O contra-ataque do tráfico obriga o Exército a voltar às favelas do Rio

Depois de uma onda de violência dos traficantes, a presidenta Dilma envia militares para reforçar o processo de pacificação na capital carioca

Operação policial na zona oeste do Rio no dia 13 de março.
Operação policial na zona oeste do Rio no dia 13 de março.A. Lacerda/EFE

O Rio de Janeiro se prepara para reviver nos próximos dias cenas que pareciam ter ficado ancoradas no passado. Diante da escalada de tensão pela onda de ataques orquestrados pelo narcotráfico cariocas às Unidades de Policía Pacificadora (UPP) em várias favelas da cidade, a apenas três meses do início da Copa do Mundo a presidenta Dilma Rousseff autorizou o envio do Exército à capital mais turística do Brasil. A missão é reforçar as operações de reocupação de favelas que se presumiam pacificadas. À vista das inumeráveis e virulentas investidas de células do narcotráfico que permaneceram em letargia durante os últimos anos, e diante da sensação generalizada de que a segurança pública e o processo pacificador no Rio estão em xeque, o Governador Sergio Cabral admitiu pela primeira vez que precisa da ajuda do Exército para que a situação não se degenere ainda mais.

Segundo especialistas em segurança, o processo pacificador avançou muito rápido, sem consolidar os territórios ocupados e deixando áreas de alto risco em mãos de jovens agentes sem experiência. A consequência, segundo os mesmos analistas, é que as facções do narco se reorganizaram e decidiram voltar ao ataque em um momento crucial para o Brasil.

Durante a madrugada da sexta-feira, três policiais militares ficaram feridos em tiroteios com narcotraficantes na favela de Manguinhos e no Complexo do Alemão, ambos na zona Norte da cidade. Dois veículos e cinco bases da Polícia também foram incendiadas por elementos unidos ao Comando Vermelho (CV), a principal facção criminosa carioca na ativa, junto aos denominados Amigos Dos Amigos (ADA). Segundo informações da inteligência da polícia, os ataques foram ordenados desde o interior de vários presídios federais e levados à prática por líderes do segundo escalão que estão em liberdade. Segundo o Governo do Rio de Janeiro, trata-se de uma nova tentativa do narco local de amedrontar e desmoralizar a tropa pacificadora, que já sofre a rejeição frontal da população local de algumas favelas.

Depois de uma reunião de emergência em Brasília com a presidenta brasileira durante mais de duas horas, Cabral não quis explicar em que consistirá a resposta à onda de ataques lançada pelo narcotráfico nas últimas semanas, que já vitimou onze agentes desde 2012. A julgar pela contundente bênção de Rousseff ao envio de tropas e a participação do chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, o General José Carlos de Nardi, no desenho da estratégia a seguir, parece seguro que o Rio reviverá nos próximos dias as operações militares de toques cinematográficos, com destacamentos de fuzileiros navais penetrando nas favelas do Complexo do Alemão (uma das áreas mais críticas que, previsivelmente, serão reocupadas) para dar obertura às operações do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE), Batalhão de Choque e diversas unidades das Polícias Civil, Militar e Federal. A ideia, segundo confirmam fontes da Secretaria de Segurança Pública do Rio, é lançar uma grande contraofensiva que neutralize por completo qualquer tentativa das facções narco de voltar às velhas práticas, ao menos no curto e médio prazo. A sempre controvertida decisão de mandar o Exército às favelas também responde claramente a uma mensagem de confiança e tranquilidade que o Governo do Brasil pretende lançar ao resto do planeta e a sua própria população diante da iminente chegada da Copa do Mundo.

Não obstante, o ministro de Justiça, José Eduardo Cardozo, negou qualquer conexão das operações em curso com o Mundial. “Já temos um excelente plano para fazer frente a determinadas situações durante a Copa do Mundo e nos sentimos muito seguros. Teremos uma excelente Copa com excelentes níveis de segurança”, declarou.

Segundo o sociólogo especialista em violência policial Ignacio Cano, “a decisão de mandar o Exército é um sinal claro de retrocesso. Com ela se está reconhecendo que estamos em uma situação de emergência e descontrole, e que é necessária uma resposta imediata. Esta medida não vai mudar nada, já que é de caráter de curto prazo e está motivada pela chegada da Copa. Não resta dúvidas de que a política de pacificação está em crise e perdeu parte de sua legitimidade”.

O Complexo do Alemão já viveu uma espetacular ocupação militar em novembro de 2010, protagonizada por 11.000 efetivos, entre eles fuzileiros navais, comandos de operações especiais, tanques e carros blindados. As imagens deram a volta ao mundo, pois chama a atenção o fato de o  Brasil nunca adotar intervenções militares no âmbito internacional e agora começam a se tornar familiares em algumas favelas de Rio.

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