Uma vizinha de Pistorius relata “gritos terríveis” de sua noiva “pedindo ajuda”

Começa o julgamento por assassinato contra o ex-corredor, que pode enfrentar pegar a prisão perpétua Uma vizinha relata os "gritos terríveis" da vítima que "pedia ajuda" A testemunha sublinha que teve uma pausa entre o primeiro disparo e os outros três que foram feitos em seguida

Oscar Pistorius sentado no banco dos réus minutos antes do começo do seu julgamento na Pretória.
Oscar Pistorius sentado no banco dos réus minutos antes do começo do seu julgamento na Pretória.THEMBA HADEBE (AP)

A vizinha de Oscar Pistorius afirmou no primeiro dia do julgamento da morte da modelo Reeva Steenkamp que foi acordada por “gritos de mulher” que “gelaram o seu coração”. Esta é a primeira de uma centena de testemunhas previstas para depor durante as três semanas do julgamento. Ela respondeu às perguntas do promotor do caso e ainda foi submetida a um duro interrogatório por parte do advogado defensor do ex-atleta paraolímpico sul-africano.

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“Só se grita desta maneira quando sua vida corre perigo”, disse a vizinha ao advogado, que tentou durante uma hora provar que a mulher não podia distinguir a uma distância de 177 metros se a voz que ouvia era de um homem ou uma de mulher, e disse ainda que Pistorius “ansioso” poderia inclusive soar como uma “voz feminina”. A mulher repetiu que estava “100% segura” de que ouviu “vozes de duas pessoas diferentes”, uma delas de mulher e outra de homem.

Embora o interrogatório do advogado, Barry Roux, tenha tentado por todos os meios desacreditar a exatidão da testemunha, ela se defendeu em todo o tempo, dizendo que só ela podia explicar o que ouviu naquele dia e que não estava ali para avaliar se podia ser possível ou não escutar os disparos e os gritos de socorro de uma mulher. “Eu não vim para julgá-lo [Pistorius], ele virá aqui para se explicar”, disse a mulher com muita segurança.

Neste sentido, ela também foi muito clara em sua convicção de que foi acordada às três da madrugada por quatro disparos, não por golpes de um bastão de críquete, com o qual Pistorius teria supostamente rompido a porta da pia em que Steenkamp estava ferida de morte. Para a defesa, a distância entre seu apartamento e o do atleta paraolímpico é muito grande para existir tanta precisão. No entanto, a testemunha não recuou e disse que “na África do Sul todo mundo sabe como soa um tiro”, por causa das altas taxas do uso de armas e de roubos violentos. A mulher reiterou que achou que algum ladrão estivesse atacando seus vizinhos e que só foi na manhã seguinte que soube que Pistorius estava acusada sendo acusado de assassinato premeditado da sua noiva. O advogado de defesa ainda questionou como ela como se deitou após ter ouvido “gritos dramáticos” e disparos.

“Inocente, meritíssima.”

Oscar Pistorius disse para a juíza que se declarava inocente das três acusações a que responde: o assassinato premeditado de sua noiva, Reeva Steenkamp, e duas infrações menores em que disparou sua arma em locais públicos sem causar feridos. O julgamento do ano ou do século na África do Sul começou no Tribunal Superior da província de Gauteng, na Pretória, com a expectativa máxima e uma sala de audiência cheia com uma centena de jornalistas de todo o mundo.

A mulher explicou que acordou às três da madrugada com os “gritos terríveis de uma mulher que pedia ajuda”, bem como os de um homem e que, posteriormente, ouviu um disparo, seguido depois de uma pequena pausa por outros três. “Meu marido e eu achamos que os vizinhos estavam sendo atacados e eu disse para ele que esperava que essa mulher não tivesse sido testemunha do assassinato de seu marido”, explicou a testemunha.

“Foi muito traumático escutar esses gritos que gelam o sangue. Isso te deixa frio ao ouvir o medo”, afirmou com a voz emocionada na sala, completando que pensou havia “ocorrido um roubo” mas que só foi no dia seguinte que se inteirou com um telefonema de seu marido do que tinha ocorrido. A mulher estranhou por que não relacionou esses gritos com uma discussão, mas com um ladrão. "Teve uma pausa mais longa entre o primeiro disparo e o segundo, do que entre o segundo, o terceiro e o quarto", disse a vizinha, segundo France Presse. Ao todo, quatro disparos foram efetuados por Pistorius contra sua mulher com a porta do banheiro onde ela estava fechada.

Em princípio, a vizinha e seu marido, que também deve se pronunciar no julgamento, não foram à polícia explicar o acontecido por que não entenderam que sua versão era relevante. Mas, quando souberam do pedido de fiança de Pistorius, em fevereiro de 2013, baseado em depoimentos de vizinhos residentes a 600 metros, decidiram colaborar, já que a casa deles é mais próxima ao local dos fatos.

Pistorius chegou esta manhã ao tribunal acompanhado por seu tio Arnold 30 minutos antes da hora fixada para o início do julgamento e se sentou em um banco em solitário, entre sua equipe de advogados e sua família. Seguido por uma nuvem de fotógrafos, o esportista entrou na sala em que era esperado por seus irmãos e June, a mãe de Reeva, com a qual não manteve nenhum contato visual, apesar de ela estar sentada na fila detrás. Os parentes de Pistorius também não cumprimentaram a mulher, vestida de negro, que pela primeira vez reencontrou o homem que acabou com a vida da sua filha para “olhá-lo nos olhos e mostrar o que ele fez contra Reeva”.

Em sua intervenção inicial, um dos advogados defensores se limitou a ler parte da declaração que o próprio Pistorius fez para solicitar sua fiança. Segundo esta versão, o esportista acordou na madrugada do dia 14 de fevereiro de 2013 ao ouvir um ruído do interior do lavabo. Foi então que, sem ligar as luzes, se levantou da cama onde estava dormindo com Steenkamp, apanhou sua arma e ao ver uma janela aberta pensou que um ladrão tinha entrado. Com o medo de que o intruso o atacasse empunhou a pistola com as duas mãos e disparou quatro tiros com a porta fechada. Quando voltou ao dormitório, se deu conta de que sua noiva não estava deitada.

Previamente, o promotor Gerrie Nel sustentou durante uma longa exposição de seus cargos que a versão de Pistorius "não é crível e deve ser refutada". A versão da Promotoria sustenta que o atleta disparou a sabendo que a garota tinha se escondido no lavabo para fugir de um Pistorius enfurecido e que o atleta sabia que ela estava por atrás. Portanto, sua intenção de matar teria sido clara. Nel pede condenação à prisão perpétua para o atleta, o que significaria um período mínimo de 25 anos de cadeia.

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