Coluna
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Sementes de laranja-lima

A noite de 9 de março de 2013 me viu entre os 280 espectadores que lotavam o anfiteatro do Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases (MG), para assistir a pré-estréia do longa-metragem Meu pé de laranja-lima, de Marcos Bernstein, que teve locações na cidade e na região (Abaíba, Piacatuba e Recreio). Perturbado, sem saber o porquê, na manhã seguinte voltei para São Paulo disposto a retomar, com urgência, o livro que deu origem ao roteiro, lido em minha juventude por insistência de uma amiga, Rose Lopes Pinto. (Depois, me lembrei que havia acompanhado, de maneira intermitente, a novela, escrita por Ivani Ribeiro, levada ao ar entre novembro de 1970 e agosto de 1971 pela TV Tupi – mas, como?!, se eu morava num cortiço onde não havia televisão, falto de tudo!...)

O romance de José Mauro de Vasconcelos é um dos livros mais traduzidos da literatura brasileira – pode ser lido em 52 línguas diferentes, o que garante ao autor um lugar de destaque, junto com Paulo Coelho e Jorge Amado, entre os escritores nacionais mais conhecidos no exterior. Além disso, teve duas adaptações para o cinema (1970 e 2013) e três para a televisão (1970, 1980 e 1998), e alcança mais de 130 edições desde seu lançamento, em 1968. Trata-se de um relato autobiográfico, que narra as agruras de uma criança pobre tentando sobreviver num meio hostil. Sensível e curioso, Zezé, o protagonista, enfrenta o alcoolismo do pai, a subserviência da mãe, as humilhações sociais e as dificuldades econômicas, escapando da realidade por meio da fantasia: o pé de laranja-lima existente no quintal da casa torna-se seu melhor amigo e confidente.

A força de O meu pé de laranja-lima, no entanto, não está na condução do texto, que a todo momento apela para o sentimentalismo fácil, mas no fato estarrecedor, que poucos leitores se dão conta, de que o final da história não está na conclusão do livro, mas em sua dedicatória... Se, após acompanhar as peripécias de Zezé ao longo de 180 páginas, voltarmos ao início, leremos: “Aos mortos: meu preito de saudade para meu irmão Luís, o Rei Luís, e minha irmã Glória; Luís desistiu de viver aos vinte anos e Glória aos vinte e quatro também achou que viver não valia mesmo”. Ou seja, dos cinco irmãos que formavam a família de José Mauro de Vasconcelos, dois se mataram! Eles não suportaram conviver com os traumas provocados por um pai alcoólatra, extremamente agressivo e intolerante, e por uma mãe que, embora sofresse ela também os ataques do marido, se omitia submissa às surras tomadas pelos filhos.

Só após a revisita ao livro percebi o que me havia incomodado naquela noite de 9 de março de 2013: O meu pé de laranja-lima, dedicado ao público juvenil, sem o pretender é um libelo contra a violência doméstica. Lembrei então como sua leitura, na adolescência, havia iluminado o sombrio cortiço onde morava minha infância solitária. Ali, intuí pela primeira vez o fracasso do ser humano. Frustrados, decepcionados, desiludidos, homens e mulheres – mas principalmente homens – descontavam o desencanto com o rumo de suas vidas cinzas, espancando crianças indefesas entre quatro paredes.

Todos os dias são registrados cerca de 400 notificações de violência doméstica contra crianças e adolescentes no Brasil – um número que, sabemos, está muito aquém da realidade. As descrições mais freqüentes são marcas na pele provocadas por murros, tapas, surras de chicote, fios e vara ou por queimaduras de cigarro, ferro elétrico, água fervente e objetos aquecidos. Também são comuns fraturas de ossos (braços, pernas, crânio, costelas e clavículas) e lesões de vísceras (ruptura de fígado, baço ou intestino). Nos casos de abuso sexual, as denúncias quase nunca redundam em processo legal, porque os pais não acreditam no relato dos filhos ou os policiais não crêem nos informes dos pais, por falta de provas físicas (somente 30% dos casos resultam sinais evidentes).

Em minha casa não se batia. Meu pai tinha ojeriza a qualquer tipo de violência e minha mãe exalava tanta compreensão que evitávamos contrariá-la. Mas formávamos uma ilha num oceano de intolerância. Os esganiçados gritos de dor e os débeis pedidos de socorro labirintavam pelo beco – os instrumentos corriqueiros utilizados para as coças eram o corrião, as mãos e os pés, no caso dos homens, o chinelo, o fio de tomada e a vara de marmelo, no caso das mulheres. Nosso vizinho de parede-meia, seu J.B., no entanto, ostentava uma larga tala de couro com punho de madeira pendurada na porta da cozinha.

Certa feita, chegando bêbado em casa, o que não era incomum, após um dia de estafante labuta na fábrica de tecidos, seu J.B. passou a ofender a filha com palavrões e xingamentos. A mãe, dona Z., tentou interceder em favor de F., o que irritou ainda mais o marido, que começou a estapeá-la. O filho, D., que fazia aniversário no mesmo dia que eu, meteu-se entre os dois, e, então, tomado de ódio, seu J.B. pegou a tala de couro e principiou a golpeá-lo com tal crueldade que meu pai, um homem franzino e adoentado, e minha mãe, magra e delicada, invadiram a casa e agarraram-no, impedindo que continuasse a atrocidade.

Algumas décadas mais tarde busquei localizar os personagens de minha infância, num exercício que penso inútil e talvez um pouco egocêntrico, pois no fundo o que desejamos é comparar a extensão e a qualidade do caminho que nós mesmos percorremos. Indaguei de um e outro e descobri que a maior parte de meus amigos – daqueles que compartilharam uma infância triste afundada num mundo desesperançado – havia desaparecido, sem deixar rastros. Dos que tive notícia, todos, precocemente envelhecidos, achavam-se envolvidos com drogas ou álcool ou apresentavam problemas de saúde. Seu J.B. e dona Z. mortos. F. mudara-se para uma cidade distante, que não me souberam especificar. D. constituíra família, morava numa casa modesta num bairro da periferia da cidade. Chegava em casa bêbado, após uma estafante jornada numa empresa de eletricidade, e descontava sua frustração espancando a mulher e os filhos com a tala de couro herdada do pai.

Luiz Ruffato é escritor.