O transplante de células fetais alivia os sintomas motores do Parkinson

Cinco dos 25 pacientes do estudo faleceram, mas nenhum da doença neurodegenerativa

Cérebro de uma pessoa com Parkinson.
Cérebro de uma pessoa com Parkinson.

O transplante de células fetais no cérebro de pessoas com Parkinson conseguiu melhorar os sintomas motores (tremores, rigidez) de 25 voluntários, segundo os primeiros dados de uma pesquisa coordenada por Ole Isacson, do hospital McLean (centro associado a Harvard), publicados na revista Cell Reports.

“Os transplantes reverteram a disfunção motora do Parkinson e os pacientes chegaram a um ponto em que não precisavam mais de medicação contra a doença”, afirmou Isacson por e-mail ao EL PAÍS.

O estudo começou há 14 anos e 25 voluntários já participaram. Em todos eles, os resultados relativos aos sintomas são similares, conforme indicam os autores do trabalho. Mas —e esse é o motivo para a publicação dos resultados agora— os investigadores conseguiram observar os cérebros de cinco desses voluntários que faleceram, e descobriram que as células transplantadas continuavam em perfeito estado. Isso pressupõe que não tenham sido afetadas pelo processo neurodegenerativo do cérebro dos doentes. Nenhuma morte ocorreu em consequência do Parkinson. “Observamos as células e pareceram muito saudáveis”, disse o pesquisador.

“Estudamos o cérebro após a morte em profundidade e com muitos detalhes. Mas, além disso, também acompanhamos a recuperação da funcionalidade dos demais pacientes, que estão vivos, e temos provas positivas, com imagens de PET [tomografia por emissão de pósitrons] de que os transplantes estão funcionando”, explica Isacson.

A chave do estudo é que foram utilizadas células dopaminérgicas obtidas de fetos. Ou seja, elas suprem a função de liberar a dopamina (um neurotransmissor) que se deteriora nos neurônios dos doentes por motivos ainda desconhecidos. Mais detalhadamente, observou-se também que não há deterioração das mitocôndrias, os orgânulos celulares cuja função é atuar como centrais energéticas das células, o que se viu em outros estudos em que pessoas com Parkinson foram afetadas.

O estudo reabre a possibilidade de tratamentos biológicos para essa doença, a segunda entre as que mais afetam o cérebro, depois do Alzheimer. As células transplantadas substituem outros tratamentos, como os implantes ou a medicação que fornece dopamina (a famosa levodopa).

Além disso, Isacson acredita que o trabalho, que começou muito antes do auge das células-tronco, reabre as possibilidades de aplicar esse material biológico à doença. Já houve alguns estudos, mas os primeiros resultados foram desanimadores, pois os pacientes desenvolveram tumores. O pesquisador acredita que a técnica utilizada, com microinjeções das células fetais em vez de implantes maiores, pode ser o motivo dos bons resultados de sua pesquisa.

Miquel Vila, chefe da área de Doenças Neurológicas do Instituto de Pesquisa de Vall d’Hebrón (Espanha) e membro do Centro de Pesquisa Biomédica da Rede de Doenças Neurodegenerativas (Ciberned) avalia sobretudo dois aspectos do trabalho. “Em estudos anteriores, tínhamos visto que as células implantadas eram contagiadas pelo Parkinson. Isso ocorria porque, em seu interior, reproduziam-se os acúmulos de uma proteína característica, as alfa-sinucleínas, que formam os corpos de Lewy. Pelo que dizem os autores, isso não aconteceu neste caso”.

Isso é importante porque —seja pelo motivo que for— evitou-se um dos inconvenientes desse tipo de transplante: depois da parte complicada do processo, com o tempo eles perdiam o efeito. “Tratava-se de um processo similar que pode ser comparado ao dos príons das vacas loucas, no qual uma proteína contagia as células sadias”, explica o cientista.

Além disso, em ensaios prévios, esse tipo de terapia demonstrava outro problema: assim como acontece com a levodopa, o medicamento mais comum para o tratamento do Parkinson, havia um efeito colateral secundário, como se fosse um rebote, e os pacientes tinham rigidez e demonstravam movimentos descontrolados (chamados de discinesias). “No caso da medicação, isso é resolvido regulando-se a dose, mas com as células não é possível fazer isso”, diz vila. Parece que agora o processo foi diferente, acrescenta o cientista.

O médico também destaca outro aspecto a ser considerado: “No Parkinson, outras vias neuronais não dopaminérgicas também são afetadas e causam alterações importantes não motoras nos pacientes (depressão, demência, transtornos do sono), mas não podem ser tratadas assim.

Mesmo com cautela, Vila se mostra otimista: “Esses dois aspectos dão um novo impulso às terapias biológicas”, conclui o pesquisador.

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