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Os estudantes venezuelanos reúnem milhares de manifestantes

As ruas de Caracas voltaram a encher-se em um novo dia de protestos apesar dos sete dias de feriado pelo Carnaval

Protestos na Venezuela. Atlas

Dezenas de milhares de pessoas se mobilizaram outra vez em Caracas este domingo para manter a pressão nas ruas sobre o Governo do presidente Nicolás Maduro. O movimento estudantil universitário, que desde 12 de fevereiro lidera os protestos em todo o país e já se perderam 18 vidas, convocou uma passeata que partiu de quatro pontos da cidade – simbolizando os quatro temas das principais reivindicações estudantis – para reunir-se na Praça Brión de Chacaíto.

Ainda que estes dias se tenham produzido vários eventos numerosos e a passeata de domingo se limitou a recorrer as tradicionais regiões da classe média contestadora, o grande público do ato representou uma vitória para os setores opositores em outra escaramuça do que poderia denominar-se a Batalha do Carnaval na Venezuela.

O Governo, posto em cheque pelos focos persistentes de distúrbios durante quase três semanas, apostou que o feriado de carnaval – aproveitado regularmente pelos venezuelanos para ir a praia ou sair em excursão – serviria para desmobilizar os protestos e deixar em evidência a vanguarda que organiza as manifestações. Para reforçar esse esperado efeito de congelamento, o presidente Maduro declarou ponto facultativo outros três dias mais, incluindo a próxima quarta-feira (quarta de cinzas) em que se celebra o primeiro aniversário de falecimento de Hugo Chávez.

Que os estudantes tenham conseguido encher as ruas de Caracas e outras cidades do país – como Mérida e Barquisimeto – um domingo de carnaval e frente a uma oferta tentadora de sete dias de férias, demonstra a capacidade organizadora e política do movimento.

Enfrentamentos após os protestos.
Enfrentamentos após os protestos. AP

“Nós não estamos cansados nem nos cansaremos, o compromisso desse movimento estudantil é com o país e é o país que nos mobiliza a seguir nas ruas.”, disse na escala final da passeata Juan Requesens, presidente da federação de Centros Universitários (FUE) da Universidade Central da Venezuela (UCV), estatal, a mais antiga e importante do país. Requesens, o único orador no ato, aproveitou também seu discurso de meia hora para responder em público os convites de diversas autoridades governamentais, que incluem o presidente Maduro e o vice-presidente Jorge Arreaza, vem fazendo para participar de uma mesa de diálogo com os jovens rebeldes. O porta-voz universitário se mostrou disposto a comparecer a uma reunião com os altos funcionários da revolução, sempre que se cumpram determinadas condições, como a transmissão do evento em rede nacional de rádio e TV, a adoção de uma agenda prévia, e o conhecimento de quem seriam seus interlocutores, entre outras. “Mas se pensam que vamos a Miraflores”, disse Requesens em referência ao palácio de onde despacha o presidente da República, “para desmobilizar o povo, não vamos a Miraflores”.

Quase simultaneamente, o presidente Maduro se dirigiu ao país em transmissão pela TV. Se encontrava no Paseo de Los Próceres, um circuito para desfiles militares ao sudoeste de Caracas, onde insistia em reanimar as festas de carnaval que já podem dar-se por perdidas. “Venceu o povo da Venezuela, porque venceram a felicidade e a paz.”, se congratulou de todas as maneiras o mandatário, “Venezuela está em paz, aproveitando nos rios, nas montanhas e nas praias”.

Usuários das redes sociais e operadores turísticos reconheceram que houve um fluxo discreto de visitantes nos pontos turísticos. Até foram reportados protestos da oposição em lugares turísticos como a Ilha Margarita e a Colônia Tovar, um povoado fundado por imigrantes alemães nos arredores de Caracas no século XIX. Nesta última localidade, o bloqueio de estradas – que os visitantes usam – foi dispersado por policiais com o uso de gases lacrimogêneos.

No domingo, grupos isolados do grande movimento de oposição protagonizaram choques contra forças anti-motim nas zonas de Las Mercedes, Santa Fé e Altamira da capital venezuelana. Em Mérida – cidade capital do estado homônimo e importante centro universitário -, protestantes repeliram com barricadas os ataques de grupos de base do chavismo. Também nos Andes venezuelanos, mas em San Cristóbal (estado de Táchira), os grupos rebeldes pareciam controlar amplas áreas da zona urbana.

Mesmo que o deslocamento de turistas pelo território venezuelano tenha sido menor durante este carnaval do que em outras temporadas, não significa que se trata de uma transferência de cidadãos para os protestos. Na realidade, muitos venezuelanos ficaram em casa devido ao alto custo de vida, a luta diária pelo abastecimento, ou o simples medo da insegurança nas estradas ou nos bloqueios de vias pelos manifestantes. A falta de diversos produtos de consumo diário está sendo sentida mais fortemente nestes dias, quando as datas festivas tiraram de circulação boa parte da insuficiente frota de caminhões de distribuição de alimento e insumos, ou – como no caso de Táchira-, o fornecimento foi interrompido pelas barricadas ou a ameaça de violência.

Duvidoso, aparentemente, sobre a forma como acabará com os protestos, o Governo de Maduro coloca uma atenção cada vez maior no controle do relato sobre a crise, antes mesmo que na gestão da própria crise.

Na sexta-feira, 41 pessoas foram detidas por soldados da Guarda Nacional na tentativa de amenizar os protestos na Praça França de Altamira, reduto opositor. Embora no princípio os meios de comunicação do Estado alertaram que durante o ataque tinham sido capturados “oito terroristas internacionais”, logo se soube que eram dois estrangeiros, um deles a fotógrafa italiana Francesca Comissari. Depois de ficar presa por um dia e ser apresentada diante do tribunal, foi liberada sem acusações. Já em liberdade, porém, a repórter fotográfica denunciou que não lhe devolveram seu equipamento de trabalho, que foi confiscado pelos militares.

No domingo, o Governo também denunciou uma campanha através das redes sociais “de direita” para conseguir que algum astro do cinema se referiria a situação da Venezuela durante a gala de entrega do Oscar, desde Los Angeles, Califórnia (Estados Unidos). Este evento de uma das maiores audiências televisivas na Venezuela, uma nação viciada em concursos de beleza e outras atrações de brilho. Como medida de precaução, Venecisión, o principal canal comercial de televisão, atribuiu a poderosa Organização Cisneros, que há décadas transmite ao vivo a premiação, anunciou que não a faria este ano. Ainda que na última hora atribuiu a restrições financeiras como desculpa para não transmitir, Venevisión se destaca desde 2004 por seus esforços para evitar qualquer atrito com o Governo bolivariano.

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