O falso intérprete do funeral de Mandela evitou a cárcere após matar dois homens

Não foi processado porque o juiz declarou que sua esquizofrenia lhe exime de responsabilidade Foi enclausurado em uma instituição mental durante 18 meses Ao receber a alta voltou a seu gueto, nas periferias de Soweto

O falso intérprete, junto a Barack Obama.
O falso intérprete, junto a Barack Obama.ALEXANDER JOE (AFP)

Não chegou nem a ser processado porque o juiz declarou que sua esquizofrenia lhe exime de toda responsabilidade penal. Mas o intérprete de linguagem de sinais do funeral de Nelson Mandela matou dois homens que roubavam uma televisão. Os fatos remontam a 2003, quando um grupo, no qual se encontrava Thamsanqa Jantjie, surpreendeu os ladrões, ataram um pneu ao pescoço deles e os queimaram, provocando suas mortes. O método era utilizado durante a luta contra o apartheid para castigar os que eram considerados colaboradores do regime supremacista.

Um primo e três amigos do intérprete explicaram à agência AP que Jantjie, de 34 anos, se livrou do julgamento três anos após o assassinato, mas que foi enclausurado em uma instituição mental durante 18 meses e que, ao ser receber a alta, voltou a seu gueto nas periferias de Soweto.

O próprio intérprete, que se encontra em paradeiro desconhecido e não atende os telefonemas, admitia no jornal sul-africano Sunday Times que participou de um delito “comunitário”, comum na África do Sul, no qual a multidão faz justiça com as próprias mãos. Além disso, Jantjie também admitiu ter tido um passado “violento”.

Jantjie conseguiu eclipsar inclusive a Mandela após sua intervenção na cerimônia popular no Soccer City de Soweto. O intérprete estava contratado para traduzir os discursos dos mandatários internacionais convidados à linguagem dos sinais. No entanto, a Federação de Surdos da África do Sul denunciou que seus movimentos de mãos não tinham significado e foram incompreensíveis para o coletivo que contemplava ao vivo as quatro horas do ato.

Em uma entrevista ao Times local, Jantjie justificou sua atuação ao ter um surto de esquizofrenia durante sua participação e chegou inclusive a afirmar que apesar de começar bem, o cansaço ou a emoção do momento lhe provocaram um ataque no qual ouvia vozes de anjos e alucinações.

O Governo sul-africano abriu uma investigação de alto nível para esclarecer os fatos que deixaram os cidadãos perplexos, justo no momento em que o mundo olhava para o país no último adeus ao líder mais carismático de sua história.

Depois de seu fiasco em Soweto, a imprensa local se aferrou a Jantjie e não parou de publicar notícias sobre seu suposto histórico penal, que começa em 1994 ao ser acusado de violação; de roubo uns anos depois, de assaltar uma casa em 1997 e de provocar de forma deliberada danos em uma propriedade e da tentativa de assassinato e de sequestro em 2003, além do assassinato dos dois ladrões. Destes, só se conhece a condenação de três anos pelo furto, embora também não está claro se acabou preso. Como se fosse pouco, está sendo investigado pela Fazenda por uma suposta fraude fiscal de mais de 300.000 reais.

O caso de Jantjie não foi o primeiro no qual as autoridades sul-africanas foram ridicularizadas. Durante as visitas prévias para a fiança do paraolímpico Oscar Pistorius, o chefe da investigação, Hilton Botha, foi afastado do caso após 24 horas da sua declaração ante o juiz, já que a Promotoria havia informado que o policial tinha um julgamento pendente por sete tentativas de assassinato.

Segundo a acusação, Botha, que estava bêbado, atirou numa van com sete passageiros em um controle, para que parasse. Na instrução específica do caso Pistorius, o que atraiu a atenção das centenas de meios internacionais, foi também os maus hábitos do policial, que entrou na cena do crime sem a proteção adequada para não contaminar as provas.

Por outro lado, a África do Sul celebrou o Dia da Reconciliação com a inauguração de uma grande estátua de Mandela no Union Buildings de Pretoria, a sede do Governo. A festa foi instituída durante a presidência de Madiba, que desde ontem descansa no mausoléu familiar da aldeia de Qunu, na província do Eastern Cape.