O JULGAMENTO DE BILL COSBY

A estratégia de Bill Cosby para desmentir acusação de estupro

Defesa do ator, acusado de abuso sexual, alega que relação foi consensual e até “romântica”

Bill Cosby, acompanhado da atriz Keshia Knight de 'A hora de Bill Cosby'
Bill Cosby, acompanhado da atriz Keshia Knight de 'A hora de Bill Cosby'Matt Rourke (AP)

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A hora derradeira de Bill Cosby começou nesta segunda-feira em uma cidade da Pensilvânia chamada Norristown, perto de Filadélfia. A poucos quilômetros dali, há 14 anos, uma mulher afirma que o famoso comediante a drogou e agrediu sexualmente. O juiz do tribunal onde nesta segunda-feira começou o julgamento contra o ator, Steven O’Neill, se dirigiu ao júri no início da audiência com uma pergunta: “Isto é importante. As suas cadeiras são confortáveis? Porque vão passar muito tempo aqui”, disse. O processo, uma bomba midiática, durará cerca de duas semanas e corre o risco de se transformar em um combate interminável entre a palavra de Andrea Constand, que o acusa, e a do ator, cujo advogado enfatizou, citando o relato de seu cliente, que a relação foi consensual e até “romântica”.

Cosby, de 79 anos, entrou na sala A do tribunal do Condado de Montgomery de braço dado com a atriz Keshia Knight, sua filha mais nova na famosa série, e outro acompanhante, vestido com roupa escura e gravata. Com aparência relaxada, até jovial, trocou abraços, tapinhas nas costas e sorrisos com sua equipe de advogados, com os quais manteve o que parecia uma conversa descontraída, como se o motivo pelo qual estavam ali não fosse o que era: o julgamento por agressão sexual de quem foi um ícone da televisão nos anos oitenta, uma referência da comunidade afro-americana, o inesquecível Doctor Cliff que lhe valeu o apelido de O Pai da América.

O ator, que está quase cego, ia acompanhado de uma das estrelas do "The Cosby Show", Keshia Knight Pulliam.
O ator, que está quase cego, ia acompanhado de uma das estrelas do "The Cosby Show", Keshia Knight Pulliam.David Maialetti (AP)

Dentro da sala não são permitidos câmeras, telefones ou qualquer tipo de transmissão. O juiz quer evitar que o julgamento se converta em um espetáculo como o de O. J. Simpson, o processo com o qual o caso Cosby vem sendo comparado pelos norte-americanos. Os 12 membros do júri, sete homens e cinco mulheres, passarão o tempo em que o julgamento durar incomunicáveis em um hotel, tentando afastar-se da tempestade midiática que este processo representa, algo palpável nesta segunda-feira em Norristown, onde as ruas ao redor do tribunal estavam tomadas pelas unidades móveis das redes de televisão.

Kristen Feden, a promotora auxiliar do distrito de Montgomery, disse durante mais de 40 minutos que Cosby usou contra Andrea Constand, uma canadense que então tinha 30 anos, “seu método já praticado” para incapacitá-la, dando-lhe comprimidos para ajudá-la com o estresse de que ela se havia queixado e, abusando de sua confiança e da amizade que os havia unido durante meses, poder abusar dela uma vez em que o visitou em sua casa. “Esses três comprimidos te ajudarão”, lhe disse, e depois “ela se sentiu paralisada, congelada, sem vida...”, afirmou a promotora. “Não pôde negar e não pôde consentir”, afirmou Kristen Feden.

O relato chove no molhado, já que cerca de 60 mulheres acusaram o ator nos últimos anos de ter abusado delas décadas atrás, mas praticamente todos aqueles casos prescreveram e Cosby só vai responder pela acusação de Constand. O juiz permitiu que declare como testemunha uma das outras mulheres que o denunciaram, que o acusa de ter procedido do mesmo modo com ela em 1996.

A defesa do ator, comandada por Brian McMongale, buscará minar a credibilidade de Cosntand, que, argumenta, manteve uma relação cordial com o ator durante meses depois dos fatos denunciados. “Telefonou-lhe 53 vezes”, acusou. “A agressão sexual é um delito terrível”, afirmou o advogado, “de vez em quando há uma falsa acusação que pode destruir uma vida”.

O sorriso com que Bill Cosby se apresentou acabou muito tempo antes do início do julgamento, justo quando entrou o júri e a audiência teve início. Depois ele passou um bom tempo brincando com o cabo de sua bengala entre os dedos.

Caso reaberto

O caso de Andrea Constand, que era diretora esportiva da equipe de basquete na Universidade de Temple quando conheceu o ator, patrono da instituição, tinha ficado parado mais de uma década. Ela o havia denunciado, mas os promotores não formalizaram acusações e o caso acabou em um acordo extrajudicial. Depois das denúncias públicas de uma série de mulheres e a revelação de uma antiga declaração do ator, mantida em segredo, na qual afirmava ter drogado mulheres para manter relações sexuais com elas, foi permitida a reabertura.