Putin diz a Obama que a vontade da população da Crimeia será respeitada

Líder russo também conversa com Merkel sobre possível envio de missão para evitar descontroles na região

Multidão comemora com bandeiras russas em Simferopol. / Vadim Ghirda (AP)
Multidão comemora com bandeiras russas em Simferopol. / Vadim Ghirda (AP)

"A Crimeia volta pra casa", assim os habitantes dessa península e os russos interpretam os resultados do referendo ocorrido no domingo. E poucas dúvidas ficam de que Moscou receberá a Crimeia de braços abertos. O presidente Vladímir Putin disse claramente na conversa telefônica que teve com seu colega norte-americano Barack Obama, na noite do domingo, depois que a consulta popular já havia finalizado: O referendo foi legítimo e a Rússia respeitará a vontade da população da Crimeia. Enquanto isso, um alto cargo do Parlamento assegurou que não vão atrasar a aceitação da península como nova república da Federação Russa. Nessa segunda-feira, o Parlamento da Crimeia aprovou uma resolução em que se declara independente da Ucrânia e pediu oficialmente o anexo da península à Rússia depois do "sim" no referendo de domingo. O Parlamento da Crimeia anunciou além disso que as unidades militares ucranianas serão dissolvidas e que adotam oficialmente o rublo russo como moeda. A grivna ucraniana será aceita até 2016.

Serguéi Nevérov, vice-presidente da Câmara dos Deputados e secretário geral do partido governamental Rússia Unida, assegurou nesta segunda-feira que a Duma Estatal (Parlamento) aprovará rapidamente as resoluções e leis necessárias para que a Crimeia possa ser aceita como membro da Federação Russa. Espera-se para a tarde desta segunda-feira a chegada de uma delegação da Assembleia da Crimeia, que trará a Moscou o pedido oficial da península para se converter na vigésima segunda república da Rússia. O presidente do Parlamento, Serguéi Naryshkin, informou, por sua vez, que Putin fará uma aparição pública na terça-feira às três da tarde (horário local) para explicar a sua posição diante do pedido da Crimeia se reunificar com a Rússia.

Além disso, Putin teve neste domingo uma conversa com a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente do Cazaquistão, Nursultán Nazarbáyev, a quem expressava as mesmas ideias. O líder russo transmitiu também a Obama a sua preocupação pela "incapacidade e a falta de vontade" das autoridades de Kiev de frear os "grupos ultranacionalistas que desestabilizam a situação e aterrorizam a população" de língua russa do país vizinho.

Neste contexto, ambos os líderes discutiram a possibilidade de enviar uma missão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) à Ucrânia para evitar que a situação se transborde, missão que, na opinião de Putin, deveria contar com a presença de todas as regiões do país vizinho. O que preocupa Putin, na realidade, é a situação nas províncias do leste e sudeste da Ucrânia, com uma grande população que fala russo, e onde, em algumas situações, já houve confrontos entre os pró-russos e os que apoiam o novo governo kievita, que Moscou não reconhece e considera ilegítimo.

Obama advertiu a Putin que não reconhecerá os resultados do referendo da Crimeia e os russos estão conscientes de que o Ocidente vai impor sanções. Mas estão dispostos a pagar o preço que for necessário em troca de recuperar a Crimeia, península que tem uma vital importância estratégica para Moscou, já que ali se encontra a principal base de sua Frota do mar Negro. E embora o Ocidente pressione para que o Kremlin dê um passo para trás, Putin dificilmente o fará, primeiro porque os russos não o entenderiam —sua popularidade bateu o recorde de seu segundo mandato: mais de 71% de apoio— e porque, como explicaram os cientistas políticos, tanto o presidente como a maioria da população consideram que a reunificação com a Crimeia é o reparo de uma "injustiça histórica".

Enquanto isso na Crimeia, o presidente do Parlamento Vladímir Konstantínov indicou que as unidades militares ucranianas no território da Crimeia serão dissolvidas, mas os militares poderão continuar vivendo na península se assim o desejarem. "Tudo o que se encontra aqui, no território, será nacionalizado. As unidades militares serão dissolvidas, e os que quiserem podem ficar e viver aqui, por favor", afirmou Konstantinov, que ainda disse que "será um processo de reorganização normal".

Também deu as boas-vindas àqueles militares que quiserem jurar lealdade à nova formação autoproclamada. Assinalou que os militares ucranianos que queiram ficar na península "terão a oportunidade de se encontrar em um Exército normal, obter um bom salário, digno e servir a nossa Pátria".

Proposta russa

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia divulgou nesta segunda-feira uma declaração propondo criar um "grupo de apoio" para a Ucrânia, integrado por países que sejam bem vistos "por todas as forças políticas" do país. Trata-se, na realidade, de uma contraproposta à de criar um grupo de contato que os países ocidentais propuseram, mas que, segundo o Kremlin, consideram que "essa estrutura deve facilitar o diálogo entre Moscou e Kiev" em circunstâncias que a Rússia considera que "a atual situação" não foi criada por ela, mas que "é o resultado de uma profunda crise do Estado ucraniano, que conduziu à polarização da sociedade e ao brusco aumento do antagonismo entre diversas partes do país". Naturalmente, refere-se ao leste da Ucrânia, onde há uma grande população que fala a língua russa, e o oeste.

Segundo o citado documento, o grupo deverá ser guiado pelos princípios de "respeito aos interesses do povo multiétnico da Ucrânia", "o apoio às aspirações de todos os ucranianos e regiões do país de viver em paz de acordo com suas tradições e de utilizar livremente sua língua materna", de não permitir "o resurgimento da ideologia neonazista" (Moscou considera que vários grupos influentes próximos ao atual poder em Kiev são neonazistas) e "o reconhecimento da grande importância da paz civil e a harmonia na Ucrânia" para impulsionar as "relações construtivas na região euroatlântica baseadas na igualdade de direitos e no respeito dos interesses de todos os Estados" de zona.

No entanto, pode se prognosticar sem medo de errar que a iniciativa russa não encontrará apoio no Ocidente e será recusada categoricamente por Kiev. O problema é que para conseguir os fins anteriormente detalhados, Moscou propõe "cumprir imediatamente os compromissos" do acordo firmado no dia 21 de fevereiro, que o então presidente Víctor Yanukóvich assinou com a oposição. A Rússia cita particularmente o compromisso de confiscar as armas, desalojar os edifícios tomados ilegalmente, pesquisar objetivamente a violência desatada entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014.

Como segundo ponto, Moscú propõe convocar uma assembleia constitucional na qual todas as províncias ucranianas tenham igual número de representantes para redigir uma "nova Constituição federativa". Mas as atuais autoridades de Kiev nunca negaram que estão categoricamente na contramão de que seu país se converta em uma federação.

Para a Rússia, na nova lei fundamental deve ser estabelecido, entre outras coisas, o direito das regiões a eleger seus poderes executivos (hoje os governadores são nomeados diretamente por Kiev) e legislativo; o russo deve ser idioma cooficial junto do ucranio. Além disso, deve ser reconhecido o direito da Crimeia decidir seu destino de acordo com os resultados do referendo do domingo.