brasileira ainda confunde justiça com vingança, tem os seus laços escravocratas, e suspeita mais dos negros, pobres e que vivem na favela. Essa é uma luta pedagógica que se tem que fazer no dia a dia, mudando a polícia, tomando as decisões da lei e, ao mesmo tempo, trabalhando com uma educação de segurança pública diferente. O debate da desmilitarização cresceu muito nos últimos anos. Há dez anos, não conseguíamos reunir mais de 30 pessoas pra falar sobre isso. Quando as manifestações acontecem é muito interessante, porque na verdade se passou a descobrir a polícia que a gente sempre teve. A polícia não passou a ser violenta nas manifestações, ela sempre foi violenta e despreparada. Só que a sua violência era canalizada para um lado que ninguém queria enxergar, que é a favela, que é o pobre. Então de alguma maneira essas manifestações também serviram pra que o tema da polícia pudesse ser um tema maior, um tema de todos.