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Argentina se mobiliza por Higui, lésbica presa por matar o homem que tentou estuprá-la

Ela é acusada de homicídio, enquanto a defesa alega que é uma vítima de violência de gênero

Higui
Eva Analía de Jesús, mais conhecida como Higui.

Eva Analía de Jesús, Higui, saía da casa de amigos quando, no corredor do edifício, foi atacada por três homens. “Vou fazer você se sentir mulher, forra (estúpida), lésbica”, disse um deles na noite de 16 de outubro de 2016 no bairro de San Miguel, em Buenos Aires, segundo seu depoimento ao juiz. Higui afirma que começaram a bater nela, com um soco a jogaram no chão e rasgaram sua calça. Segundo sua versão, quando um dos agressores caiu sobre ela para penetrá-la, Higui tirou uma faca que tinha escondida no sutiã e cravou em seu peito. Foi uma punhalada fatal. Cristian Rubén Espósito não passou dessa noite. Higui, de 43 anos, está em prisão preventiva desde então, acusada de homicídio pela Promotoria. Suas advogadas alegam que é uma vítima de violência de gênero que agiu em legítima defesa diante de um estupro ‘corretivo’.

Na quinta-feira, dia 8 de junho, foi realizada nova audiência para pedir sua libertação nos tribunais de San Martín. Os juízes têm cinco dias úteis para responder ao pedido. Enquanto a advogada de defesa falava, dezenas de pessoas se concentraram nas portas do edifício para exigir que a acusada fique livre até a realização do julgamento. Há cinco dias, o apoio popular à acusada foi enorme. “Liberdade para Higui. Atacada por ser lésbica, presa por se defender”, lia-se em vários cartazes na última mobilização argentina contra os feminicídios sob o lema Nem Uma a Menos, que percorreu as ruas de Buenos Aires no sábado, dia 4. Sua libertação também foi uma das exigências negociadas entre as organizações que convocaram a manifestação e incluída no documento final lido na Plaza de Mayo. Inclusive o ex-jogador colombiano René Higuita, a quem Higui deve seu apelido, saiu em sua defesa nas redes sociais.

A Promotoria não descarta que De Jesús tenha agido em legítima defesa, mas até agora “não tem provas” que confirmem e por isso mantém o pedido para que continue em prisão preventiva, detalha o secretário geral da Promotoria de San Martín, Ignacio Correa, em entrevista ao EL PAÍS. Segundo a declaração de duas testemunhas, Espósito e Higui “tiveram uma discussão e ela cravou uma punhalada em seu peito”. Correa nega que haja alguma irregularidade na causa.

Para a advogada de defesa, Raquel Hermida, a lista de irregularidades é longa. As duas testemunhas contra Higui eram os amigos de Espósito que quiseram estuprá-la em grupo. Quando a polícia a deteve, colocou em dúvida sua versão. “Por que vão te estuprar se você é tão feia?”, disse a ela um dos agentes. Sua família não conseguiu vê-la até três dias depois. As fotos tiradas no primeiro dia, nas qual se viam os machucados resultantes dos golpes, não estão no processo. Uma médica certificou a surra, mas não pediu outros exames. A perícia psicológica, que concluiu que Higui não está mentindo, demorou cinco meses. Hermida opina que a discriminação às mulheres é comum nas instituições argentinas e se multiplica no caso de lésbicas e travestis.

A possibilidade de alegar legítima defesa por assassinato abriu vários debates na Argentina e a polêmica foi reaberta no ano passado com dois casos: um cirurgião matou a tiros um ladrão e um açougueiro perseguiu com seu carro e atropelou fatalmente um assaltante que tinha tentado roubá-lo. Nos dois casos, a Justiça lhes concedeu o benefício de esperar o julgamento em liberdade.

Higui, de 43 anos, tem seis irmãs e um irmão. Trabalha como jardineira e em seu tempo livre joga futebol. Segundo Azucena, uma de suas irmãs, foi alvo de ataques desde a adolescência por sua orientação sexual. Um dia a apedrejaram, em outro lhe roubaram a bicicleta e os insultos eram comuns em San Miguel, o bairro em que nasceu. Carregava uma faca para se defender. A advogada de defesa conseguiu estabelecer um precedente com a causa de Beatriz López, absolvida do assassinato de seu marido devido à violência de gênero que tinha sofrido durante anos. Junto à família, agora luta para tirar Higui da cadeia.

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