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O principal porto do Pacífico colombiano, sitiado pela violência

A cidade de Buenaventura é vítima da disputa entre dois grupos criminosos, denuncia a organização Human Rights Watch, que também fala que a população está desprotegida

O diretor da Human Rights Watch para as Américas, José Miguel Vivanco.
O diretor da Human Rights Watch para as Américas, José Miguel Vivanco. EFE

É paradoxal que Buenaventura, o porto por onde se movimenta mais da metade do comércio exterior da Colômbia, seja também o município com mais deslocados do país devido aos sangrentos confrontos entre dois grupos criminosos que têm aterrorizado a população. A denúncia foi feita pela Human Rights Watch (HRW), que na quinta-feira apresentou em Bogotá um relatório no qual aborda a onda de violência vivida na região, após entrevistar mais de 70 pessoas.

Essa cidade portuária do Pacífico colombiano e na qual vivem mais de 370.000 pessoas, em sua maioria afrodescendentes, historicamente tem sido alvo de grupos armados, sejam guerrilhas, paramilitares, e nos últimos anos, seus herdeiros, neste caso as organizações conhecidas como Los Urabeños (os urabenhos, ou os originários da região de Urabá, em português) e La Empresa (a empresa), instaladas nos bairros da cidade, onde disputam o tráfico de drogas e o controle do microtráfico cometendo todo tipo de abusos, chegando ao ponto da aberração.

Segundo a HRW, essas organizações criminosas mantêm casas onde esquartejam suas vítimas, algumas vezes ainda vivas. “Por mais que gritos sejam ouvidos, o temor não deixa a gente sair (de casa). A gente se dá conta e sabe onde há essas casas, mas não se mete porque é um temor total”, diz um morador de Buenaventura citado pela ONG. Esses grupos criminosos também recrutam menores de idade, praticam extorsão contra comerciantes e até restringem a livre circulação de seus habitantes, impondo as chamadas fronteiras invisíveis.

“A situação em Buenaventura é uma das mais alarmantes que observamos em muitos anos de trabalho na Colômbia e na região”, assinalou José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da HRW, em um comunicado. “Apenas caminhar por uma rua errada pode fazer com que alguém seja sequestrado e esquartejado; portanto, não deveria nos surpreender que os moradores fujam aos milhares."

A existência dessas casas tem ocupado as manchetes da imprensa colombiana nas últimas semanas. Essas residências de madeira estariam localizadas nos bairros mais pobres, perto da praia. Foram encontradas, inclusive, partes de corpos desmembrados na orla do mar. A Promotoria investiga o que pode ter acontecido em duas dessas casas onde foram achados rastros de sangue no início de março.

O medo fez com que em 2013 mais de 13.000 pessoas abandonassem Buenaventura, assinala a HRW, que acrescenta que, segundo as autoridades judiciais, em mais de 150 casos nos quais foram denunciados desaparecimentos entre 2010 e 2013, o motivo foi sequestro. E que, apesar de haver algumas prisões, a impunidade está na ordem do dia.

“A Promotoria deu início a mais de 2.000 investigações de casos de desaparecimento e deslocamento forçado perpetrados em Buenaventura por diversos grupos nas duas últimas décadas, mas nenhuma teve como resultado uma condenação”, diz a HRW. A taxa de homicídios também é alarmante. No passado, Buenaventura tinha taxas muito altas e as vinha reduzindo, mas estas voltaram a subir 50% em 2013, passando de 32,4 para 48,6 homicídios para cada cem mil habitantes, segundo a Fundação Ideias para a Paz.

Soma-se a isso o fato de que reina a “lei do silêncio” imposta pelas organizações Los Urabeños e La Empresa, com o que os números de crimes poderia ainda ser muito maior. “Há uma sensação de impotência enorme entre os moradores de Buenaventura, que por um longo tempo têm estado totalmente desprotegidos”, assinalou Vivanco.

Esses fatos provocaram a reação do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que anunciou o reforço das forças da ordem, que até o final de 2013 somavam 900 policiais e 500 membros da Armada. Os primeiros ganharam mais 650 oficiais.

No entanto, a HRW reuniu depoimentos de habitantes que asseguram que a presença de policiais é pouco sentida nos bairros e que alguns os viram se reunindo com integrantes dos grupos criminosos. Outros afirmam que parte de seu temor na hora de fazer uma denúncia se deve à desconfiança nas autoridades e ao medo de que estas vão facilitar essa informação aos delinquentes.

Para a ONG, o Estado colombiano “não dá segurança a comunidades de Buenaventura onde prevalecem ameaças de violência, assassinatos, desaparecimentos e deslocamentos”. Por isso recomenda que a polícia tenha uma presença ininterrupta nos bairros, e que também designe uma comissão independente para avaliar os desaparecimentos e se trace um plano para sancionar os responsáveis, entre outras iniciativas. Buenaventura também está pendente de ter um abrigo onde os deslocados possam se refugiar.