Berlusconi desafia os magistrados em seu regresso à cena política

O ex primeiro-ministro está proibido de criticar os juízes depois de sua condenação

Berlusconi, na última quinta-feira.
Berlusconi, na última quinta-feira.GABRIEL BOUYS (AFP)

Silvio Berlusconi iniciou nesta quinta-feira a campanha eleitoral de seu partido, o Forza Italia (FI), às eleições europeias com um ataque frontal à justiça italiana, um clássico de seu repertório. Tudo bem, se não fosse fato de o Tribunal de Vigilância Penitenciária ter lhe proibido expressamente na terça-feira passada, de atacar os juízes, quando concedeu descontar sua condenação por fraude fiscal cuidando de idosos invés de uma detenção domiciliar. “Fui atingido por uma injustiça enorme”, queixou-se o político e magnata, “por uma sentença monstruosa que me acusou de ter cometido um crime de fraude fiscal, a mim, que sou provavelmente o primeiro contribuinte italiano nos últimos 20 anos, mas tenho absoluta confiança que o Tribunal Europeu de Direitos Humanos anulará completamente a sentença”.

Berlusconi é consciente de que sua única possibilidade de encurtar distâncias com o Partido Democrático (PD) do primeiro-ministro, Matteo Renzi, e até com o Movimento 5 Estrellas (M5S) do cômico Beppe Grillo —que já avançou nas pesquisas pelo viés populista— passa pelo regresso a seus velhos métodos: apresentar a si mesmo como uma vítima da magistratura e aos italianos como um prejudicado dos “governos de esquerda que sobem impostos” e de “uma Europa com tração alemã”. Daí que, durante sua primeira entrevista televisiva após 14 meses de agonia, substituindo de novo o informal jeans azul e camiseta pelo terno e gravata, ele que foi três vezes primeiro-ministro italiano regressou com a artilharia pesada. Atacou —embora sem citá-lo— Matteo Renzi pela falta de solidez nas suas propostas, questionou a legitimidade da situação política italiana —“se democracia significa governo do povo, hoje não estamos vivendo na democracia”— e anunciou novas eleições italianas, com vitória de Forza Italia incluída, para dentro de um ano ou um ano e meio.

Berlusconi quer repetir a jogada que tão lhe saiu tão bem no final de 2012, mas a situação é bem diferente. Então, sua estratégia de deixar cair o Governo técnico de Mario Monti antes do tempo, forçar umas novas eleições e surpreender seus rivais desprevenidos refletiu em ótimos resultados nas eleições de fevereiro de 2013, convertendo-o de novo em um fator chave da política italiana. Mas desde então ocorreram muitas coisas e nenhuma boa para o antigo Cavaliere. A condenação por fraude fiscal que então acabava de se confirmar em segunda instância é já definitiva. Ainda não era traído por seu seguidor, Angelino Alfano, e portanto o centro-direita italiano se agrupava em um só partido, seu partido, e não em dois, mal vistos entre si e ambos com problemas internos. O M5S de Grillo era só um rumor que surgia —e que ninguém parecia escutar— e não, como confirmam as últimas sondagens, a segunda formação política do país. E, sobretudo, Matteo Renzi continuava sendo prefeito de Florença e ainda teria que passar um ano até seu desembarco na política nacional.

Portanto, Berlusconi o jogou contra um candidato de centro-esquerda, Pier Luigi Bersani, não sobrado de carisma e ao que podia chamar “comunista” —essa obsessão berlusconiana— porque essa era sua origem. Mas agora, além da Grillo, terá que enfrentar Renzi, que não só não foi comunista, como também às vezes pareceu um aluno seu. A prova mais palpável de que —quem diria— Berlusconi tem medo de um descalabro sem precedentes é que na sexta-feira anunciou que estaria no noticiário vespertino do TG5, seu canal de televisão. Mas não foi. Na mesma hora, Renzi apresentava, em um tuíte, suas medidas “revolucionárias” para mudar a Itália e o velho e astuto político italiano preferiu não competir com o jovem primeiro-ministro pelas capas de jornais do dia seguinte.

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