ABUSOS SEXUAIS NA IGREJA

A ONU exige que o Vaticano entregue os padres pedófilos à Justiça

O órgão acusa a Igreja de proteger sua imagem e não das crianças vítimas Pede compensação econômica pelos casos das Irmãs Madalenas na Irlanda A Igreja considera o gesto uma "interferência"

Federico Lombardi, em Madri.
Federico Lombardi, em Madri. Eduardo Parra / Getty Images

Nem panos quentes ou meias medidas. O Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança acusou o Vaticano de nunca ter reconhecido “a magnitude dos crimes” de abusos sexuais contra menores cometidos por sacerdotes e de “não ter tomado as medidas necessárias para proteger os menores”. Duas falhas graves que, combinadas, têm provocado uma continuação sistemática dos abusos e a impunidade dos agressores.

O alto organismo da Organização das Nações Unidas, com sede em Genebra, exigiu nesta quarta-feira ao Vaticano que, com a maior brevidade, “demita de seus cargos e entregue à polícia todos aqueles que são culpados de abuso sexual de menores”. O comitê, que em meados de janeiro ouviu as alegações do Vaticano, se manifestou “profundamente preocupado” com a situação da pedofilia na Igreja e pediu à Santa Sé que disponibilize seus arquivos para que tanto os sacerdotes pedófilos como “todos aqueles que cobriram seus crimes” possam ser chamados a prestar contas às autoridades civis.

“O Vaticano rompeu a Convenção sobre os Direitos da Criança”, disse uma porta-voz da comissão. “Manteve políticas e práticas que levaram à perpetuação dos abusos e a impunidade dos agressores”, como, por exemplo, transferir os culpados de uma paróquia para outra para “tentar esconder os crimes”.

No caso das lavanderias das Irmãs Madalenas, na Irlanda, onde as meninas eram obrigadas a fazer trabalhos forçados, a Igreja não tomou medidas para evitar que os abusos se repetissem. A ONU pediu a abertura de uma investigação interna neste caso e em instituições religiosas e similares para que os responsáveis sejam julgados e as vítimas e suas famílias obtenham compensações financeiras.

O observador permanente do Vaticano na ONU, Silvano Tomasi, compareceu em 16 de dezembro na organização internacional e afirmou que “os agressores” estão entre as “profissões mais respeitadas”, incluindo os “membros do clero e funcionários da Igreja”. Ele também enfatizou que “não há desculpa” para qualquer forma de violência contra as crianças e que os abusos “nunca podem ser justificados”, sejam abusos cometidos em casa, na escola ou na Igreja. Esta tem sido a política de “toda a existência” da Santa Sé, disse ele, acrescentando que a Igreja receberia qualquer sugestão do Comitê sobre os Direitos da Criança.

“Os casos deveriam ser tratados pelas autoridades de cada país para que a privacidade das crianças não seja comprometida”, disse nesta quarta-feira um porta-voz da agência internacional, o que não acontece por causa do “código do silêncio” imposto aos clérigos pela hierarquia da Igreja sob pena de excomunhão. “O Comitê está seriamente preocupado que o Vaticano não reconheceu a extensão dos crimes cometidos. Tampouco tomou as medidas necessárias para lidar com casos de abusos sexuais, nem proteger as crianças.”

O relatório foi publicado após as perguntas que um painel de especialistas apresentou aos membros da hierarquia da Igreja no mês passado. O Vaticano, então, admitiu que há abusadores entre o clero, mas evitou dar detalhes. A ONU pede que a comissão criada pelo papa Francisco em dezembro investigue todos os casos de abusos sexuais de crianças, bem como “a conduta da Igreja”.

O Vaticano responde

O Vaticano reagiu às críticas da ONU sobre a falta de proteção das crianças contra os abusos do clero acusando o organismo de "interferir no ensino da Igreja Católica sobre a dignidade da pessoa humana e exercício da liberdade religiosa". O comunicado emitido afirma que as duras observações da ONU sobre a impunidade dos religiosos acusados de pedofilia "serão submetidas a detalhados estudos e exames respeitando a Convenção [sobre os Direitos das Crianças]".

O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, que está Madri, também defendeu a Igreja dizendo que muitas das acusações sobre casos de abusos a menores por parte de membros de clero correspondem a posições "muito ideológicas", mas admite que a igreja tem de explicar sua posição e "quais são seus erros".

O reconhecimento gradual por parte do Vaticano

  • Bento XVI (2005/2013) protagoniza um papado marcado pela revelação dos casos de pedofilia dentro da Igreja. Entre eles, o escândalo provocado por um relatório de 2009 que detalhava décadas de violência sexual contra crianças em orfanatos, reformatórios e escolas de propriedade ou dirigidas por membros da Igreja Católica na Irlanda.
  • O papa emérito decreta a tolerância zero para abusos após ser acusado de encobrir padres pedófilos durante seus anos como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo para o qual foi nomeado por João Paulo II em 1981.
  • Em 2010, o Vaticano publicou seu guia interno contra os abusos. Em vigor desde 2003, convida os bispos a denunciar os pedófilos à Justiça comum.
  • O Vaticano reúne em Roma, em fevereiro de 2012, em um simpósio sem precedentes, os superiores de ordens religiosas, representantes de conferências episcopais e algumas de suas vítimas. "As mesmas mãos que me abusavam, me davam a comunhão", disse diante da hierarquia católica Marie Collins, uma irlandesa que sofreu abuso aos 13 anos.
  • Pouco depois de iniciar seu pontificado, em julho de 2013, Francisco muda com um Motu Proprio – documento que só os papas podem emitir – as normas legais do Estado da Cidade do Vaticano. Entre outras coisas, endurece as penas para os casos relacionados a abusos de menores.
  • Em 6 de dezembro, o papa e os oito cardeais que o assessoram na reforma da cúria anunciaram a criação de uma comissão para lutar contra a pedofilia.
  • Em 16 de janeiro de 2014, o porta-voz do Vaticano na ONU compareceu diante de um painel de especialistas da organização, mas evitou abordar a questão.