Último round para o boxe do Rio Olímpico

A escola que já treinou os irmãos Falcão, atuais medalhistas de Londres, depende de um parceiro para continuar sua atividade com crianças carentes na favela do Vidigal

Dois alunos do Instituto Todos na Luta treinam em uma laje.
Dois alunos do Instituto Todos na Luta treinam em uma laje.Marcio Isensee

A primeira coisa que Felipe conta às visitas que chegam a sua casa é que começou a treinar boxe. O garoto de 11 anos enrola para não acordar cedo, ou para recolher a mesa das refeições, tem preguiça dos livros e esquece com facilidade o que aprendeu na escola. Por isso mesmo é surpreendente vê-lo três dias por semana saindo da sua casinha na favela do Vidigal às 8h da manhã. Após uma caminhada de quase 40 minutos subindo o morro, o menino chega ao centro cultural da favela, onde treina de forma precária em uma sala de apenas dois metros de comprimento. Depois, tem direito a uma aula de reforço escolar que sua família não pode pagar.

A escola de Felipe, e de outras 30 crianças, não é qualquer uma, embora os recursos sejam mínimos. O fundador Raff Giglio é um conhecido treinador de boxe que treina seus alunos na comunidade da zona sul do Rio há 20 anos. Os irmãos Falcão, que nos Jogos de Londres quebraram mais de quatro décadas de seca de medalhas olímpicas na modalidade, o chamam de “pai”. Foi Giglio quem, em 2007, quando Esquiva Falcão tinha largado os treinos, ligou para o pai dele no Espírito Santo para que o atleta fosse levado ao Rio, onde passou a sustentá-lo, e o transformou num lutador digno de competir na seleção. “O pai estava louco para que o filho saísse de casa. Era um talento desperdiçado, não fazia nada e começou a flertar com o tráfico. Fiz um depósito para pagar sua passagem para cá e assim treinamos juntos até que ele foi para São Paulo”, lembra Giglio. Outros dois moradores da favela, treinados por ele, já integram a seleção brasileira de boxe.

O Instituto Todos na Luta, que Giglio criou em 2004, tornou-se um caminho para integrar as crianças da comunidade por meio do boxe. O espaço garante uma ocupação para seus alunos, ajuda a suas famílias, além de formar futuros atletas em sua equipe de alto rendimento. “Nas favelas do Rio não há oportunidades de nada para ninguém. Há poucos trabalhos sérios que ajudem a comunidade. Assim, umas aulinhas de boxe ou assistência social já são um lucro enorme para a criança”, defende Raff. Para as mães das crianças, os treinos são uma tranquilidade. “As aulas lhe deram mais responsabilidades, não fica tanto tempo na rua, distrai a mente com coisas construtivas, pratica esporte... É muito bom para ele”, conta Dayane dos Reis, mãe de Juan, de 13 anos, que treina no Instituto há seis anos, e de Matteus, de 11, que acabou de começar.

Mas a sobrevivência do Todos na Luta depende hoje de um patrocínio.

Uma antiga oficina mecânica sem teto, cujo aluguel de 1.500 reais é pago pelo ator Malvino Salvador, também aluno de Giglio, será a futura sede do instituto. No entanto, precisa de muito mais investimentos que os 60.000 reais para a reforma, recurso este que foi levantado pelo fundo de investimento ICAP e os mutirões de pintura dos vizinhos. “Pagar o aluguel é algo que faço de coração, é muito pouco em comparação com o trabalho que desenvolvem e os resultados que dá. Acompanho o trabalho do Raff há seis anos, quando o procurei para preparar um personagem. Percebi ali o quanto é importante o projeto para as crianças da comunidade”, conta Salvador.

Raff Giglio, na sede provisional do Instituto.
Raff Giglio, na sede provisional do Instituto.marcio isesee

O Instituto da Criança, uma organização que apoia iniciativas sociais no Rio e em São Paulo, também colabora com 2.700 reais mensais para pagar dois professores e uma pedagoga, que propuseram dividir seu salário para contar com mais docentes. “Mas é necessário que a parceria cresça para manter a parte educacional do projeto”, diz Júlia Giglio, filha de Raff, que recentemente tomou as rédeas do instituto.

Criada extraoficialmente em 2004, quando a escola privada de boxe que Raff comandava faliu por conta da guerra do narcotráfico entre os líderes do Vidigal e da favela da Rocinha, a ONG teve sua época dourada em 2012, quando ainda ocupava o térreo de um prédio com vistas para o mar nos pés da favela e havia dinheiro na caixa. Os condomínios tinham cedido o espaço gratuitamente 20 anos atrás e o patrocínio da Oscar Iskin, distribuidora de material médico-hospitalar, de quase um milhão de reais, ajudou a lotar a academia de crianças –até 100 alunos participavam- com direito a bolsa mensal de 30 reais, uniforme completo, cesta básica, pedagogos, assistentes sociais e até fisioterapeutas. Nessa época Esquiva Falcão voava de Brasília, onde se encontrou com a presidenta Dilma, até o Vidigal para comemorar com seu ‘pai’ a medalha de prata conseguida nos Jogos de Londres.

No final desse ano, porém, os obstáculos se multiplicaram e o sucesso do projeto ficou por um fio. A nova administração do condomínio, em uma das comunidades onde a feroz especulação imobiliária do Rio está mais presente, conseguiu, após várias batalhas judiciais, colocar o cartaz de ‘aluga-se’ e o patrocinador acabou retirando a verba. “A partir desse momento tudo se complicou. As empresas que podiam se interessar teriam que assumir um investimento maior, uma vez que não tínhamos nada. Ficavam com receio. Agora já estamos perto de inaugurar nossa sede e espero que seja um pouco mais fácil”, diz Júlia Giglio que faz o papel de contadora e administradora da obra.

Assim começou uma procura desesperada por um novo patrocinador que ainda não chegou. “Minha filha vendeu até brigadeiros para conseguir fundos”, lembra Raff. Sem a academia, Giglio não só perdeu um terço dos seus alunos, como também ele mesmo se afastou dos treinos. “Quando a sede fechou tive medo dele abandonar. Era uma desmotivação para a criança que tinha essa escola como referência, como rotina”, lembra Dayane, mãe de Juan e Matteus.

Júlia Giglio

“Após as dificuldades acabei assumindo muitas tarefas das que não consigo dar conta. Me ocupo desde a formalização das matrículas até a mediação nos conflitos das crianças”, lamenta Júlia. “Estamos tentando nos adequar à lei de incentivo fiscal para empresas que nos patrocinem. Se conseguir a aprovação você ganha um certificado, mas hoje o Estado só está aprovando projetos que já tenham um patrocinador”, reclama.

Para Júlia, “há um descaso generalizado.” “O investimento das instituições está na ponta. A gente tem atletas que estão na seleção brasileira que ganharam os Jogos Sulamericanos e que agora recebem bolsa federal. O investimento tem que estar na base. Aqui tem muitos meninos com potencial para o boxe e outro esportes...mas precisam de uma estrutura”, disse Júlia.

Raff, visivelmente abalado durante este último ano, afirma que ressuscitar o projeto é também uma questão de “honra”. “Eu quero voltar para mostrar que é possível. Eu não quero que todo esse dinheiro que o patrocinador colocou –Oskar Iskin- seja em vão”.

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