As três mulheres estavam presas por “correntes invisíveis”

Segundo a Scotland Yard, o medo e a coação impediram que as resgatadas fugissem do cativeiro

Aneeta Prem, a fundadora da ONG à que alertaram as mulheres, Freedom Charity.
Aneeta Prem, a fundadora da ONG à que alertaram as mulheres, Freedom Charity.ANDY RAIN (EFE)

Durante 30 anos estiveram escravizadas por um casal em uma casa normal de uma rua normal do sul de Londres, mas não estavam atadas ou trancadas. As três mulheres de 30, 57 e 69 anos libertadas no final de outubro podiam ter fugido, mas não o fizeram. Por que? Porque como definiu a Scotland Yard, elas estavam atadas com umas “algemas invisíveis”, umas algemas que tinham o formato de medo e de coação.

Quiçá seja isso o que levou a polícia londrina a acumular informação sobre o caso, antes de atuar contra os supostos responsáveis, um casal de origem asiática, ambos de 67 anos, que não são britânicos, mas há muitíssimos anos residem no país. A Scotland Yard demorou quase em um mês para decidir se atuaria contra eles: o tempo que passou desde a libertação das mulheres, em 25 de outubro, e as detenções na quinta-feira passada no bairro de Lambeth.

A polícia deixou o casal na mesma quinta-feira à noite em liberdade provisória até janeiro, com a condição de que não vivam na casa em que estavam com as mulheres, cuja localização segue sem ser revelada. A Scotland Yard informou que o casal já foi detido ao menos em uma outra ocasião, nos anos 1970, mas não quis revelar as razões daquela detenção. Acredita-se que, na ocasião, eles também tiveram problemas com os serviços sociais.

O sigilo em torno das investigações é enorme, já que, apesar das aparências, pode não ser tão fácil conseguir uma condenação. Por enquanto, o casal é suspeito dos crimes de trabalho forçado, escravidão doméstica e imigração. A polícia confirmou que as mulheres foram submetidas a maus tratos. E não se explica por que não tentaram abandonar a casa antes.

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O comandante Steve Rodhouse, da Polícia Metropolitana, explicou que se trata de um caso “único” que deriva em um “complicado e perturbador quadro de controle emocional durante muitos anos”. E acrescentou que a polícia está tentando compreender “as algemas invisíveis que foram utilizadas ao extremo para se conseguir controlar estas mulheres”. “Lavagem cerebral pode parecer um termo muito simples, mas seria subestimar os anos de abusos que sofreram”, acrescentou.

A polícia inspecionou na quinta-feira, durante 12 horas, a casa em que as mulheres estavam enclausuradas e levou dela 55 sacos e um total de 12.500 itens como provas potenciais.

O detetive inspetor Kevin Hyland, da unidade de tráfico de pessoas da Scotland Yard, assegurou que os 37 membros da unidade estão trabalhando no caso. Embora a polícia tenha descartado que as mulheres fossem vítimas diretas do tráfico de pessoas, o caso levantou discussão sobre os complexos e muitas vezes entrelaçados problemas do tráfico de pessoas, da escravidão sexual ou trabalhista e dos casamentos forçados.

SOAC, a agência que luta contra o crime organizado em larga escala, identificou no último ano no Reino Unido 2.000 vítimas desse tipo de delitos, procedentes de 50 países, sendo que uma em cada quatro são meninos. Estima-se que 4.700 pessoas vivam em escravidão virtual no Reino Unido, 400 casos aconteceram nos últimos três meses.

O enviado especial do Ministério do Interior contra a escravidão, Anthony Steen, fez um apelo que “os vizinhos de todo o país sejam conscientes sobre a maneira de identificar a escravidão no mundo moderno de hoje em dia”. “Este caso é só a ponta do iceberg”, disse, e alertou de que os casos de escravidão doméstica e tráfico de pessoas estão em alta no Reino Unido.

A organização Freedom Charity, protagonista da libertação das três mulheres depois que uma delas se atreveu a entrar em contato com eles quando viu um programa de televisão, assegura que recebeu telefonemas de muita gente que diz se encontrar na mesma situação que elas.