I Guerra Mundial, o retorno a um imenso banho de sangue

O iminente centenário, em 2014, do início da Primeira Guerra Mundial provoca um renovado interesse pelo conflito e a edição de numerosas e valiosas revisões

Soldados alemães durante a Primeira Guerra.
Soldados alemães durante a Primeira Guerra.Bettmann/CORBIS

A terrível apoteose da trincheira e da rede de arame farpado. Foi uma carnificina em grande escala e significou o naufrágio da civilizada Europa numa barbárie como não se via no continente desde a Guerra dos Trinta Anos. Perto do início do ano do centenário da Primeira Guerra Mundial -- que começou no verão de 1914 e se estendeu até novembro de 1918 -- um novo lote de livros chega para revisar aquela hecatombe, aquele longo túnel de sangue e escuridão -- como a denominou André Gide --, que representou o fracasso dos ideais de uma geração e uma colheita de destruição e morte inimagináveis.


Quatro impérios, o russo, o austro-húngaro, o turco e o Reich alemão haviam desaparecido ao término da contenda, junto com 9 milhões de combatentes, sem contar os civis. Foi uma guerra que começou forte: só nos primeiros cinco meses de de conflito em 1914, o exército francês teve já mais de um milhão de baixas e os alemães 80.000 só em outubro, em Ypres (Batalha de Frandres).

Restam coisas para se explicar sobre aquela guerra? Indubitavelmente. O caminho que conduziu a ela ainda não está claro. Poderia se ter ido em outra direção? Por que o internacionalismo proletário não conseguiu vencer a corrente do patriotismo nacionalista? Alguns palcos de operações foram muito pouco estudados, como o da invasão da Sérvia pelo exército austro-húngaro; outros, merecem ser revisados.

Dois dos grandes (e apaixonantes) livros que abriram o fogo na fronteira do aniversário são The war that ended peace: the road to 1914 (na edição espanhola, 1914 - Da Paz à Guerra), de Margaret MacMillan, e Catastrophe 1914: Europe goes to war (na edição espanhola, 1914, o ano da catástrofe), de Max Hastings, ambos reconhecidos historiadores -- e os dois leitores que, como muitos dos interessados na Grande Guerra, lembram (lembramos) com prazer Os canhões de agosto (The guns of August , 1962), de Barbara Tuchman.


De acordo em muitas coisas, como em que os terroristas sérvios mataram o homem errado naquele 28 de junho de 1914, pois o arquiduque Francisco Fernando teria se oposto à guerra; em destacar a estupidez do kaiser Guilherme II, cujo perfil psicológico beirava a insanidade, o papel da opinião pública (um fator novo na História) e em buscar os pontos de conexão com a atualidade, os enfoques de MacMillan e Hastings são diferentes. Se a primeira foge dos maximalismos, se centrando de maneira pontilhista em tentar entender (e explicar) a cadeia de acontecimentos e decisões que levaram ao fracasso da paz, e afirmando que a guerra não era em absoluto inevitável, o segundo não vacila em responsabilizar a Alemanha e afirma que moralmente era justificável ir para a guerra contra as potências centrais, como o foi lutar contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial.


Hastings explica detalhadamente os movimentos dos exércitos enquanto que MacMillan, que destaca a importância dos indivíduos na História, aprofunda nas personalidades e sentimentos dos homens que tomaram as decisões (enfatizando, de passagem, que não houve nenhuma mulher).

O aniversário nos coloca de novo no doloroso mas apaixonante umbral daquele mundo de polius, pickelhaubes e baionetas, de velha guerra (“Le pantalon rouge, c'est la France!”) transformada em nova, tão letal, na qual, como disse um general, "três homens e uma metralhadora podem deter um batalhão de heróis". Um mundo em que a temeridade política, que tantos rendimento havia dado antes, o medo mútuo -- se atacava em auto-defesa -- e o patriotismo conduziram ao desastre. Um mundo cheio de lições.

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