De senhor idoso a bebê angelical, o menino Jesus na história da arte

Pinturas medievais o apresentam como um homem em miniatura, velho e enrugado, no estilo Benjamin Button

Cabeçudos, com aspecto envelhecido pouco graciosos. As representações do menino Jesus na época medieval estão muito distantes da imagem angelical protagonizada hoje em dia por nossos presépios. Se estabelecêssemos um ranking de memes dentro da história da arte, o catálogo de bebês medievais ocuparia uma posição alta dentro do top 10. É inevitável ter dúvidas na contemplação dessas obras: o que levou os artistas a representar o filho de Deus de modo tão pouco gracioso? Por acaso não sabiam desenhar?

Vamos contextualizar. A Igreja foi protagonista indiscutível da Idade Média, gozando de amplo poder. Além de transformar os monastérios em autênticos centros do saber – produtores dos manuscritos iluminados, entre outras coisas – o cristianismo dominava o panorama artístico, sendo o principal promotor de obras. A maior parte das manifestações artísticas tinha temática religiosa e Jesus foi o protagonista de muitas delas.

Foi assim que a arte medieval se colocou a serviço da religião, sendo a ferramenta perfeita para a transmissão de seu dogma de fé a uma sociedade majoritariamente analfabeta. Deve ser, portanto, entendida como o que é: uma arte de profundo simbolismo, em que os artistas priorizavam a busca de recursos expressivos para cumprir com essa obrigação além da cópia mais ou menos fiel do que tinham diante de seus olhos.

Por que os bebês medievais parecem senhores em miniatura?

A representação de bebês na época medieval se limitava quase exclusivamente ao menino Jesus, que não era de maneira nenhuma um bebê comum. Dessa forma, o cânone não tinha nada a ver com a imagem inocente que temos dos bebês hoje em dia, e muito menos para a representação dos presépios.

A arte tende a ser o reflexo mais fiel do pensamento de sua época. As representações medievais do menino Jesus estão claramente influenciadas pela ideia do homúnculo, cuja tradução viria a ser “homem pequeno”. Essa sustentava a perfeição do filho de Deus desde seu nascimento, que teria vindo ao mundo plenamente formado, sem precisar passar por grandes transformações para chegar à idade adulta. Daí surgem as representações de Jesus como um senhor em miniatura, com os traços típicos de um adulto no corpo de um bebê, às vezes até com um princípio de calvície, como aparece na Madonna de Crevole de Duccio di Buoninsegna. Na verdade, todas elas têm um objetivo final: refletir sua sabedoria primitiva, sua perfeição de nascimento.

A aparência dos bebês medievais, portanto, não responde a uma imperfeição da técnica: os artistas sabiam pintar. Pelo contrário, as representações do menino Jesus dessa época criaram um autêntico cânone: pintar homenzinhos em miniatura simplesmente se transforma na maneira adequada de representar os bebês.

A mudança renascentista

O Renascimento trouxe a mudança definitiva nas representações do menino Jesus, ainda que não imediatamente, como mostra a obra de Mantegna. Além da Igreja, começa a existir uma classe social com poder aquisitivo suficiente para desempenhar um papel importante dentro do mundo artístico. É nesse momento que a arte religiosa começa a encontrar seu verdadeiro nicho de mercado. O menino Jesus deixa de ser o único bebê representado, já que muitas dessas famílias encomendavam retratos de seus próprios filhos nos quais evidentemente queriam ver seus bebês com a aparência bonita e adorável que os caracterizava.

Além disso, os artistas do Renascimento perseguem outros objetivos e isso afeta diretamente sua técnica. Agora sentem um interesse maior por moldar a realidade, ainda que sua obsessão com a beleza faça com que recorram habitualmente à idealização. E, como era de se esperar, isso também ajuda no aumento de representações de bebês mais realistas e angelicais. Nesse momento o conceito da infância passa a estar ligado à inocência: a característica principal dos bebês é que nascem sem conhecer a maldade, de modo que em suas representações esse aspecto é enfatizado. Os bebês nas obras de Rafael Sanzio são um claro exemplo disso: os anjinhos e o menino de sua Madonna Sistina pouco têm a ver com as representações de homúnculos feitas até o momento.

Procura-se o bebê menos gracioso da História da arte

Já houve quem tenha se atrevido a procurar e recopilar os bebês mais antiestéticos da história da arte. A conta do Tumblr Ugly Renaissance Babies se ocupou exatamente do que seu próprio nome indica: a procura e captura dos bebês mais feios da época renascentista. A youtuber e divulgadora cultural Sara Rubayo, mais conhecida nas redes sociais como a Gata Verde, também fez sua classificação dos bebês mais feios da história da arte. Você pode ver seu vídeo clicando aqui.

Veja abaixo alguns dos bebês medievais mais esquisitos da história da arte

1 – Virgem de Duccio di Buoninsegna (1283-1284)

2 – Virgem com menino e Santa Ana, de Masaccio (1424)

3 – A Virgem e o menino com um cacho de uvas, de Lucas Cranach (1509-1510)