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Ao sambódromo, sem silicone

No Rio, acaba de acontecer um fato surpreendente: uma escola de samba convoca um processo para selecionar mulheres sem plástica nos seios e demora três meses para encontrá-las

Desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel em 2013.
Desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel em 2013.

É internacionalmente sabido que o Brasil é um país onde o culto ao bumbum da mulher é uma questão que ocupa um espaço privilegiado nos clubinhos masculinos. Nas últimas décadas, a preocupação por uns peitos bem moldados também ganhou protagonismo em grandes núcleos urbanos como Rio de Janeiro ou São Paulo. No Rio, acaba de acontecer um fato tão inédito como surpreendente que poderíamos resumir em dois atos: o primeiro, uma escola de samba convoca um processo de seleção de 20 mulheres com a condição inegociável de que não tenham silicone nos seios. O segundo, a mesma escola demora três meses para encontrá-las. A pergunta que qualquer pessoa se faria é se o agrupamento carnavalesco exigia, além disso, que os corpos fossem esculturais. A resposta é não. As 20 selecionadas são mulheres normais, que em alguns casos superam os quarenta e que ganham a vida longe das passarelas, por exemplo, nas periferias da cidade como empregadas de uma empresa de impressão. A notícia residiu, singelamente, na dificuldade vivida pela escola para reunir as 20 mulheres com os peitos sem cirurgia. E na leitura que pode ser feita disso em um país como o Brasil, onde as clínicas de cirurgia estética e as academias funcionam a todo vapor.

As 20 selecionadas desfilarão no próximo carnaval pela Marquês de Sapucaí (o Sambódromo desenhado pelo falecido arquiteto Oscar Niemeyer) sobre um carro abre-alas da escola Mocidade Independente de Padre Miguel, uma dos agrupamentos mais tradicionais do carnaval carioca. O fato pode parecer um convite à reflexão para uma sociedade vidrada em determinados padrões físicos de beleza (como a bunda e os peitos proeminentes) que ao mesmo tempo olha com receio a prática do topless nas praias.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o implante de prótese mamária é a segunda intervenção estética mais realizada no país. Só a lipoaspiração ganha. Em 2011, quase 150.000 brasileiras operaram os seios. O dado prova claramente a febre crescente pelos peitos bonitos que se estende pelo Brasil, conhecido por ser um dos destinos mais tradicionais do denominado “turismo de bisturi”. A qualidade da cirurgia plástica brasileira é mundialmente conhecida, impulsionada por nomes como Ivo Pitanguy, sempre presente às listas dos melhores cirurgiões plásticos do planeta.

O cirurgião plástico Eric Frederik, que opera no Rio de Janeiro, opina que o interesse pelos implantes mamários no Brasil foram potencializados pela conjuntura econômica que vive o país e pelo fácil acesso ao crédito. “Gente que antes não tinha meios e que hoje pertence à denominada nova classe média opta por este tipo de tratamento”, explica. A mesma fonte ressalta que as brasileiras nunca se caracterizaram por terem os seios voluptuosos, mas nas últimas décadas legiões de mulheres de 18 a 30 anos abraçaram o “padrão americano em detrimento do francês”, caracterizado pelo minimalismo. “A globalização e os meios de comunicação tiveram muito a ver com isto”, acrescenta.

A arquiteta Mayene Precioso, de 35 anos, decidiu há dois anos se submeter a uma operação de implante mamário. “Desde pequena achava que tinha uma desproporção em meu corpo, que tinha muita bunda e pouco peito. Foi uma das melhores decisões que tomei na minha vida porque melhorou muito minha autoestima. Não é uma questão só de estética, mas de estar bem comigo mesma”, explica.

Contatado pelo EL PAÍS, um diretor da escola Mocidade Independente de Padre Miguel não quis explicar os motivos que levaram o agrupamento a selecionar mulheres sem silicone no peito.